2 de junho de 2016

minas ou são paulo ou tristeza

dormir no sofá,
sem se trocar, depois de
dia de trabalho.

30 de maio de 2016

ô, ana paula, facilite, faça o favor de deixar menos sofrer a este rapaz que encontrou uma lata de tinta spray e marcou as placas das rodovias, este rapaz que encaroçou e portanto fez algum voto declarado por meio de sinalizações poéticas, entre "não ultrapasse" e "me perdoa me liga", "fim da pista dupla" e "volta longo", "respeite a vida" e "ana paula saudade", este rapaz que talvez nem saiba o valor da solidão mas que, ainda para os olhos e as fantasias dos viajantes que tangenciam as cidades de guarda-mor, vazante e lagamar, ama você e espera você.

7 de maio de 2016

algo inesperado, vi você em um outro corpo. cabelos cortados conforme os ditames da moda, roupas sóbrias que talvez lhe cairiam bem. um movimento calmo de passar a mão nas sobrancelhas enquanto falava sobre o chiste de heine citado por freud no mal-estar na civilização (tive vontade de dar um soco na sua cara quando riu mas se gabou secretamente da própria capacidade de se recordar da imagem bucólica que se converte em vingança). reparei em algumas pintas bem localizadas no seu pescoço, casa antiga minha. os seus cantos de boca estavam borrados, como que dissolvidos na superfície da pele do rosto. não senti saudades. não consegui sentir. apesar da curiosidade um pouco absurda, achei que faria mal em pedir notícias. soube assim de intuição que você ainda se recusa a ficar em silêncio quando sem assunto e a usar hidratante labial, como quando éramos. houve algum acerto.

6 de abril de 2016

jair

no dia trinta e um de dezembro de dois mil e quinze, esteve no bar, com os amigos, comemorando o adeus ano velho, feliz ano novo. não se lembrou de levar o celular para cumprimentar a noiva, o filho e suas irmãs na passagem. fez duas promessas, sair do emprego de vigilante noturno e fazer o curso da protege. ficou triste quando pensou nos moradores do bloco. ficou alegre quando pensou na carreira de segurança particular. chorou quando tocou love of my life, do queen, "aquela bicha do mercury canta pra macho". esperou dar duas horas da manhã para voltar para casa, trânsito. decidiu meio bêbado pagar a conta. abraçou todo mundo. brigou com o dono porque estava pagando coisa que não bebeu. fez um gesto bruto de pegar algo no bolso para pagar mesmo assim – e morreu com dezesseis facadas. um foi um susto, estava procurando dinheiro. dois sentiu uma náusea muito forte. três um líquido quente escorrendo. quatro uma dor na barriga. cinco a respiração fugia. seis escutou um rojão e sentiu cheiro de pólvora. sete bateu a cabeça quando caiu no chão. oito ficou tudo escuro e silencioso. nove foi criança correndo atrás de um carro. dez beijou sua primeira namorada. onze foi pai e descobriu a felicidade. doze entrou para o exército. treze as madrugadas em frente ao estacionamento do mcdonalds. quatorze era morto. quinze já estava morto. dezesseis teve seu cadáver perfurado pela segunda vez.

22 de março de 2016

minas ou são paulo ou tristeza

quando assim em um estado turvo de espírito, já de costume antigo, nos encontramos, de passagem você de moradia eu, nesta cidade devido aos encaixes de um destino indevidamente acidental, tive a impressão de que seríamos ainda os mesmos. ilusão antiga dos paraísos de terra postos em água, o desastre de mariana a mudar nossas essências, tão distante hoje do que somos. tamanha lama para o que é só tempo comprimido em memória. apesar de mim, ainda preservei alguma crítica à razão para guiar as circunstâncias, sem entregar à angústia o juízo demandado. apesar de nós, ainda preservamos alguma crítica à comunhão para separar privacidades, sem forjar à ocasião o afeto esperado. apesar de você, ainda percebi preservada alguma opinião à vida para ir embora assim que fosse sábado às duas da tarde, sem integrar o contato a alguma aprendizagem possível. mas quando vi você devorando a luz branca da tela de seu celular, perdida entre as imagens como alguém que se olha profundamente no espelho, senti um desprezo irresistível diante daquilo que nomeava como você, visita fora de hora. o sentimento desterritorial do aeroporto caía bem à sua aura cosmopolita. se você me perguntasse pelo que estava acontecendo, pela minha cara, tanto desespero por quê?, responderia sintético que a vida continuava na mesmice, sem o agravo da tristeza que é morar em um iphone.