8 de março de 2026
doce, salobra
pluvial, marinha
bruta, tratada
potável, torneiral
pura, mineral
cinzenta, negra
residual, poluta
superficial, subterrânea
glacial, termal
dura, mole
solvente universal, instrumento de tortura
com açúcar, com gás
benta, que passarinho não bebe
na boca, no joelho
dormida, suja
aquela, maior
de perfume, de toalete, de colônia
de coco, de cana, de flor
encanada, gritada em “vai!” pouco sanitária
em aguaceiro, em aguaçal
de janeiro, de março
rasas, profundas
dormentes, correntes
na qual se navega em duas, na qual se afoga em pouca
que é bebida na orelha dos outros, que é trazida no bico
passadas, passadas por baixo da ponte
como tempestade em copo de, como algo que é claro e bom como
quando fria usada para cozinhar, para amedrontar gato escaldado
da qual não se pode dizer que não beberemos
corrente não mata gente, mesmo marinheiro de doce
com azeite não se mistura
seja a gota de ou apenas mais uma no oceano
até que se abra e vá por abaixo e seja aquela
ou ainda a de primeira
a da vida
~
~
como propriedade da linguagem
tal convencionada em seu órgão primo
isto é a boca antes da mão
que há de se lubricar em língua para
o aparelho consoante a si poder
fazer falar plenamente ou seja
vencer a aridez do pensamento
com umidade, saliva e perdigotos
~
~
surgida de cima ou baixo
nasce e faz olho que
se enche e faz fio
une e se derrama em regato que
se junta e jorra como arroio que
mais em mais dá em riacho
corre e escorre e córrego que
flui e deflui em ribeira que
se agua caudal em ribeirão
se estaciona e logo alaga
lago ou lagoa ou laguna
não reflui, segue evaporada
de rio em rio se mana grande rio
por estuário sem saber qual foz
se em mais rio, mar ou oceano
mantém-se doce ou se salga
como o fruto ou a terra
sol, céu, sal e ciclo sabem:
correr é cair
subir é descer
descer é subir
~
~
rochas e solos encharcados
perenes e úmidos pela ação
lenta do mundo muito poroso
de superfícies infiltradas
fraturas secas ou molhadas
cavernas de nenhum acesso
em acúmulo formam bolsões
distribuídos em caos próprio
imaginamos o avesso imediato
contra essa avessa clausura
dentro do chão improvável
estão quietas e corrediças
(fogo barrento do demônio
arrefecido enfim pela ideia
prensada nos anos escolares
por religião e geologia confusas)
~
~
a confusa bobagem relativista de que
os povos inuit têm muitas palavras para
quando na verdade muitos são os afixos
descrevendo as possibilidades de variações
formando palavras-frase para dizer:
estados, tipos, estruturas, texturas
usos, comportamentos, idades, formas
cores, interações com o meio, afetos etc.:
limpa e floculada em dispersão
soprada pelo vento como cortina
ou em queda perene e vertical
repousada no chão se sujando
de desenhos feitos ou enganosos
ou claríssima em sua cegueira
dura e compactada tal terra
feita de adobe à necessidade
para morar na matéria mesma
como fractal marinho ou doce
acumulado em montes ou costas
de raspadinhas enfarofadas
sobrepostas em camadas e camadas
ou picadas em trilhas impossíveis
para mapas de olhos treinados
firme de pisar ou movediça
isto é segura e grossa e aderente
ou perigosa e fina e escorregadia
para beber e cozinhar e lavar
pescável ou imprestável
ao tempo de ser seca ou úmida
recém-caída ou -congelada
degelada ou recongelada
dirão a opacidade e a translucidez
em relação ao mar pode ser montanha
rente a ou boca aberta entre placas
cristais expostos ou invisíveis etc.
(contra a névoa da experiência
não fosse a liberdade deste branco-azul
ideias permanentemente congeladas
nas muito bem-comportadas formas
do incontestável freezer da geladeira)
~
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adensadas como se maciças
ou rarefeitas em gaze fina
claras por quase reluzentes
ou escuras e ameaçadoras
altas e muito distantes
ou baixas rente aos montes
“será que vai chover?”
boa prosa fundamental
da meteorologia vernacular
enquanto o oscar do som
se diverte apavorando
a população: “vai cho-ver!”
~
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de gota em gota surgem
estalidos que se esbarram
círculos úmidos em interseção
latarias fumegantes até o resfriamento
ruído estático, fritura estrondosa
chão molhado, cheiro metálico – poeira
alguns aceitam; outros apertam o passo
cara de surpresa e incômodo e lembrança
sacam capas ou sombrinhas ou improvisam
com papéis importantes de repente mais úteis
eleições dos descansos que podem ou não
marquises, coberturas, toldos, alpendres – árvores
à distância um véu cinzento unindo nuvem e chão
chapisco granulado borbulhando indiferente
horas embaciadas por uma lentidão forçada
um riacho empoçado no balão da avenida
vidros embaçados, folhas velhas, sacolinhas plásticas
cachoeira na boca de lobo – um barquinho
~
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eis a solução para sua má água
perfuração, limpeza, manutenção
correção, prevenção, regularização
assistência técnica e venda de materiais de última geração
motores, conexões, reservatórios e muito mais
reponsabilidade ambiental porque levada a sério
tratamos com profundidade aquilo que é vital
desde tubulares convencionais a semiartesianos
poços aqua maxima
porque no fundo do poço
há sempre uma bomba
~
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o que há na água senão
água somada a outras águas
que, sendo também parte
de um todo que não água
são dispersões visíveis ou não
que partem de ou se concentram
num corpo d’água ou não
mas dele dependente
para então se diluir em água
mais água e mais água
~
~
escorre e entope
chora e seca
vomita e engole
abre e fecha
nariz, olho, boca, rosto:
charada para as crianças
metáfora para os adultos:
de onde vem a água?
~
~
parece limpa, mas vem suja
vai decantando uma terra
no fundo da caixa d'água
pode perceber que a vela
do filtro fica gosmenta
meio que lodo e barro
é transparente por sorte
se encher uma piscina
tem que aspirar e tratar
não sei se se suja no caminho
por conta das construções
desse tempo poeirento
ou se é aquela lama da grossa
que a estação não consegue filtrar
e aí tacam cloro para compensar
às vezes eles chamam um piscineiro
pra ajustar os parâmetros e limpar
imagina só o tamanho da bomba
tirando quem tem poço
essa é a que tem para a cidade
fazer o quê? pelo menos não fede
~
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no alto da bacia do paranaíba
de porte menor que um rio
não há beleza no nome
feito passagem estreita
de sulco de água corrente
para irrigar e abastecer
caudaloso ou mirrado córrego
ora os cafezais se hidratam
ora as torneiras secam
novidade: barramento! estação!
o departamento projeta
a secretaria outorga
água à parte, do que se trata?
agro maior que eco?
quem é mesmo o feio?
