fundo do chão, lá vem
apito do ar, lá vem
susto do vão, lá vem
longe do mar, lá vem
"não, joão, mas cá, é lar?"
pra quem? alguém? o quê? também?
o trem, o trem, o trem, o trem
16 de agosto de 2014
12 de agosto de 2014
já se pode dizer em palavras redondas ou corpos oblíquos que entre o que era e o que é resta um silêncio legível. não se conta com urgência ou sequer pressa em romper o silenciado. mas, antes, conforto de sedução e rodeio já gastos, sem angústia alguma para dar o tom hipotético de amor. já localizado, quando posto, em circunstância propícia - esta avaliada em jogos espirituosos e risos educados e constrangimentos fisgados do nosso desejo -, este mesmo silêncio pedirá licença, tão bem autorizado pelas nossas relutâncias e tortuosidades, este mesmo silêncio dirá, no que seus recursos de expressividade alcançarem: houve, homem, houve outro.
10 de agosto de 2014
estudo sobre homens femininos
a sensibilidade para o mundo. a posição de escuta. os gestos quase infantis. o gosto pelas artes que resvala em erudição. a delicadeza da fala contrastada à anatomia do corpo. a afetação e a frieza a tudo que se refere. os músculos. a hostilidade nos confins íntimos. o desejo da mãe. a projeção das expectativas nunca assumidas. o perfume destoante à virilidade suposta. o rigor sobre o sexo. a fascinação pelas mulheres potentes. os eternos desconfortos materiais. as sínteses advindas do ócio. a resignação à realidade. o choro. os flertes profundos com o impossível. o pai fantasmagórico inventado nas melancolias. a paixão latente por todos que desconhece. a incontinência do bem-querer endereçado sem sabedoria. os outros homens. o desespero por não amar.
3 de agosto de 2014
quando viagem
não sou homem de paisagens, prefiro o disfarce em um sotaque absorvido: prolongo as consoantes mais macias, engulo o final das palavras, inicio todas as frases com um estalo de língua ou uma interjeição que dará o tom do resto da fala, recheio os pensamentos de ditados e provérbios, termino as conversas rindo com um gosto de letra espirituosa na boca. não sou homem de paisagens, prefiro o disfarce de um morador local ajustado aos hábitos da cidade: na casa meço conforto e constrangimento a partir dos deslocamentos da hospitalidade, chego todo espantado com o avanço do comércio e o retrocesso da população, me fascino com o frescor das frutas e verduras nos mercadinhos, nas lanchonetes e nos botecos me divirto com o preço destoante do que estou acostumado, as quitandas e quitutes que como no café tão cheio de gosto, descanso sentado sobre o sol de fim de tarde nas ruas mornas, leio os livros que trouxe por pura sobrevivência mental, deito no chão quente pela manhã para pressentir os fatos do dia, no silêncio encontrado escondo choro e gozo de circunstâncias e memórias. não sou um homem de paisagens, prefiro o prazer disfarçado e comovido pelos dias contados no calendário: melhor do que ir, só a garantia de voltar, mas estendidas em programações quaisquer: passeios tensos entre tédio distraído e desejo perturbado, almoços e jantas bem planejados e reciclados, conversas importantes e descartáveis com quem verdadeiramente amo, falsos acontecimentos em nome da certeza de que viagem alguma merece ser narrada.
17 de julho de 2014
tudo que se mexe é distração
da gata, minha
como se lê com presa e pressa envolta?
vento cortina folhinhas
obstáculos para mim
brinquedos para ela
como se lê com outro em volta?
miadinhos cabeçadas patinhas
carinho à força
tudo que se faz interrupção
mais interessante é que o livro
quando sou ser brincado
pelo animal
da gata, minha
como se lê com presa e pressa envolta?
vento cortina folhinhas
obstáculos para mim
brinquedos para ela
como se lê com outro em volta?
miadinhos cabeçadas patinhas
carinho à força
tudo que se faz interrupção
mais interessante é que o livro
quando sou ser brincado
pelo animal