10 de maio de 2015

gato olhando buraco de prego

com desejo na
parede, faz, sem ver, crer.
sombra enganada.

5 de maio de 2015

marli se levanta cedo e passeia benedita todos os dias
antes do café
antes do jornal
antes do barulho da cidade
marli e benedita conversando: quem é a lindeza da mãe?

e como marli gosta
de como deita e rola feito gente ou bicho
na terra, na grama úmidas
cuidado benedita! as formigas
benedita feliz por quase nada

marli beijabraça benedita todos os dias
antes do trabalho
antes do mamãe-já-volta
antes da saudade
marli e benedita assistem à novela das nove juntas

e como marli gosta
de como o ônibus vai cheio e jovem
para a universidade, para a esmola
eternas
benedita cheia de notícias por quase nada

marli chora três filhas e marido mortos todos os dias
antes dos comprimidos
antes da tv
antes da solidão
marli chorando e benedita uivando solidária

e como marli gosta
de como o tempo passa e demora
na casa, na cama
vazias
benedita esperando e contando as horas

26 de abril de 2015

faz favor | dá um passo | como quem | não quer nada | mas espera | calor | um pouco | faz favor | de graça | como quem quer | dar cuidado | ao outro | um agasalho | em espera | faz favor | só passar | como graça | de si | em cuidado | mas pelo outro | querer espera | favor | talvez um cabide? | faz dar | não tendo | agasalho ou calor | só | uma graça | cuidado consigo | em passo | faz favor | dá graça | como quem passa | de cuidado | sem espera | ao calor | do outro | por pouco | fazer | talvez calor | dar por fim | a espera | em agasalho | sem cabide

22 de abril de 2015

o tio eric se escondeu atrás da pilastra para me dar um susto. o tio eric fez cosquinhas na minha barriga e depois me abraçou. o tio eric pediu notícias minhas, perguntou como andam as coisas. o tio eric disse que eu podia ir para a casa dele jogar videogame com os meninos. o tio eric disse que gostava muito de mim e que estava com saudades. o tio eric ficou muito feliz em ter me visto, havia tanto tempo. o tio eric pediu licença para me dar um beijo na testa. e aí, aí o tio eric me deu um beijo na testa.

16 de abril de 2015

lembro de, quando estávamos sentados na areia, com a esperança de encontrar algo entre meus olhos e o mar, pensei no descanso que era estarmos ali, tão desobrigados dos compromissos comuns. você já havia terminado seu dia, eu já havia terminado meu dia, tínhamos acabado de comer qualquer coisa. naquele fim de tarde, ficamos em presença um do outro, como já havíamos ficado a testemunhar desde sempre luz bonita de sol caindo. sem palavras. uma missa acontecia perto, missa cantada que cantava melancolias, ao movimento das ondas. forcei uma compreensão para aquele descanso. você riu do meu rosto de criança pensando. avaliando em certo tom de azul o que estávamos fazendo naquela praia de mutismo, concluí desistindo que era vida, então. ali, sentados na areia, encontrei algo para preencher esse acontecimento entre meus olhos e o mar: estava vivendo: vivendo vida, desde sempre.