~
~
era uma vez um vulcão muito, muito aborrecido
que tinha a boca muito, muito suja, sujíssima
cuspia palavrões demais e magmas mais demais ainda
a quem? não se sabe. sem muitos motivos, logo raivava
e estrondeava, lançando "fogos! infernos! pancada!" aos céus
(pobres céus!), mas também cinzas e gases e rochas
um dia, esgotou seu extenso e infeliz repertório de impropérios
espumando uma última vez "sol de rachar! cabeça de pedra! mosquitos!"
diante de sua lava já seca, o vulcão se percebeu inofensiva pedra-pomes
espumou-se tanto, tanto, tanto que se exauriu e decidiu então dormir
como se não houvesse mais nada interessante e atraente no mundo
a não ser... aborrecer? reclamar? xingar? que nada! dormir!
durante seu sono, sonhou com muita graça que era uma lagoa
feita sobre si mesmo enquanto roncava resmungando seus últimos xingos
as pedras que cuspiu ao redor de si formaram um chapadão ferroso
transformando sua boca em mera cratera de paisagem tranquila
a chuva, inevitável, encheu-o como um copo d'água bem calminho
e (grandes céus!) o vulcão gostou, calou-se e decidiu nunca mais acordar
~
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da sucessão das ascendências
de semelhante imemorável fio
d'água em fluxo e aos sorvos
como num bebedouro histórico
nenhum imaginário da secura
diante de tamanha generosidade:
a família ondeando abastecida
pessoas, bichos e terras hidratados
ele: o que originalmente desconheço
do que me hoje torna possível
existir: ele: nebuloso, fantasiado,
pantanoso, honrado: ribeirão sucuri!
~
~
aparecida das águas do paraíba do sul
em que pescadores esperavam um pescado
e vem à rede o milagre de maria pescada
desgastada em sua tinta hipnótica
pelo engano da semiótica mariana
(azul é teu manto, branco é teu véu)
quando sua origem é ribeira e doce
(turvo é teu manto, lodoso é teu véu)
mais amiga da hostilidade da água
portanto mais projetada à vida do povo
desde a conceição divinamente virginal
até o feitio que lhe molda em fé e terra preta
degolada, raptada, perseguida em seu folclore
recomposta, coroada, louvada em seu ornado
sincretizada em todo fervor, chutada ao vivo
comparada pelos seus domínios à coca-cola
mãe líquida em perene ternura e perdão
aos filhos, ao mundo, aos inimigos, a deus
até que se desague marulhosa em sua santidade
em tempo vingará as águas de sua aparição
fará rebentar caudalosa as calmarias
estremecerá milagres de todo cristal em barro
em sua candura brasil fará tal como apadrinha
mostrando enfim as tormentas de mãe entornada
ó, nossa senhora da conceição aparecida
aquosa virgem embebida de deus
rainha dos mananciais, da nascente à foz
santa cristalina, bentíssima das águas
refúgio e consolo dos liquefeitos e liquidados
sede fluidez e transparência na hora da morte
afluí purezas sobre esta gota indigna que sou
inundai-me em todas sedes e securas e turvações
chapinhai-me contra desidratações, afogos e outros desaguamentos
aspergi-me em todas as naus espirituais e empresas natatórias
regai-me muitas águas para molhar e remolhar e demolhar
por todas as aguagens e em todas as estações, amém
~
~
que mata em definitivo a sede
nascida como fonte que em si
faz saltar para a vida eterna
(dum poço antigo se tiravam espelhos
em fortuna uma samaritana se embebia
da palavra úmida do homem-deus)
a mesma emulada no batismo
viva e tornada a viver em ato
tal espírito santo solúvel
~
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sobreaguar? coisa de aguá!
encanto é estar encanada
à mão e ao simples gesto
em gotejos, filetes ou jatos
domesticada e sem respingos
ou em revolta e muito molho
~
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miados reclamam pelo gorgolejo
do ralo em sede e sorvedura;
cabeçadinhas mais desejos,
curiosidade aberta: fartura
pia e tanque são nova morada
da gata d'água em vário frescor
gotas pinpinpingam do arejador
pela torneira bem mal fechada
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o tempo da água é idêntico
à sua indiferença: passa
sem saber que passa, isto é,
passa sabendo se despassar
~
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(em cada gota há uma porção
pequena da água do tempo,
qual memória da chuva antiga
que fez dos desertos oceanos)
"veja" (gesto largo com a mão
encampando a paisagem), "tudo
que se dá ao alcance da vista,
o ar, as ideias: tudo foi e será água"
~
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(murmúrio d’água)
de um recipiente vazado a outro
graduadas vazão e pressão
em que níveis riscados na parede
dão como um relógio sem minutos
o momento oportuno de tornar
água furtada em tempo líquido
medindo sem sol a duração da noite
ou da fala anoitecida à luz do dia
~
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(estrondo encachoeirado do iguaçu)
do elogio à impermanência
pelo aforisma ribeirinho
borges alterado em outro borges:
diante do mesmo rio, não há entrada
idêntica a si mesma pela natureza
de quem entra e de quem é entrado:
o tempo ignora as águas do tempo
e, horror, descobre-se: nada flui
~
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(filtro de barro pingando)
de horas já engarrafadas
faz-se um dia neoliberal
com lembrete e motivação:
7 vamos começar, 9 hidrate-se
11 beba mais, 13 não desista
15 quase lá, 17 você consegue
19 falta pouco, 21 meta cumprida –
23 cansaço, outra sede: repetição
~
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(ruído discreto de lambidelas)
“a conta de água vai vir uma fortuna”
curiosa economia doméstica
de minúsculos metros cúbicos
pois sim, também a de energia
pela boa fonte elétrica e trazedora
da mesmíssima em novidade fresca
descansando a torneira enquanto
abeberam e bebericam os gatos
~
~
(thank your marks)
cinquenta metros cronometrados
cujo disparo fixa um objetivo
tentar cada vez menor
ou ao máximo não ultrapassar
maltratar-se à velocidade
fôlego de segundos ganhados
coração batendo dentro do ouvido
“assim que ouvir o sinal” – ouvir?
