moça do telemarketing,
a vida costuma não ponderar o peso da mão quando nos bate. este labirinto que percorremos descalços, esta luta desarmada que temos que travar com os leões: precisamos de esperança. o cotidiano é guiado por um deus também cansado, enquanto que nos finais de semanas temos de nos linchar em um hábito autolesivo qualquer para poder seguir mais um pouco, sem promessa alguma de descanso. mas escrevo em nome de um pedido sincero. peço a você que perdoe o mundo. não tome a mim como alguém especialmente designado neste acaso dos números telefônicos que rondam a sua lista triste de clientes não aborrecidos. recuso compadecido este novo plano de cartões de crédito decorrente da parceria da empresa telefônica x com o banco y, mesmo sabendo que com este cartão o valor de minhas compras seria convertido em pontos que poderiam ser trocados por milhas de viagens solitárias ou celulares igualmente solitários. sem falar nos juros baixíssimos, quase próximos à nossa tristeza. por tanta vantagem assim, não posso amar por menos. se interrompo o seu discurso monotônico gentilmente para expor minha estúpida postura, é para poupar seu tempo e sua voz, meu tempo e minha voz. a indignidade do seu trabalho confrontada a seco pela minha agressiva misericórdia. perdoe. a mim e ao mundo. a esperança inesperada ainda irá nos mostrar que o dia é bonito, que a coisa tem jeito. por agora, só tenho a oferecer um pouco de ombro nesta dureza. meus votos: que o acaso lhe permita um ouvido atento, um possível número a menos em suas cotas diárias de venda. que a inesperança não nos mate antes do tempo de morrer. que o deus durma para que, enfim, possamos dormir também.
de seu cliente e consumido consumidor,
um abraço.
13 de fevereiro de 2014
11 de fevereiro de 2014
estudo sobre sapatos femininos
a miscelânea luxuriosa de humores em nome de cortes, cores, texturas, alturas. a exposição pensada de um erotismo sucumbido à sacralidade de um altar vazio. o prazer do andar e o registro sonoro ao se aproximar de algum ambiente. o prenúncio da mulher. o cortejo com o enigma do mundo reduzido a um par. a tensão íntima entre as paredes do sapato e a pele. o sofrimento voluntário em nome do belo. a resignação aceita por um conforto ortopédico. o subseqüente alívio de desmascarar a fêmea. a humilhação secreta do confronto com um calçado mais fálico em uma disputa atestada de “quem falta mais”. a loucura da vaidade. a curvatura do pé como medida de feminilidade. o apelo das unhas vermelhas.
6 de fevereiro de 2014
folie, adieux
a quem sublinha bem o fraseado dos pensamentos, resta apenas morar no intervalo de uma letra à outra.
2 de fevereiro de 2014
algumas frugalidades:
chupar uma laranja extremamente doce e cheia de sucos.
dormir depois do almoço em um quarto levemente escurecido.
comer pão-de-queijo quente.
escovar os dentes e beber água mineral em seguida.
tomar banho gelado e vestir roupas limpas e frescas em dias quentes.
cortar as unhas das mãos e dos pés.
alongar as costas depois de muito tempo sentado.
reler um bom conto.
acordar com o calor e a luz do sol no rosto.
cheirar a grama recém-cortada.
dar cabo aos gases do corpo sem ter de se preocupar.
conseguir fazer algo que era julgado difícil de maneira fácil e simples.
ter gatos como companhia enquanto se faz alguma atividade doméstica.
cheirar pedra quente.
nadar em uma piscina aquecida em dias frios.
apagar as luzes antes de se deitar.
dormir depois do almoço em um quarto levemente escurecido.
comer pão-de-queijo quente.
escovar os dentes e beber água mineral em seguida.
tomar banho gelado e vestir roupas limpas e frescas em dias quentes.
cortar as unhas das mãos e dos pés.
alongar as costas depois de muito tempo sentado.
reler um bom conto.
acordar com o calor e a luz do sol no rosto.
cheirar a grama recém-cortada.
dar cabo aos gases do corpo sem ter de se preocupar.
conseguir fazer algo que era julgado difícil de maneira fácil e simples.
ter gatos como companhia enquanto se faz alguma atividade doméstica.
cheirar pedra quente.
nadar em uma piscina aquecida em dias frios.
apagar as luzes antes de se deitar.
30 de janeiro de 2014
extra vagância
às demoras do erro, linguagem. às normas do erro, revolução. às rotas do erro, apagamento. às injustiças do erro, reconhecimento. às certezas do erro, firmeza. às redondezas do erro, virtude. às vaidades do erro, trabalho. às formas do erro, preenchimento. às loucuras do erro, juízo. às andanças do erro, perna. às memórias do erro, criação.