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26 de junho de 2014

em dia de milagre, é preciso credo. sem sacolas, cabelos livres mas ordenados, olhos limpos, a rainha. firme e guiada, vestindo azul e manta branca, sapatos nos pés certos, purificada e sagrada virgem do mundo, segue tranquila pelos estacionamentos das comerciais. linda. dando a mão em bênção e cumprimento a todos que se aproximavam (rapidamente, numa tentativa ajustada e falha) de entrar no próprio carro e seguir sem tormenta, desavisados da normalidade dos fatos. no céu paira uma mensagem não anunciada por nenhum mensageiro: "vênia, mundo, que a Mãe passará". não é preciso preparo para a salvação, mas que susto: todos sabiam com mais força ou menos força que Alguém viria, contavam com o filho, com o pai, mas a Mãe?, ninguém foi informado. rainha de azul e branco se fez santa, pisando leve, sem história e determinada. ao existir, removeu a transparência das pessoas com fé, deu ao mundo o tom maior de incêndio e ordenação, caos particular e social, de suas religações totais do ordinário da vida com o mistério de seu sexo. ave!

21 de março de 2014

do punho aos pés vestida de negro, pele queimada de sol, cabelos em cachos brancos, a rainha e suas sacolas regem o mundo. a julgar pelo clamor de seus olhos, está cansada. atravessando lenta uma rua à outra, demorando-se em frente a vitrines comerciais em busca de uma decisão razoável entre comprar a morte ou vender a vida. passeando as suas sacolas carregadas de vozes e ninharias seriadas, alimenta lendas e rumores: ou viúva apaixonada por seu falecido homem, que era riquíssimo à sua custa e lhe tomou um por um os bens; ou professora aposentada do instituto de artes da universidade que trocou a academia por uma eterna performance; ou mãe abandonada pelos filhos que hoje a sustentam por um império de vergonha moral; ou mulher de família proveniente de uma grande depressão financeira que encontrou na rua uma casa; ou simplesmente a rainha destes terrenos, mulher sonhada por dom bosco, que pisa calçada com seus sapatos trocados a deixar rastros de curupira, guardando em silêncio o segredo da humanidade: que a loucura inflamada e a razão articulada são avesso e direito da mesma ordem.