~
~
toda água existe em contenção
tudo capaz de conter água é aquário
logo, toda água existe em aquário
~
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balde dormindo com panos de molho
têmporas emolduradas de suor
boca alagada prestes a se afogar
sonhos interrompidos pela sede
ruído de água caindo
copo servido de madrugada
garrafa plástica com cheiro ruim
janela esquecida aberta na chuva
respingo de sua saliva quando me fala
sua boca, palavras íntimas:
aquário, aquário, aquário
(e se houver um nada
a água um dia lhe chegará
fazendo do nada – imagine só,
escute – chuá)
~
~
o aquário é um claustro
nada-se pensando em liberdade
até que se dê uma braçada na parede
de vidro como numa redoma infinita
a transparência se confunde com o meio
não abordar a borda por não imaginar
a resposta à pergunta que encobre
os pesadelos de estilhaço: por que nadar?
o aquário é um claustro até
que se eduque o nadador ao nado
diante da concretude de uma parede
contra um vidro a nunca ser quebrado
cabe se amigar da borda e respirar
ou pisá-la em viradas olímpicas
depois de muitos metros se perdem
o esmero, a graça, o encanto
o aquário não será um claustro
haja vista sua imensidão vítrea
tão invisível que se desrealiza
um claustro? que claustro?
enquanto nadamos pra cá e pra lá
que o ar comece a cortar dentro
pulmões arfantes, coração explosivo
a alegria de não haver onde emergir
~
~
placas de vidro unidas por silicone
base revestida de isopor e fita isolante
numa das paredes uma imagem subaquática
o fundo com cascalhos coloridos
bomba, filtro, sifão, plantas de plástico
grutas lodosas e escombros de resina
um ambiente artificialmente projetado
para tédio contínuo ou vida sem vida
na ponta do oxigenador um escafandrista
muito borbulhante e em pose estática
os moradores atrás das pedras dormindo
ou à superfície em busca de grãos ou
ainda brincadeiras com seu jovem criador
cujo interesse em outras domesticações
(faz-se tempo) o esvazia e empoeira
esquecido dentro do guarda-roupas
paisagem desbotada de pouca vista
as histórias de cada mergulho realizado
o escafandrista não contou a ninguém
já muito mortos nadando no ar os peixes
~
~
mergulho perene sinal de doença
nadadeiras raspando no fundo
água esverdeada de microalgas
excesso de luz, resíduos, nutrientes
bolinhas de ração boiando
caminha de folha plástica vazia
fora d’água ainda resistir
sem meios para água-ar
com artifícios de cerimônia
se faz um dobre improvisado de finados
no banheiro uma despedida tosca
gorgolejos do vaso sanitário
poderia dormir numa cama de gelo
seu cheiro nada ornamental
poderia sonhar com um jardim aquático
um cativeiro digno enfim
~
~
não se querem dilúvios pois a imagem é gasta
ou enchentes contra saneamento básico e irônico
abrem-se as comportas de uma barreira inútil
e o que era represa se escoa espumoso e arejado
querem-se como num copo pronto para hidratar
ou ducha bem jateada para melhores balneários
limpos de qualquer muco e feitos sem esguicho
logo de pouco atoleiro pois como soros cristalinos
aguacentos apenas na medida em que defluem
são águas de poeta (que nada) portanto diluídas
das melhores ou aguadas digam os que beberem
com estalos de língua em refresco ou dor de dente
~
7 de novembro de 2025
12 de outubro de 2025
bi-a
ô, bia
vamos brincar um pouquinho
de fone ou no brinquedão?
pandeirinho ou papelão?
sair do quarto um 'cadinho,
comer capim-cidreira,
beber água da torneira
bi-a
ô, bia
tanto dorme o tempo passa
é preciso resistir,
não ser assim tão sem graça
nossos dias são finitos
tentemos algo contra,
fingindo outra farsa
bi-a
ô, bia
velha velhice maldosa,
não poupa, já logo esgota.
seria melhor a vida afora?
sofro por nós sem saber
qual medida ou prazer:
você mia, mia, mia
30 de julho de 2025
juninho
do outro lado junto ao muro, cresce um pé de mandioca, que sombreia a concertina, que, por sua vez, tenta o quanto pode cercar ou concertar o que lhe cabe. julgando ali um bom lugar, sob a proteção de folhas e entre espirais que cortam, surge uma ideia para um casal: gravetos e galhos e pauzinhos, um círculo se monta e se faz e: eis um ninho de pombo. para a curiosidade de todos os pássaros do parque dos pássaros e, inclusive, a nossa. um ninho?
assim começa, inserindo-se na ingenuidade dos dias, o entretenimento natural: pardais chegam perto e dão notícias sobre, canarinhos também, mas pula-pulando e cantando; bem-te-vis dão rasantes e sentem fome, mas não tentam mais do que atentam. nós, da janela, comentamos tudo e agimos: gritos com os bem-te-vis, cocho de canjiquinha e pão ralado, água clorada, porém fresca da piscina. o pombo-pai aparece rapidamente e logo flana, exercendo sua paternagem territorial. a pomba-mãe escrutina empoleirada e arrulha repetidas vezes, tentando entender ou entendendo de fato e deixando a nossa parceria.
durante a postura e a incubação, pombos-pais se alternando nos cuidados do ovo, como são inteligentes, a natureza é perfeita, etc. tão perfeita que nós, muito humanos, observamos e significamos tudo: agora a mãe, agora o pai, o filho já nasceu?, cadê o pai? só estou vendo a mãe aí... será que está triste? saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou, deve estar no trabalho, logo choca e voa para fazer faculdade, etc. observamos e significamos a partir da nossa perspectiva, o que é, afinal de contas, uma incapacidade de observar e significar. ao fim e ao cabo, seguimos observando, enquanto o casal natural resistia à própria natureza, isto é, aos calangos, ao vento, ao frio.
especulações sobre o mundo das aves e projeções biográficas, o tempo age e nasce juninho, o filhote. menorzinho, quando despontou do ninho para nós, com exceção da cara de criança, nos pareceu idêntico a qualquer outra pomba-asa-branca de sua espécie (Patagioenas picazuro – patageö e oinas, do grego, "barulho, barulhento" e "pomba", respectivamente; pcázuró, do guarani, "pomba amarga, amargosa"). acinzentado, amarronzado, esbranquiçado, a depender do ângulo e da parte do corpo. cauda ligeiramente mais escura, quase preta. ainda é silencioso. apesar do amargo de sua espécie, por força dos costumes e hábitos alimentares, não saberemos seu sabor.
a não ser nossa ficção de gênero em nomeá-lo como macho, é muito parecido com a mãe, o que não resolve a verdade de seu sexo de imediato. ainda assim, juninho é um(a) pombo(a) tão amparado(a) de cuidados, mesmo na ausência instalada do pombo-pai! definitivamente, sua criação será feminina. ainda que mal, pela incipiência de sua infância, já quase age como todos os seus: pede leite de papo, cisca aleatoriamente, estende as próprias asas ainda sem o espelho que lhe é característico, recolhe-se ao ninho, canta um gú-gu-gúu meio tímido, pouco barulhento. ainda não sabe voar, e seus ensaios ocupam as tardes e servem de muita graça; daqui a pouco, quem sabe? por enquanto, juninho cresce e aparece.
