antes de se afirmar que a tradução é traição, é bom considerar o compromisso estabelecido entre as partes deste triângulo amoroso. tomemos aqui cada nome abstrato como um nome designador próprio. se o tradutor desliza por entre duas ou mais línguas (a matriz (não chamarei de mãe para não adentrar ao campo edípico) e a(s) amante(s)), sua apreensão do mundo não corresponde diretamente às ideologias e poéticas que cabem a cada uma, isto é óbvio. seu ofício, no entanto, não se assemelha ao do discurso do fiel monogâmico: não é válido aqui esconder os fatos de suas mulheres (ou seus homens) para que guardem uma desconfiança mútua, uma a esperar pelo lugar da primeira, outra de desesperar pela possibilidade de segunda, uma terceira, se houver, na eminência de emergência, etc. o tradutor, antes de ser apaixonado marido e pecaminoso amante, é (ou deve ser) um homem honesto, destes que reconhecem suas virtudes e seus vícios e se comovem a ponto do choro. suas mulheres ou seus homens deverão se interceptar enquanto ele se põe ao trabalho de, se me cabe o perdão do leitor pela redução, verter de uma língua à outra, as salivas com que se engasga ao tentar mais fala do que fôlego. o tradutor é, para dizer de pronto, um silente cúmplice, um mímico discreto. um mudo mal-articulado. se seu produto se aproxima do artesanato, é por saber modelar, a várias mãos, o corpo de sua obra alucinada, que, mesmo não tendo fé ao original, é recoberta pelo brilho viscoso próprio da réplica inaugural (não queremos ofender os plagiários: estes são os verdadeiros cornos resignados). vamos, então, à empreitada masturbatória:
vou ao vau
até que minhas coxas rocem como flores incandescentes
Vou suster o sol em minha boca
e saltar ao ar maduro
Plena
d'olhos fechados
para lançar contr'a escuridão
das dobras dormentes do meu corpo
Que entrem os dedos de sutil mestria
com castidade de sirenas
Irei preencher o mistério
de minha carnadura
Vou ascender
Depois de milanos
flores
labiais
E cravar meus dentes no prateado da lua
em prosa:
tendo o sexo diante de mim, à margem estou e à outra me dirijo. rota corrente, pés oscilantes no leito arenoso, calor do piso incerto de flores. mergulho os dedos em mim. abro os olhos, abro a boca. vejo, engulo. cheio. fecho os olhos. descubro meu corpo no negrume inabordado das águas. que me abracem os monstros da morada doce com seus gestos gentis. dúvida: assim tenho a unidade do mentecorpo? assim tenho a unidade do mentecorpo: depois, no tempo das flores labiais, vou com dentes emergir em águas rumo ao luar que incide na superfície plana do gozo.
6 de março de 2014
2 de março de 2014
co-sideração
o amor está para o desenlace assim como estão os objetos concretos para a sua metonímia.
26 de fevereiro de 2014
22 de fevereiro de 2014
(estávamos todos sentados em círculo. era um dia qualquer, em que cada aluno lia uma frase do texto - a história de um sapo que foi a uma festa no céu. iniciados os turnos, eu acompanhava e media o desempenho dos outros, orgulhoso e inseguro nas vésperas do meu momento. o professor coordenava o curso das falas, enquanto eu secretamente também o fazia. mas temia e rezava com violência para apenas que não me fosse dada a interrogação. não sabia entonar a voz duvidosa. todos os sinais gráficos me eram amigos, menos o da desconfiança. o professor era um homem rígido, sem pudor para corrigir de maneira amável. era um bronco. na medida em que meu turno se aproximava, horror: não estava pronto para ser testado na incerteza que um ponto-de-interrogação encena, que o acaso dos justos não se manifestasse em público, que o acaso pudesse esperar para me expiar em um ambiente de conforto particular. não pôde. o deus não atendeu ao meu desespero, precipitando o desgosto pela fé de uma vida inteira ao instante em que eu era confrontado com a própria ignorância. de tão insolente por julgar em silêncio, seria o alvo dos olhares e risos mais recriminantes."a fes-ta fo-i u-ma di-ver-são, mas to-das as a-ves se per-gun-ta-vam: o sa-po che-gou a-qui." foi o que eu li. o professor, destro nas humilhações, "o sapo chegou aqui?" com uma cara arrogante de quem aguarda resposta. eu, em transe com toda a miséria que me foi imposta, arranjei no riso um alívio circunstancial e repeti ao meu modo. e o pior aconteceu: o professor interrompeu seu prazer de torturador e me trouxe à razão incontestável da realidade que não consegui escapar: "você está rindo de quê? não tem nenhum palhaço aqui." todos riram de mim, inclusive eu, que deveria ter me amado nesta provação dos meus crimes de criança. assustado, ofendido em minha humanidade que acabara de nascer, suspenso em pouca idade, só pude retrucar com a sinceridade cabível: que não estava no circo, não, senhor, ria porque não sabia ler a interrogação. mais valeria naquela situação uma mentira do que o relato puro da minha fraqueza. foi como entregar o ouro. o homem explodiu, atacou minha ingênua iniciação no mundo, os nomes mais perfurantes do que qualquer rasgo na superfície do corpo. pivete. moleque. fedelho. pirralho. burro. estúpido. analfabeto. acalmado, se pôs a se perseguir por meio de mim, "acha que eu sou palhaço, é? acha? responde!". eu era pura derrota. não emitia som algum. ele, não satisfeito mas ardil, abriu mão de sua proposta pedagógica: pulou minha oportunidade de entonar o questionamento do sapo - que acabei amargo engolindo -, passou minha frase ao aluno seguinte e sorriu um olhar triunfante se dirigindo a mim ao ouvir um "o sa-po che-gou a-qui?". por vingança, me tornei o melhor aluno da turma. contra o acaso, nada pude.)
18 de fevereiro de 2014
vóz v
a programação da televisão: ando afastada das novelas. gostava daquela última, do tipo mocinha apaixonada pelo galã. mas as de hoje, não suporto. ainda nem deu a hora de eu dormir e já tem beijo na boca, gente pelada, tiro, sangue, gritaria, palavrão. até homem com homem! me deu um nojo. estou muito velha para esse mundo. só ando vendo o canal da minha reza, ponho até copo d'água pra benzer na hora da missa das sete. assisto ao terço bizantino depois do almoço, a novena à tarde, à noite, jornal. jornal também não anda compensando muito, só tragédia, desgraça. a vida já é sofrida, não preciso de mais. ninguém precisa. uma vez vi uma coisa interessante, até fiquei curiosa pra saber se era verdade. no jornal, estava passando uma reportagem sobre as águas aqui de minas, mostrando rio, lago, cachoeira, córrego, mar, barragem. aí veio uma cena com um monte de água vindo na tela, como se fosse sair pela tv. tomei até um susto, estava meio cochilando, meio acordada. será que aqui tem tanta água assim? minas não tem mar, só tem céu. esses dias chegou correspondência da companhia de água dizendo que ia faltar durante algumas horas, manutenção não sei o quê, não entendi muito bem. e aí, na televisão, aquele mundo de água. como é que pode? faltar água em casa e eu quase afogando sentada na sala?