"Homem nu é achado vivo nas margens do Rio Infindo."
"Acusado de andar às margens do Rio Infindo, homem nu pesca, caça e se alimenta."
"Homem-do-rio dorme nu à noite."
"Homem-do-rio, ao tomar banho nu no rio, assusta a população local."
"Homem-do-rio não mostra pudor ao urinar e defecar nu."
"Polícia investiga os hábitos do homem-do-rio nu."
"Padres e gurus e xamãs estudam o morador do Rio Infindo."
"O caso do Rio Infindo: polícia pede ajuda a parapsicólogos."
"Homem-do-rio é visto conversando sozinho em língua desconhecida nas margens do Rio Infindo."
"População se assusta com a língua estranha do morador nu do Rio Infindo."
"Polícia investiga a História do homem-do-rio."
"Polícia investiga a Origem do homem-do-rio."
"Polícia investiga a Língua do homem-do-rio."
"Padres e gurus e xamãs e polícia e parapsicólogos se unem para estudar o fenômeno do morador do Rio Infindo."
"Furo! Desnudada toda a Verdade sobre o homem-do-rio nu."
"Homem-do-rio nu se banha pela manhã."
"Homem-do-rio nu caça à tarde."
"Homem-do-rio nu dorme à noite."
"População está revoltada com a conduta da Inteligência com o caso do nu do Rio Infindo."
"Inteligência diz que se valeu de meios legítimos para vestir o homem-do-rio com a sua Verdade."
"Rio Infindo é palco de acontecimento: morador desnudo desaparece."
"Testemunha diz que Homem-Infindo se dissolveu no Rio Nu."
16 de junho de 2013
12 de junho de 2013
(vô, lembra de quando íamos à sua casa, casa da vó, mas também sua, nas visitas felizes de quem morava longe, e a gente tomava mineirinho no gargalo da garrafa de vidro, o gosto dos marques e deixes da nossa família, deixes que vinham nos barquinhos de jornal que era um hábito antigo seu com meu irmão, vô, e que eu não via muita graça, e o aparador em frente à mesa da televisão, visão mais futura do que seria a família e que ninguém saberia dizer por quê, e o aparador cheio de barcos, lindos, seus, que nunca acessei para dizer nossos, não sabia fazer barcos de papel, só avião, mas mesmo assim, vô, mesmo assim, participava daquilo, via os barcos montados e me angustiava, aquele hábito que não era meu, nunca acessei, me endereçava e interessava pela programação triste da tv pra fugir dessa emoção toda de ter a nossa família unida, eu, você, meu irmão, meu pai, você mais sincero se dava aos choros, sem nenhum soluço, vô, por que não deixar sair a fala?, e eu me assustava, pai do meu pai aos choros, todo comovido, que homem, acabamos todos assim, que será que ele segura?, e entendia a sua seriedade de sempre, é não deixar sair para a coisa se perder por si, é preciso resistir, vô, é assim mesmo, se sair água, os barcos vão embora, aparar a dor além dos nossos lugares de irmão, filho, neto, pai, homem. então segura, vô. e me desculpa hoje, que hoje eu choro também, e me desculpa hoje, que eu seguro também, e me desculpa hoje, que sei fazer barcos de papel, e me desculpa hoje, que compro mineirinho no supermercado e bebo sozinho, e me desculpa hoje, que hoje não sou o da visão do telos.)
18 de maio de 2013
seu p. é meu vizinho. mora no terceiro andar. eu, no segundo. já é um senhor de idade avançada. quando pequeno, frequentei muito sua casa, era amigo dos filhos de uma
empregada-amante que ele tinha acolhido. tinha um opala 71
verde-musgo-cinza-escuro, que apelidei secretamente de 'banheira', e que
fazia um sucesso danado quando nós todos (ele, a empregada-amante, os
meus amigos filhos da empregada-amante e eu) íamos para um bairro pobre e
distante visitar um parente qualquer dela. um dia, ele brigou com a mulher porque ela, pobre, estava roubando algumas miudezas da cozinha para constituir sua própria morada, colheres, garfos, facas, panelinhas. deu até polícia. aos berros, gritava, devolve as minha colher! ela, desentendida, peguei nada não!, ques colher? e ele a encurralava na parede, prensando e irritadíssimo. no final da história, ele desistiu da acusação, os policiais foram embora. ela ficou morando por mais alguns meses, foi embora dizendo que estava cansada do velho difícil. hoje, ele mora no prédio porque ganha causas jurídicas executadas em ordem de despejo por falta de pagamento de água-luz, causas ganhas por a) ser velho, b) não ter para onde ir e c) não ter renda além da aposentadoria. o apartamento dele é, na verdade, de sua ex-mulher - que é a proprietária legal do imóvel - que às vezes paga as taxas do condomínio por misericórdia. nos nossos encontros breves da