o problema: o instituto nacional de meteorologia emite um alerta amarelo de declínio de temperatura com duração de dois ou três dias desde seu anúncio. tais previsões se concretizam em um fim de tarde de segunda-feira com uma ventania forte, que durou alguns poucos minutos, mas o suficiente para sacudir a copa das árvores e espalhar poeira e fuligem... o que resultou, para o desgosto dos varredores do serviço de limpeza urbana e dos afeitos ao asseio doméstico, em vias imundas de folhas secas e casas sujas, quintais e passeios emporcalhados.
o drama: o ninho, pouco guarnecido em sua própria estrutura frouxa, muito frestado e mal coberto pelo pé de mandioca já desfolhado, tombou ainda mais para trás com os ventos, enroscando-se nos galhos ao lado, enganchando-se nas farpas da concertina. nos dias anteriores, com os ventos de inverno, a pomba-mãe havia tentado ser algum peso para gangorrar o ninho de volta ao muro, sem muito sucesso. diante do pé de vento, não houve remédio.
juninho ficou sentado no cimento dos tijolos do muro, aparentemente lamentando que sua casa se tornou porcaria, talvez assustado pela força da matéria mesma que o fez. juntos, mãezinha e filhote passaram uma noite de frio, o que faz confundir sofrimento e natureza. pela manhã, vimos que havia sumido. a pomba-mãe, com seu olhar estático, ficou um pouco ao lado do ninho tombado, emitindo gu-gu-gús, traduzíveis em chamamento e choro. logo voou. da vista da janela, restou o ninho vazio, imprestável e para trás.
no dia seguinte, não sabemos se as outras pombas-asa-branca que pousam por aqui é de fato a pomba-mãe ou o próprio juninho, já mais desenvolvido por ter sido calejado pelas intempéries da liberdade. fato é que se interessam pelo ninho, espreitam e esticam o pescoço, cientes ou não do que se passa ou se passou. fato é que, do nosso lado, o que era um convívio indiferente se tornou experiência, portanto carinho e preocupação. dados os muitos encontros com outras pombas da mesma espécie, todas têm nome e (como é difícil evitar o espelhamento) são, senão em par, juninho, ou uma mãe eternamente em busca de seu filho perdido. intempéries da liberdade.
9 de maio de 2025
às pressas por me prensar entre os minutos ou por qualquer atraso inventado, sem a calma que asseguraria a atenção e a prudência em ir pedalando, às pressas como se contra a noite e pouco amparado pelas luzinhas da bicicleta, com o acúmulo do dia se esvaziando por meio das pernas e do uivo do vento aos ouvidos, às pressas diante dos carros que envelopam o corpo, tão maiores e vorazes, enquanto esta matéria frágil quase ignora a si mesma para fazer movimento, às pressas descendo a rua sem saída da garagem da viação da cidade, ao lado um descampado de mato alto e terra revolvida, às pressas guinchos de corujas e estrídulos de grilos, a beleza sinistra da vista da cidade logo após a hora de maria, chão e ar tremendo pelo motor do trem às pressas vindo, vindo, vindo, às pressas outro tempo se impõe: espero desmontado e à beira – medo e hipnose pela máquina – passar pelos trilhos – sentir sem olhar de frente: vagões se deslocando: buzinas alongadas – freios estridentes – assobios explosivos: quantos? – e sigo.
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pare, olhe, escute. na ruidosa calma que lhe é própria, segue indiferente à sua própria proporção, ritmando sem escutar, como um metrônomo maquinal que se ecoa pelos próprios trilhos. anuncia-se junto ao badalo de sineta em crescendo, em grandioso ribombo de pistões e freios, dando mostras de apertos e alívios de compressões, calmamente. seu conjunto emula qualquer ideia sinérgica de ordem, sequência, união. os trilhos, quando não estão sendo usados, servem de cenário para
ensaios fotográficos e metáforas de gosto duvidoso: reflexões inofensivas do que lhe passa, do que passa. ainda, os trilhos servem de caminho ou ponto de referência para os geográfica e
existencialmente desbussolados, à beira. e o maquinista, iluminado pela luz azul do monitor de seu painel de observações, diverte-se sempre, buzinando sua inconveniência, mas mais contido à meia-noite em respeito ao descanso alheio. fosse sangue, seria parte de um sistema sanguíneo-ferroviário que marca o passo da cidade-coração. funciona como um relógio que conta a si mesmo, aproveitando-se em alongamento espichado de pura horizontalidade, sem saber o que são ponteiros ou horas. carrega mercadorias e, portanto, delírios de ser a parte motora da ideia muito gasta de locomotiva de um país. ao fim, é profundamente contrário ao tédio e não é menos do que uma sucessão de vagões, isto é, uma tristeza alegremente cativada em sua própria alienação, uma síntese ontológica da alma da cidade, um corpo que não dói e por isso em constante trabalho: orgulho, pobreza, devoção, utopia.
25 de abril de 2025
Faço pensamentos com a recordação do que el[e] é quando me fala,
E em cada pensamento el[e] varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
[...]
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nel[e].
Não peço nada a ninguém, nem a el[e], senão pensar"
(Alberto Caeiro, "Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,")
é latente a confusão no sorriso automático
algum desespero escapa do olhar sedutor
posa o corpo de delícias e artifícios
a felicidade se finge num jogo luminoso
no qual o cotidiano se mistura à autoexposição
por meio de frases feitas e amenidades
a imagem não registra a imaginação
não se fazem sinônimos amor e pensamento:
o gosto distraído por se fazer vitrine
não esconde bem o desejo de ser desejado
e a vida mesma não se apresenta como tal:
fulgurante, vertiginosa, desconexa, inefável
9 de abril de 2025
revisão
lerolhar de novo
de novo
e de novo
até que surja do mesmo
o novo
de novo
(quando acaba?
trabalho infinito?
pelo em ovo?)
olhos já cansados
leve dor de cabeça
querida desalfabetização, [...]
por fim: o texto pronto
revisado, pecável
higienizado, culposo
eis o leitor, verdadeiro novo:
"por que não um omelete?"
"mas não estão no dicionário"
pois bem: uma ou um omelete? (s. 2g. ou sm+f)
o dicionário não encerra as palavras
no entanto nele fazem casa e descansam
"por que não buscar no ovo
um(a) omelete, em vez de pelo?"
"expressões idiomáticas não vão bem" etc.
