16 de novembro de 2013
vóz
perguntei uma vez a ela o que é um escritor e o que ele escreve. a resposta foi mais ou menos nos conformes de: o escritor é um homem sensível. não sensível a ponto de ser choroso, mas aberto às sutilezas da vida para as quais pessoas comuns não estão atentas. o escritor escreve qualquer coisa que diga sobre a vida: se ele viu uma injustiça, deve escrever. se ele viu uma coisa simples, deve escrever. se desconfiou de deus, deve escrever. se ficou triste, deve escrever. é como uma compulsão. ele deve escrever para se manter vivo, para sobreviver. como se palavra fosse ar. como se obedecesse a uma ordem, por mais angustiante que seja obedecer sempre. eu não sou escritora. eu sobrevivi para escrever, e não o contrário. meu livro é minha memória. estou pronta para a morte.
3 de novembro de 2013
devaneia o estrangeiro em bruta melancolia deitado confortavelmente em um sofá a desejar tomar chá com quem o ama ou supõe amar imaginando sobre uma possível vida que não acontecerá se não for uma escola ou uma passagem ou um desarranjo de hipóteses formulando cenas cônjuges nas quais
atos cheios de ternura brevemente resumidos em fazer almoços ou jantas felizes e sorrisinhos e suspiros ao fatiar os vegetais ao refogar e cozer os grãos e outros vegetais ao temperar as folhas e juntá-las a uns outros vegetais e ao espremer o suco das frutas ou ao destampar a embalagem plástica do suco industrial e ao questionar a categoria dos vegetais que não se sabem tomates-abóboras-bananas-chuchus-maçãs-alhos-uvas-cebolas-goiabas-vagens-laranjas-quiabos-etc-etc-etc
fins de tarde tristes de programação de tv apocalíptica da globo que seria substituída por uma conversa ao agrado da erudição de nossa preguiça dominicais ou de nossa compulsão à intelectualidade ou de nossa incompreensão acerca da substituição dos objetos de alguma histérica importante em nossas vidas
noites escuras para se dançar um jazz sensual coladinho e que no auge do saxofone haveria uma coreografia destoante pura subversão artística cabível à circunstância que seria tomada como vergonhosa no cotidiano quando na verdade na verdade a vida nossa seria assim só de ridicularidades que o amor faz fazer e que tendo ele passado permaneceria somente a vergonha e os hábitos de refeição televisão e louvor à estupidez.
atos cheios de ternura brevemente resumidos em fazer almoços ou jantas felizes e sorrisinhos e suspiros ao fatiar os vegetais ao refogar e cozer os grãos e outros vegetais ao temperar as folhas e juntá-las a uns outros vegetais e ao espremer o suco das frutas ou ao destampar a embalagem plástica do suco industrial e ao questionar a categoria dos vegetais que não se sabem tomates-abóboras-bananas-chuchus-maçãs-alhos-uvas-cebolas-goiabas-vagens-laranjas-quiabos-etc-etc-etc
fins de tarde tristes de programação de tv apocalíptica da globo que seria substituída por uma conversa ao agrado da erudição de nossa preguiça dominicais ou de nossa compulsão à intelectualidade ou de nossa incompreensão acerca da substituição dos objetos de alguma histérica importante em nossas vidas
noites escuras para se dançar um jazz sensual coladinho e que no auge do saxofone haveria uma coreografia destoante pura subversão artística cabível à circunstância que seria tomada como vergonhosa no cotidiano quando na verdade na verdade a vida nossa seria assim só de ridicularidades que o amor faz fazer e que tendo ele passado permaneceria somente a vergonha e os hábitos de refeição televisão e louvor à estupidez.
26 de outubro de 2013
17 de outubro de 2013
engodos
estes desvios que são tomados como desejo. estas marcas que são tomadas como registro. estes lampejos que são tomados como inteligência. estas falas que são tomadas como proferimento. estes ruídos que são tomados como linguagem. estas recepções que são tomadas como sentido. estes giros que são tomados como conversa. estas oportunidades que são tomadas como amor. estes tratos que são tomados como respeito. estas intocabilidades que são tomadas como diferença. estes câmbios que são tomados como contato. estas leis que são tomadas como ortografia. estes homens que são tomados como todo.
1 de outubro de 2013
das intimidades
a um: o sono; a fome; o ritmo da respiração; o formato dos pensamentos; o gosto pelos objetos do mundo; o olhar dirigido ao espelho; a ignorância admitida e acalmada; o riso frente às desventuras; a espera.
a dois: o silêncio dos corpos cansados; a entrega destemida de dormir e a posterior vigília; a refeição compartilhada; o gosto do próprio sexo descoberto pela boca de outrem; a capacidade de abandonar e ser abandonado; as conversas sobre futilidades; os cheiros; as cartas enviadas com remorso e nunca questionadas; o respeito mínimo pela diferença.
a dois: o silêncio dos corpos cansados; a entrega destemida de dormir e a posterior vigília; a refeição compartilhada; o gosto do próprio sexo descoberto pela boca de outrem; a capacidade de abandonar e ser abandonado; as conversas sobre futilidades; os cheiros; as cartas enviadas com remorso e nunca questionadas; o respeito mínimo pela diferença.