vida cotidiana, cumprimentos vão entre os degraus da escada: bom dia, boa tarde, boa noite. eu, sempre numa pressa descabida, ele, na vagareza das suas idades e cabelos bem modelados na calvície profunda e brancos. demora nos seus passos, nas suas falas, nos seus gestos. quando me cumprimenta com a sua voz grossa: bom dia, os olhos continuam cumprimentando, bom dia, o corpo, bom dia, eu, tímido, preso à pressa, bom dia, como vai o senhor? tudo bem. tudo bem nada. seu p. vai mal da saúde, faz cirurgias inúmeras, já o vi sentado nos assentos da fila de espera de atendimento do hospital universitário, sempre com o ar grave e a felicidade recolhida na voz, nos olhos, no corpo. corpo que já se vai, mas não tão já. nunca o vi em plenitude, mas o tempo de fato serviu a afirmar que não há plenitude. uma vez, disse que fez uma cirurgia. espiritual. espiritual? é. agora eu fico bom. que bom. e tinha até melhorado, apesar de prevalecer a vagareza, aquela frase, a maior tristeza da velhice é que não se envelhece. nas minhas insônias, me abro a escutar a noite, os barulhos: o caminhão de lixo na sua hora da baleia (os mecanismos de armazenamento do lixo rangem, emitindo o som oceânico e profundo), a correria da diversão dos gatos pela minha casa, barulho de patinhas e garras sendo raspadas no chão de madeira de verniz já desgastado, alguma música distante, amorosíssima, saída de algum buraco nostálgico que não cabe no hoje, e, o mais importante, rangidos altíssimos de mobília sendo deslocada no andar de cima, seguido de passos firmes e fortes. meu vizinho não dorme, é certo. sempre tive curiosidade pra saber com o que ele se distrai nestes dias. o cheiro de parafina derretida me confirma as devoções religiosas, a luz recortada nas persianas de seu quartinho-altar me revela o hábito das velas acesas, quartinho que me lembro sagrado desde a memória de quando transitava naquela casa, quartinho que ninguém além dele pôs o pé. agora, estes barulhos, estes barulhos são novos. até que, num dia desses, encontros breves nas escadas do prédio, bom dia, como vai o senhor?, fingi intimidade, perguntei: ouço muito sons vindo do seu apartamento à noite, quando todo mundo já dorme, o que o senhor faz tão tarde da noite? e ele, sorrindo voz, olho, corpo, respondeu largo: eu danço.
2 de maio de 2013
vem cá | pega na minha mão | devagarinho | só pra dar um romance | à
cena | ou | pega na minha mão | de levezinho | só pra ter uma cena | neste romance | vem cá | pega a sua mão | põe aqui também | me ajuda a abrir | esse verbo tão caro | acena o romance | devagar | vem cá | me dá sua mão | de vagar | na minha mão | tão bem | leve | me dá sua cena | põe na minha | mão mãe | esse romance | tão outro | vem cá | me dá um romance | me ajuda | abrir devagar | esse verbo amor | meu caro
7 de março de 2013
- assim, eu acho que você é meio autista.
- quais são seus critérios para 'autista'?
- não interage com as pessoas, fica só no seu mundinho.
- então assim todos nós somos autistas.
- então me explica.
(explico sobre as estruturas psíquicas e das relações com o sintoma)
- ah. então tem como psicotizar um autista?
- dependendo do caso e da análise, tem sim.
- hm. que interessante. qual é a melhor?
- eu, como neurótico, acho que é legal ser psicótico.
- seu pai é psicótico?
- não. é neurótico. por que? faz diferença?
- faz diferença nenhuma... eu sou psicótica?
- não. você é neurótica.
- e a sua tia?
- neurótica.
- a nossa família, de modo geral?
- tudo neurótico. só tem um primo que é psicótico.
- ah.
(silêncio)
- e o bartô?
- o bartô é obsessivo.
- e a dora?
- a dora eu não sei, mas se o nome pegar, vai ser histérica.
- quais são seus critérios para 'autista'?
- não interage com as pessoas, fica só no seu mundinho.
- então assim todos nós somos autistas.
- então me explica.
(explico sobre as estruturas psíquicas e das relações com o sintoma)
- ah. então tem como psicotizar um autista?
- dependendo do caso e da análise, tem sim.
- hm. que interessante. qual é a melhor?
- eu, como neurótico, acho que é legal ser psicótico.
- seu pai é psicótico?
- não. é neurótico. por que? faz diferença?
- faz diferença nenhuma... eu sou psicótica?
- não. você é neurótica.
- e a sua tia?
- neurótica.
- a nossa família, de modo geral?
- tudo neurótico. só tem um primo que é psicótico.
- ah.
(silêncio)
- e o bartô?
- o bartô é obsessivo.
- e a dora?
- a dora eu não sei, mas se o nome pegar, vai ser histérica.