água mole, pedra dura
quem com ferro fere com ferro será ferido
leia, leitor, sem gaguejar (veja como é arbitrário), sua razão de ser:
casa suja, chão sujo, casa suja, chão sujo
casa suja, chão sujo, casa suja, chão sujo
casa suja, chão sujo, casa suja, chão sujo
26 de fevereiro de 2025
longe do centro, do progresso contrário à saúde
ruralismo ingênuo que ignorava a si mesmo
ao gosto dos fenômenos se espalhava algo de natureza
num vale arborizado corria um pequeno córrego
mato alto por muito tempo quase intocado
pela grande indiferença se fazia morada do sol e afins
a proximidade mais ou menos respeitada
como se fosse não afetada pela cidade
coexistindo com os cafezais viciosos logo ali
(fica estabelecida, pela prefeitura desta comarca municipal, a circunscrição desta região em que cada rua fixa um pássaro
correspondente, atravessada por uma avenida de mesmo teor, para empreendimentos e fins de comércio e moradia;
a preservação do meio ambiente e da fauna e flora locais será tratada em momento oportuno)
estrada de terra batida picando o cerrado
piche e manilha e tem-se trânsito e água encanada
tímidos mas definitivos os postes enfileirados
cercas criam lotes que criam casas que criam pessoas
obras poeirentas que se querem rápidas e minimalistas
numa reprodução idêntica de sua própria monotonia
escritórios de soluções para o seu negócio, depósitos suspeitos
oficinas de implementos agrícolas, lojas agropecuárias, corretoras de café
galpões de logística sem placa de identificação, espaço instagramável de eventos
tratores e colheitadeiras no mostruário, pivôs aspergindo nuvens vermelhas
padaria de pão ruim, box de crossfit, concessionária de picapes (obviamente)
armazéns ensacando grãos, caminhões abraçados por empilhadeiras
paisagem cenográfica de montes polvilhados de antenas
verde tornado cinza na serra queimada do cristo redentor
porque um casal decidiu soltar fogos num chá-revelação
ao meio-dia sistematicamente desfila um carrinho de picolé
um idoso se derretendo caminhando buzinando para ninguém
cachorros de rua cochilam nos montes de areia e brita
um galo abre a madrugada como se fosse hora
chamando para a existência aqueles já acuados
verdadeiramente nativos por muita insistência:
beija-flor, patativa, uirapuru, arara, pintassilgo, sanhaçu, periquito
andorinha, gavião, tucano, juriti, flamingo, inhambu, bem-te-vi
garça, asa-branca, papagaio, codorna, sabiá, joão-de-barro, cardeal, araponga
de manhã cantam um pouco da morte do mundo
pela tarde calmaria e descanso nos fios da rede elétrica
corujas dão rasantes e assustam o guardinha da ronda à noite
quero-queros buscam buracos na grama para novos ninhos
pombas e juritis chocam entre as concertinas do muro
enquanto lagartos espreitam em loteria os ovos
marcam um andamento inevitável graúnas e pica-paus:
do parque: fuga ou morte por excesso de humanidade
os pássaros: sobrevivos por direito natural
27 de janeiro de 2025
disk-poesia
a coleção moraes-barbosa
lançou em 18 de janeiro de 2025
a versão brasileira de
dial-a-poem, de john giorno
com curadoria de marcela vieira,
o projeto reúne leituras de poemas
feitas por diversas vozes contemporâneas
em parceria com a empresa vivo
os diversos selecionadíssimos poemas
têm como denominador comum o erotismo
tema caro à investigação artística
do badalado multimedia artist
podem ser escutados em todo o país
através do número 0800-01-POEMA
ou, para quem está fora e internacional,
através do +55 11 5039 1344
os timbres das vozes imprimem modulações
outras aos poemas performados via telefone,
complexificando os sentidos possíveis
nesse cruzamento de linguagens etc.
pois bem: sentei-me confortavelmente
reuni a dispersão do meu ser em um ponto,
concentrado para a ligação-experiência,
afinal não é sempre que etc.
barthes intuía o grau 0800 da escrita?
a alteridade de lévinas imagina tu-tu-tu?
o que george bataille acharia do sexofone?
alô, lacan? é claro que sim!
discado o número, celular à orelha,
esforço sublime, sensibilidade aguçada:
a face do erotismo, brasileiramente:
"telefone temporariamente fora de serviço"
frustrado pelo mau gosto da realidade,
então a vida é dura, sem beleza?
sugestão da amiga muito amiga:
"consegui neste número: +55 11..."
descrente e como que por distração,
redisquei. de supetão: arte, à mão:
"flora thomson-deveaux. cabo machado, de
(boca bem cheia), mário de andrade
cabo machado é cor de jambo, (pausa curta)
(um pouco solene e alegre) pequenino que nem
todo brasileiro que se preza. (pausa longa)
cabo machado (voz aspirada) é moço bem bonito [...]"
logo mário? cabo machado? será?
quais seriam os outros, as outras vozes?
cinquenta e quatro poemas eróticos
para cinquenta e quatros vozes erotizadas
eis a obra como um call center de poetas
em que serviço público se mistura à arte
ruminando a velhanova questão:
o artista é um trabalhador? (a artista com certeza é)
não sei se como para um número qualquer
ou ainda para um número de emergência,
ligo de novo dessa vez mais esperto,
disposto a qualquer excitação:
"horácio costa (grossura, calibre). velhos
(sibilação alongada), de minha autoria
(silêncio, o poema assim se avolumando)
descendo a rua mato grosso, em higienópolis [...]"
não consegui exatamente escutar o poema;
algo sobre roberto piva de bermuda azul coxeando,
números no painel de um carro que envelhece,
tomie ohtake como tesouro nacional, saramago etc.
parecia uma crônica semipoética (não gostei)
em que comentários anedóticos se misturam
à velhice de um homem (horácio costa?);
a voz (o verdadeiro poema), a voz, no entanto
21 de janeiro de 2025
vem como viria já prenunciada desde antes:
(céu acinzentando salpicado em chuvisco)
idade somada a um coração envelhecido
– corpo enfermo, alma enferma? –
fez ver nas imagens o rastro de um toque,
mancha difusa já muito apegada aos pulmões
contra o gozo dos irônicos e dos tabagistas,
(aura enfumaçada alguma, cilindros de oxigênio)
um último método contra a queda dos grãos:
consumir as horas como um homem de horas
à espera pela visita exata da senhora imemorial
severidade e riso emagrecidos por fim
ainda cronometrando aquilo que passa rente ao tempo
(feixes de sol contra a tarde) para ainda dar ordem:
remédios e copo d'água dispostos sistematicamente
no aparador ao alcance de seus braços-ponteiros –
que fechem o quarto contra ruídos e clarões,
como sempre se soube: silêncio e penumbra
16 de dezembro de 2024
"se fosse uma pessoa, deveria
estar fazendo hemodiálise" dadas
as más notícias do prognóstico
a obviedade se prenunciando
enquanto os rins lentamente
se tornavam esponjas duras e fibrosas
magreza, letargia, perda de apetite, halitose
desidratação, vômito, espasmo, confusão
pupilas dilatadas, bigodes atrapalhados
orelhas baixas, focinho esbranquiçado
expressando a seu modo o mal-estar
sem efeitos os nossos cuidados
(se o sentido de uma doença é o sentido
que se produz a partir das alterações da
materialidade do corpo e das significações
possíveis de um conjunto de discursos no
qual se situa o doente, como poderia
narrar seu sofrimento além da objetividade?)
