6 de junho de 2016
minas ou são paulo ou tristeza
ao que me perguntei, com certa desconfiança, se tal convite era mesmo honesto. diante da nossa condição alagadora, que costumava demover toda a mobília de afetos postos em ordem, havia esforços para manter a normalidade dentro dos confins de realidade que fingimos ter noção da circunscrição. se aceito, crio alguma expectativa que provocará certo incômodo não só na vida que se leva cotidiana, mas na vida que se bifurcou anos atrás; se considero aceitar, pressinto algum entusiasmo de saudade matada em apenas suposição, como uma sede que passa ao começar a chover. se considero recusar, admito que, ainda que incerto do encontro real de nós, já vale, para a virtualidade, a visita em pensamento; se recuso, e de fato decido recusar, argumento que tenho me distraído aos poucos, como quem retoma devagar o jeito para com a intimidade consigo depois de uma grande crise. a gente poderia tanta coisa, inclusive sair dessa pobreza acidental de ter se tornado menos gente. nossos ideais, se revisitados, são sempre uma curadoria de ruínas.
2 de junho de 2016
30 de maio de 2016
ô, ana paula, facilite, faça o favor de deixar menos sofrer a este rapaz que encontrou uma lata de tinta spray e marcou as placas das rodovias, este rapaz que encaroçou e portanto fez algum voto declarado por meio de sinalizações poéticas, entre "não ultrapasse" e "me perdoa me liga", "fim da pista dupla" e "volta longo", "respeite a vida" e "ana paula saudade", este rapaz que talvez nem saiba o valor da solidão mas que, ainda para os olhos e as fantasias dos viajantes que tangenciam as cidades de guarda-mor, vazante e lagamar, ama você e espera você.
7 de maio de 2016
algo inesperado, vi você em um outro corpo. cabelos cortados conforme os ditames da moda, roupas sóbrias que talvez lhe cairiam bem. um movimento calmo de passar a mão nas sobrancelhas enquanto falava sobre o chiste de heine citado por freud no mal-estar na civilização (tive vontade de dar um soco na sua cara quando riu mas se gabou secretamente da própria capacidade de se recordar da imagem bucólica que se converte em vingança). reparei em algumas pintas bem localizadas no seu pescoço, casa antiga minha. os seus cantos de boca estavam borrados, como que dissolvidos na superfície da pele do rosto. não senti saudades. não consegui sentir. apesar da curiosidade um pouco absurda, achei que faria mal em pedir notícias. soube assim de intuição que você ainda se recusa a ficar em silêncio quando sem assunto e a usar hidratante labial, como quando éramos. houve algum acerto.
6 de abril de 2016
jair
no dia trinta e um de dezembro de dois mil e quinze, esteve no bar, com os amigos, comemorando o adeus ano velho, feliz ano novo. não se lembrou de levar o celular para cumprimentar a noiva, o filho e suas irmãs na passagem. fez duas promessas, sair do emprego de vigilante noturno e fazer o curso da protege. ficou triste quando pensou nos moradores do bloco. ficou alegre quando pensou na carreira de segurança particular. chorou quando tocou love of my life, do queen, "aquela bicha do mercury canta pra macho". esperou dar duas horas da manhã para voltar para casa, trânsito. decidiu meio bêbado pagar a conta. abraçou todo mundo. brigou com o dono porque estava pagando coisa que não bebeu. fez um gesto bruto de pegar algo no bolso para pagar mesmo assim – e morreu com dezesseis facadas. um foi um susto, estava procurando dinheiro. dois sentiu uma náusea muito forte. três um líquido quente escorrendo. quatro uma dor na barriga. cinco a respiração fugia. seis escutou um rojão e sentiu cheiro de pólvora. sete bateu a cabeça quando caiu no chão. oito ficou tudo escuro e silencioso. nove foi criança correndo atrás de um carro. dez beijou sua primeira namorada. onze foi pai e descobriu a felicidade. doze entrou para o exército. treze as madrugadas em frente ao estacionamento do mcdonalds. quatorze era morto. quinze já estava morto. dezesseis teve seu cadáver perfurado pela segunda vez.