23 de janeiro de 2014
vóz iv
o tédio dominava alguns de seus dias. quando transmutado em ócio, produzia proezas de casa e de pensamento. sobre o pequeno altar que fundou no seu quarto (e que posteriormente virou "o lugar dos remédios", os objetos sabem mais bem da função que ocupam do que nós): essa janela pequena nunca me serviu pra muita coisa. tive uma idéia. casa antiga, parede grossa, muito parapeito: fecho a janela, pinto de azul por dentro, faço um altarzinho. a imagem da virgem santa já tenho. faltavam o fundo azul e as nuvens brancas. eu mesma que fiz, peguei bucha, tintas azul e branca, saí desenhando. sabia que as nuvens são classificadas a partir das formas e dos jeitos que tomam no céu? cumulus, nimbus, cirrus, stratus. não lembro bem o que cada nome é o quê, mas lembro que existem combinações também; as classificações são várias, se está muito espalhada, se está muito densa, se está muito próxima ao chão, assim vai. quando a gente olha pro céu, não desconfia que existe um sistema difícil pra essas belezas e brancuras que estão lá. chega a ser inútil saber dessas ciências, porque não serve de nada na minha vida de gente simples. mas saber isso envaidece. e as nuvens estão lá, sempre estiveram, pra quem sabe cumulus-nimbus-cirrus-stratus, pra quem não sabe. não estou desprezando os conhecimentos; no fim não faço muita diferença entre o altar ou a janela. mas acaba sendo uma metáfora sobre a vida: saber ou não das nuvens, saber ou não da vida: as duas continuam lá.
21 de janeiro de 2014
o céu de brasília é de alucinações roceiras
o céu de brasília é feminino que se maquia para no fim se limpar
o céu de brasília é conversa
o céu de brasília é desse que faz contorno aos murmúrios
o céu de brasília é mesmo solidão
o céu de brasília é copo d'água pra sede
o céu de brasília é hospitaleiro que não faz vista de chinelo ou sapato
o céu de brasília é beijo de boca seca
o céu de brasília é de uma fome por afeto
o céu de brasília é mar imaginado
o céu de brasília é desse que abraça para evitar contato
o céu de brasília é feminino que se maquia para no fim se limpar
o céu de brasília é conversa
o céu de brasília é desse que faz contorno aos murmúrios
o céu de brasília é mesmo solidão
o céu de brasília é copo d'água pra sede
o céu de brasília é hospitaleiro que não faz vista de chinelo ou sapato
o céu de brasília é beijo de boca seca
o céu de brasília é de uma fome por afeto
o céu de brasília é mar imaginado
o céu de brasília é desse que abraça para evitar contato
19 de janeiro de 2014
ribombo
ato e gesto se contraem quando vistos, mas há uma diferença anterior
(não psicológica): o gesto é simulacro do ato. o gesto precede a
consumação de qualquer ato: um objeto privilegiado, um pequeno desejo
servem como tal. o ato aparece no mundo como mostração; o gesto,
anunciação. o gesto é semblante desfigurado de ato. o gesto gesta ato.
ato é falseamento inédita de gesto. existe uma relação íntima mas
disrupta: o laço entre ambos é possibilitado pelo temor: uma certeza
premeditada e incerteza futura, um passo dado com pés avessos. gesto e
ato se separam e se aproximam no temor: o gesto, anterior ao ato, o ato,
posterior ao gesto, não se sabem seqüentes: a divisão que o temor
inaugura faz com que haja, entre eles, imagem vindoura e prenúncio
revisitado. o temor, para o gesto, é indeterminação de formas. o temor,
para o ato, é garantia de conteúdo.
14 de janeiro de 2014
a-presença-do-animal-(corpo)-a-presença-finda-do-meu-animal-(morte-ou-desaparição)-a-marcação-desta-ausência-presente-(memória)-a-pergunta-que-não-descansa-(cadê-a-dora?)-cadê-a-dora?-o-testemunho-triste-do-meu-gato-como-se-houvesse-sido-mutilado-os-ajustes-em-seus-hábitos-felinos-dormir-sozinho-comer-sozinho-beber-água-da-torneira-sozinho-o-testemunho-triste-da-casa-como-se-houvesse-sido-desanimada-os-ajustes-feitos-por-conta-da-ausência-da-gata-as-bolas-de-papel-foram-recolhidas-os-cordões-das-maçanetas-das-portas-retirados-uma-vasilha-de-ração-a-menos-o-tapete-predileto-guardado-as-sacolas-plásticas-desinteressadas-os-insetos-em-busca-de-serem-novamente-presas-fáceis-e-os-vestígios-de-hábitos-conjuntos-a-mim-o-iogurte-desacompanhado-o-banho-solitário-(mas-o-mistério-do-ralo-continua)-o-modem-e-a-mochila-limpos-de-manhãs-e-tardes-e-noites-de-dormir-os-carinhos-repentinos-cessados-mas-não-a-saudade-a-dora-sumiu-mas-não-a-saudade-
5 de janeiro de 2014
o frescor que o ódio traz rompe com qualquer monotonia dos dias; a destruição se transforma em necessidade, operar o caos do mundo pelas próprias mãos é a sedução mais profunda e doentia que os interditos não dão conta - estas condições de sociabilidade velam o mais secreto desejo - de manter oculto. a lei é a palavra irrefutável do dejeto, é a ordem suprema que autoriza a existência do crime. a transgressão, além de se despontar como ato, é humana, perversa, plena, suja, libertária, horrorosa. é o urro mais primitivo e sincero, que não se mostra como signo aos outros. corpo algum resiste ao tremor e frenesi que a paixão pela ruína desperta: a violência é a forma de amor mais gentil; só se concebe sexualidade a partir da decadência, da diferença em si e de si, como as lacunas de morte que a transição do tempo disfarça. o marco da descontinuidade possibilita os mistérios da obediência, os tratos adequados ao outro, a atuação dos afetos silenciados, o amor e sua aniquilação fundamental, o gozo impossível, mas mirado. mas não o sexo. o sexo é ilusório, dá sensação de haver algo contínuo e contíguo ao "para além do limite". como humanamente sexual, é preciso haver o flerte entre o erótico e o transgressivo - ou, de outros modos, saber-se assassino e mortal, apesar das experiências extremas do corpo. o ódio é osso, instrumento primevo que possibilita matar. o ódio é a morte encarnada sem que se precise morrer.