resistir ao que não se pode resistir
fracassado o adiamento possível
chegada a certeza da hora incerta
sabedoria pacífica, lição perene:
resguardar-se em sua intimidade
dar-se dignidade e discrição
à noite descendo as escadas
nenhuma gravidade a mais
pela última vez conosco
fugindo do banho improvisado
sem necessidade de despedidas
ou dramas ao que lhe vinha natural
pela manhã achar um espanto
enroscado nas madeiras do sofá
em segredo o desejo por fim realizado
a morte apresentada para o bem
contra a vaidade de alongar indefinidamente
os dias de dezoito anos, vividos um a um
caixa-castelo de papelão do melão rei
"sou saboroso", "estou maduro"
toalha-mortalha com motivos florais
em vermelho, rosa, laranja, amarelo
tronco retorcido, boca espumosa
olhos revirados, músculos rígidos
(no cemitério do canil municipal
a cerca servindo de delimitação e ironia
em negativo ao nível do chão uma vala
comum por serem muitos animais
contaminada por não serem pessoas
amontoados, revolvidos, despedaçados
numa grande massa de barro e vísceras
moscas disputam com urubus a decomposição
enquanto um córrego logo ali
docílimo em sua ingênua correnteza
se embebe de caldos cadavéricos
tornando-se um inferno líquido a céu aberto)
assento do sofá tornado monumento
nos cantos do jardim nenhum cochilo
debaixo do carro preocupação alguma
montinhos de cobertores são nadas
tubo peluciado vazio no primeiro andar
junto ao pé da mesa se encontra o chão
pesadelos antes de dormir:
pelos endurecidos de terra e sangue
corpo exposto ao sol e à chuva
rosto roído por vermes
ossos pontiagudos à mostra
miados profundos sem socorro
[.......................................................]
preto com branco! ô, curioso!
gatão! cadê o vovô? cisquinho!
psh-psh-psh-psh-psh-psh-psh
cadê o gato? bartô? bar-to-zi-nho?
onde meu companheirinho?
psh-psh-psh-psh-psh-psh-psh
7 de dezembro de 2024
poderia começar com ares de denúncia e acusação, como quem enumera mentiras e reivindica verdades, adotando um tom de ressentimento ao qual não tenho direito e o qual por fim me rebaixaria pelo despropósito do que furiosamente senti. poderia não começar e deixar ao tempo a providência exata de todos os remédios, como se, uma vez coberto de silêncio o acontecimento fortuito de nos reencontrarmos, coubesse apenas remediar este presente impossível, o meu presente. entre as possibilidades de escrever, a despeito da confissão que beira à auto-humilhação e da ânsia latente por justiça, tomo a palavra para que ela possa, outra vez, dar forma à desordem, ainda que eu saiba que, diante da violência da angústia, ela se apequena e nunca alcança a enunciação definitiva. escrever: buscar sentido diante dos conflitos inconciliáveis entre afeto e representação. poderia não começar já, adiando o início dessa tentativa de escrita, fazendo dessa impossibilidade de começo de escrita a forma exata e irônica de expressão de nossa não relação. este parágrafo é um falso começo, assim como nós. todos os começos são, em alguma medida, falsos.
estávamos em busca de uma descarga provisória às nossas volúpias. por acaso tomei coragem para elogiar suas meias, preencher o assunto com a briga dos meus vizinhos, tentando um caminho àquilo que me atraía. uma vez que nos reconhecemos: espanto, euforia, encanto, agonia. arranjamos um reencontro com as expectativas pouco pensadas ou assentadas: a mim, o contexto sexual geral era inibido pelo desejo de acertar as contas com o passado, tarefa que me dava em nome dos mais de dez anos sem contato com você. não me movia por um sentimento consciente de vingança, desses que tomam a forma de uma ideia vaga, porém importante, de certo mal dirigido a mim ou a você. me dispus a ir ao seu encontro (com angústia e tremor) pela oportunidade de dizer aquilo que não havia sido dito a tempo, acreditando que fosse possível uma reparação qualquer frente a tanta ausência e afastamento. não pude existir ileso de um grande amor adolescente que se interrompeu de forma descuidada. foram mais de dez anos, o que significa dizer que são mais de dez anos vasculhando sentidos em fatos já muito falseados pela imaginação, pela memória, pela vida. fomos capazes de rememorar alguns acontecimentos juntos (eu pedindo perdão por lembrar), experiências comuns nossas no passado, o que me serviu por uma fração feliz de segundos de ilusão e comunhão. todos os fatos, assim como os começos, também são, em alguma medida, falsos.
foram mais de dez anos inicialmente superpostos na sua proposta de "eu quero te ver, preciso conversar", "eu vou aonde você quiser". diante de tamanha abertura, recusar, pelo alvoroço do mal-estar, era uma possibilidade que valia como refúgio e consolo, o que, no fim das contas, se prova impossível. culpo a minha incapacidade de domesticar minha agitação diante da surpresa tão inesperada, mas também meu receio ou desejo secreto de que esse reencontro um dia acontecesse. pessoalmente, resisti ao abraço em que nos cumprimentamos: relembrança: rosto roçando barba, seu gosto por perfumes pontiagudos, o conforto do seus braços passados às minhas costas, quadris levemente pressionados. um abraço... difícil sobreviver à tensão que surgia à medida que nos avaliávamos silenciosamente, apesar dessa excitação erótica interditada pela própria circunstância. tentei preencher meus turnos de fala buscando suspender minha gravidade típica, dando notícias em tom de fofoca e gracejando muito diante das intimidades, o que pode ter surpreendido você pelo artifício pouco espontâneo, a leviandade forjada. eu, muito ingênuo, tentava sublinhar minhas próprias palavras para que algo não pudesse escapar do meu gesto enunciativo, como um velejador busca algum controle de seu barco furado em meio à tempestade. diante da sua necessidade de conversar, o tom terno da sua voz me impedia de escutar com clareza, dados o pavor e a incredulidade gerais. a verdadeira novidade era a irrealidade, ou seja, a possibilidade de reaver contato, reconhecer um ao outro ("sem mediações, outros tempos"). foram mais de dez anos.
apesar da atmosfera tensa pela premissa do reencontro, incrédula pela própria realidade inusitada e artificial pelo nosso contato sem jeito, tudo me pondo quase aos vômitos, como antes, compramos sanduíche, criticamos vitrines e andamos pela cidade às vésperas de uma madrugada muito fria (me arrependo de não ter cedido meu casaco ou ousado algum calor). apesar do curtíssimo tempo passado juntos, estive gravemente feliz em sua companhia. nos despedimos com convites a visitas, viagens à sua cidade, promessas de conhecer a padaria perto da sua casa. sem mediações, a abertura e as expectativas ("tem tanta coisa que ainda preciso contar e quero saber... e vc tá tão bonito!") trouxeram dias delirantes e vertiginosos diante de um passado sem alegrias, um presente sem presenças e um futuro sem garantias. acreditei por breves meses que os outros tempos seriam outros, não sabendo com clareza do risco que seria reaver uma relação que me foi tão dolorosa, desde o nosso afastamento ou mesmo antes. constrangimento maior foi descobrir que, depois de mais de dez anos, o desejo de consumar aquilo que havia ficado pendente na adolescência subsistia em mim. você: uma imagem fixada nesse movimento repetitivo de queda em câmera lenta, sua perda simultaneamente rejeitada e restituída à medida da negação e da afirmação da dor.
retornar ao canal em que nos reencontramos era sustentar um meio de comunicação imprudente, suscetível a desconfianças e mágoas desnecessárias. passado o tempo, o bloqueio preventivo. passado o tempo, seu novo perfil na região. como um golpe, o novo contexto: o que era vivido como acontecimento foi transformado em espreitas culposas diante de uma sexualidade imaginada como a mais promíscua e libertina possível. o suposto cuidado em não manter contato por ali foi substituído por um sentimento de perda de confiança, tão incipiente e, portanto, precária: de repente, sua mentira ingênua é descoberta unilateralmente por mim; de repente, minha mentira profunda é prolongada pelo acesso ao que seria para mim uma vitrine imóvel de obsessões, uma série ritualizada de exercícios de sofrimento. dada a estrela, noite escura: nova foto no perfil; mudanças na localização; cálculos de minutos, horas e dias entre o último acesso; ideias impalpáveis de outros homens. sem mediações, a velha cena se repetia: tornado mais uma vez vítima e agressor de mim mesmo, estava diante dos efeitos mórbidos de uma dissolução erótica, em que o desejo se confunde com as formas mais escusas de gozo e os corpos se tornam espectros deformados do que deveria ser algum suporte de alteridade. comentando aquele ensaio espinhento sobre a solidão que compartilhei, você havia me sintetizado: "a gente gosta de sofrer".
a confissão aberta do meu interesse em estar com você pretendeu criar a oportunidade para transparências e franquezas, sem os ruídos da incerteza ou da dúvida quanto aos destinos que poderíamos ter. reconheço ser muito arriscado da minha parte ousar tamanha exposição diante desse acontecimento em que, avaliando retrospectivamente, eu talvez não tenha conseguido modular o tom ou encontrar o momento certo de falar e calar. comentários dispensáveis tornaram-se acidentalmente provocações irônicas, respostas prolixas foram dadas a perguntas que não foram feitas, meias palavras para nenhum bom entendedor. me conforto acreditando que fracassei diante de uma situação em que eram exigidas perícia e agudeza para me comunicar veladamente bem, de modo amistoso e sedutor, sem me privar a chance de um próximo passo mais ofertante e lascivo; a verdade, talvez mais dura, é que, por mais ponderado e eloquente eu pudesse ter sido, não haveria bom desfecho qualquer fosse o cenário. ainda assim, racionalizo: mal-entendidos fundamentais da linguagem ou erro de cálculo entre a pertinência e a (falta de) intimidade? minha sinceridade não deveria servir de pretextos para não ditos de sua parte; esperava alguma reciprocidade minimamente à altura, nem que fosse para uma recusa (qualquer recusa), seca ou úmida, gentil ou cortante. você opta pelo descuido, o que é pouco inédito. cada vez que seu silêncio me alcança, seu desinteresse se faz ouvir de forma mais nítida. minha insistência em escrever também me produz uma vergonha que lamento sentir: com alguma honestidade consigo mesmo, você me liberaria desses ecos. poucas palavras serviriam, um não serviria. qualquer recusa e fim.
retomar contato por meio do canal haveria de ser ainda uma surpresa, não fosse o encaminhamento dos desafetos e ressentimentos mobilizados por esse desrecomeço. sinto que agi de má-fé com você ao ousar alguma resposta à sua tentativa de conversa comigo, uma vez eu não me apresentar frontalmente, rosto posto. dizer-se "mais preparado" diante da minha aparição, eu vibrando pela oportunidade de alguma palavra após ter perdido o timing do contato pregresso, uma voz que invento para pretender resumir uma situação decorrida por uma escolha sua de não responder e, portanto, sumir. a surpresa é seu gesto de trazer para si a responsabilidade de ter entendido mal minha mensagem, uma consideração tardia, obviamente contingente ao constrangimento de falar comigo, o indesejado. a pouca capacidade de me administrar frente a algo que me parecia decisivo não se reatualizava: o que me cabia era ler a situação como uma despedida às avessas, em que novamente se prometia "conversar melhor" num "encontro na próxima vinda", sabendo de antemão que nada prevaleceria mais do que o esquecimento tácito, a desobrigação indiscreta, o bloqueio preventivo. dois enganos fazem dois enganadores?
ao fim e ao cabo, o que me fica é esse sentimento muito doloroso de não ser merecedor da alegria da rejeição, em que constato que não valho a palavra ou a amizade, situando-me como alguém desimportante apesar do passado e descartável como mais um qualquer. o penoso não é lidar com essa suscetibilidade ao desencontro e à mágoa que os nossos critérios impõem a cada relação, mas sim com a pouca honestidade em relação ao outro, o descaso com a recusa libertadora, aquela que generosamente delimita e carinhosamente situa os afetos em sua devida dimensão. na ausência da dádiva, os fantasmas se agigantam, o desamparo beira o insuportável, quedas anteriores se repetem e se acumulam à nova queda, e uma crise evitável se faz como consequência de algum capricho inconsciente seu (espero que, apesar de egoísta, pouco consciente de si). meu trunfo: a fatalidade está logo ali: no dia do caçador, você inevitavelmente será a caça. apesar dos votos ressentidos, vive-se à pele, e a solidão, apesar de serem muitos os homens possíveis, é nossa companhia perene. salvo o destino, haja sorte para nós na empresa amorosa. sigamos em paz, mas armados. sem o azar de nos redesconhecermos novamente.
3 de outubro de 2024
morituri mortuis
instigado pelo cotidiano
o trajeto coincidindo
decisão ingênua: uma visita
como quem por vida sabe
espontaneamente o endereço
de onde estão os da família
qual memória resta dos que estão
entediados e sem ser como costumavam
capazes quando muito de assombros?
qual memória: não conseguir
como quem esquece que se esquece
como achar onde (onde?) estão (estão?)
17 de setembro de 2024
sii-d
a barriga se revira
em escrita de um código:
prova da divina ira?
feto inventado? genótipo?
trato não definitivo,
loteria de saúde...
intestino, falo a si,
sindrômico! ai! ajude!
ei-lo... cobra flamejante,
amarronzada e rubra!
vem rastejando e malsã
a se queimar toda em curva:
sibilando dor e fel,
espasmódica se faz
contra tudo frente ao céu,
rastros, encalços a mais –
apanha do pé o suco!
limão, laranja, caju:
é santa: a tapioca!
é santo o milho: cuscuz!
quando chegam as visitas
(dedos, dildos, beijos, membros),
confia-se no psyllium:
à porta a surpresa dentro?
blíster de loperamida...
já dormir a cobra má!
restituir a si vida!
até que... cólica? já?
guarda para si mistério
a lhe ser de calma e cura:
brometo de pinavério:
brando fogo, fezes duras!
20 de agosto de 2024
"[...]
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
[...]
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
(Alberto Caeiro, "Quando tornar a vir a Primavera")
ainda que se repitam ciclicamente
os fatos são à revelia de si mesmos
sempre torna novo cada acontecimento
nexos e sentidos são artifícios
contra aquilo que impera renovado
alheio à verdade e à história
não há choro da primavera semelhada
à gente (o caçador caça a si mesmo
à espreita dos farfalhares da imaginação
a caça ignora seus dias suaves) no entanto
diante de novas flores e novas folhas verdes
chora-se – e a ausência do amigo se refaz
2 de agosto de 2024
os dedos apertam a si:
pausa diante do salto
baque surdo adiado
busca finda enfim
ação mórbida alguma:
um poema serve para
quedar-se sem ruídos
muito higienicamente
letras se aproximam:
numa página branca
clausura ou expansão
cortam onde não falo
visão sem percepção:
sideração e luz
o corpo retalhado
dor precedendo o sono
13 de julho de 2024
25 de junho de 2024
vovô bartô
acordar um para dormir outro:
fazer a cama para que se faça
o sono de um contra o de outro
dosando calor e contato durante
a noite de vômitos rotineiros ou
de latidos dos cachorros
espreitados pelo portão da casa
até a hora do "vamos entrar?"
eis a companhia tornada hábito
conquistado por estima e cobertor
ou por semelhança de afetos em que
a decadência se soma à idade de um
mais a infelicidade comum de outro
da janela avistamos o céu estrelado
ou a luz clara do quintal da vizinha
presos à cortina para nosso descanso
[.......................................................]
dorme enrodilhado sobre si
as patas dianteiras como travesseiro
perninhas magras sob a cabeça
rabo recolhido e servindo de venda
estremecem em seu sono os bigodes
rápidos tremores pelo corpo
longos miados de boca fechada –
com que sonha o gato?
(correndo da seringa de ciclosporina
gatos da rua invadindo seu pedaço
insetos gigantescos sombreando paredes
cachorrões rosnando e uivando
enroscando-se nos panos com que se tampa
solidão em meio aos corredores da casa
tigela de ração cheia de formigas
água velha suja de plumas)
(à porta do supermercado
um mendigo de pernas amputadas
rastejando imundo atrás de mim
cola-se à minha perna esquerda
me apalpa buscando por moedas
e por fim morde violento meu pé
vingativo diante da minha mentira
de dizer que não tinha trocado)
23 de maio de 2024
1 de maio de 2024
o terreno foi comprado por um ricaço da cidade; o espólio, partilhado entre os filhos. será mais um empreendimento residencial para a classe média (espaço kids, área gourmet, academia, ampla varanda, cozinha conjugada à sala, banheiro social, suítes enormes, móveis planejados, porcelanato a rodo e, muito separado e bem à mineira, quarto de empregada). terá um nome aburguesado e estrangeiro, grand ou ville alguma coisa. no hall de entrada, próximo aos elevadores, poltronas desconfortáveis e uma imagem de nossa senhora de fátima sobre um aparador muito moderno. as garagens estarão repletas de hilux cabine dupla de homens tristes que usam chapéus de couro e camisas xadrezadas e acordam às quatro da manhã. no entanto, ainda não. ainda:
o passeio em mosaico de cacos de ladrilhos e restos de revestimento formando linhas mais ou menos retas preenchidas por sequências desordenadas, com matinhos já crescidos entre a rua, a calçada e a fachada. à direita, os portões brancos mais uma placa enferrujada, como um tapume, onde era a garagem. em toda sua extensão restante, a grade alta e branca, com espetos nas pontas. vê-se, através, a natureza escondendo a história: mato rasteiro persistente, galhos-entulhos de nenhuma árvore, insetos perfurando o solo ou traçando no ar o destino, uma hortinha ao fundo (banana, mandioca) próxima a tijolos, montes de areia, tábuas respingadas e andaimes frágeis. no portão da grade, mistério: uma campainha e uma caixa de correspondências. mistério:
campainha... a quem se avisa a chegada? quem chegaria, senão por meio da rememoração, do passadismo, da nostalgia? há – afeto anguloso – saudade? quem atenderia o chamado do interruptor, as palmas, já muito mortos e espalhados no que fica, mesmo sem se saber, entre filhos, netos, parentes? não há mesa posta, café algum servido, engradado de mineirinho para ninguém. se tocada, a campainha faria vibrar, em algum lugar entre o esquecimento e a urgência, um som típico. aquele, irrecuperável. o que, onde chamaria este som? é possível ouvi-lo fora da ficção, da alucinação, do sonho?
caixa de correspondências... quem ousaria entregar à caixa correspondências, na ausência de uma casa? o funcionário da prefeitura kafkiano, com o carnê de imposto? uma jovem panfleteira explorada, acostumada à rua dos bobos, número zero? quem recolhe os encartes-lixos distribuídos pelo comércio local? o proprietário rico do lote, um amigo de sua família? mais, quem escreveria cartas de aflição ou ternura, dando e pedindo notícias? qual o endereço definitivo capaz de fazer chegar a mensagem, além da oração pouco recíproca e do monólogo sem presença? o que teria a ser dito, além da partilha estendida das misérias da vida, ela mesma nunca celebrada a contento?
restam: incompreensão e silêncio, corpo suado de uma tarde de caminhada pela região, dor no peito e garganta seca (na volta da escola: "vó, só vim rapidinho beber água e ver a senhora! o vô já deitou?". acabava ficando para o almoço), travo na boca, ponto aquoso no canto do olho direito.