24 de janeiro de 2017

hermeneuta afetado traduz to nobodaddy de william blake

obediente e contraventor cristão, william blake é um questionador dos valores do deus-pai. padecendo daquilo que desconfia mas não desacredita, é um metafísico que se equilibra mal, ora na razão, ora na fé. religioso e criador de sua própria mitologia, recorre a um simbolismo profundo, arquetípico e transcendental, para investigar sobre as versões das ontologias inventadas. atinge um nível de compreensão delirante ultratensionado, de difícil conjugação entre o conhecimento racional do homem diante da crença e o inominável do sagrado, fundando novos mistérios de conotação ordinária e apoteótica. em suma, é um ambivalente, amor e ódio para e contra o deus cristão. 'to nobodaddy' (palavra-valise formada por 'nobody+daddy', nome quase desrespeitoso criado pelo poeta para se referir a deus) é endereçado como uma carta, sem padrão métrico, estilizado pelo inglês arcaico e pelas maiúsculas alegorizantes. o poema, questionando um dos dogmas da sua devoção, se faz denúncia e anúncio da ruína da estória cristã. é uma profanação elogiosa que rebaixa deus às mulheres e o humaniza com paixão e maçã, ridicularizando a palavra divina, ainda que em busca dela. munido de um humanismo iluminista quase herético, o iconoclasta fervoroso põe à prova a divindidade de deus e a simbologia bíblica por meio de um apelo da razão à predileção do discurso religioso pelo obscurantismo e à constatação incontornável do desamparo dos homens. a tradução é primitiva, no sentido de se afeiçoar mais ao conteúdo, em detrimento de seu aspecto formal, e não se fixa à imagem ou àquelas suscitadas pelo poema, mas sim às relações semânticas dos versos, tratados como se em fossem linhas de prosa. o original e a tradução:

To Nobodaddy
Para Pai de Ninguém

Why art thou silent and invisible,
Por que tu és silêncio e não visível,
Father of Jealousy?
Pai do Ciúme?
Why dost thou hide thyself in clouds
Por que te escondes em nuvens
From every searching eye?
De todo olho buscante?

Why darkness & obscurity
Por que escuridão & obscuridade
In all thy words & laws,
Em todas tuas palavras & leis,
That none dare eat the fruit but from  
'Que ninguém ouse comer da fruta senão pelas
The wily Serpent’s jaws?
Mandíbulas da Serpente sagaz?
Or is it because secrecy gains females’ loud applause?
Ou é [assim] porque o mistério atrai grande apreço das mulheres?

7 de janeiro de 2017

hora da baleia

às vezes passa mais cedo, o caminhão de lixo. às vezes eu já 'tou dormindo, mas o cheiro é tão forte, o barulho é tão alto, que eu acordo. se eu 'tou acordado, corro até a janela pra ver os garis. gosto de esperar o caminhão passar pra depois ir fazer outra coisa à noite, dormir ou jogar videogame. os garis têm um apelido engraçado: cenourinhas. como será que eles conseguiram se acostumar com esse trabalho? meu pai que me disse que eles se acostumaram. ele disse também que eles não são bem pagos para isso. não sei se fico triste ou feliz pelos garis. triste porque meu pai disse que dinheiro nenhum vale esse serviço. feliz... não sei porquê. meu pai diz que é um trabalho de lixo e ri. eu rio também mas não acho engraçado. gosto de quando o caminhão começa a mexer a pá para apertar ainda mais o lixo lá dentro. faz um barulho muito triste, como se uma baleia 'tivesse chorando. acho que os garis também gostam. durmo só depois do caminhão, acho melhor. acho que dormir é como ir pro fundo do mar. quando eu acordo no meio da noite, às vezes meu pai e minha mãe 'tão brigando. se o caminhão 'tiver atrasado e passando bem nessa hora, eu gosto. mas às vezes escuto minha mãe chorando, dizendo que não é lixo. meu pai fica gritando lixo! lixo! lixo!, fico com muito medo. eu sei que ela não é lixo, de onde ela tirou isso? ele diz isso por quê? nem meu pai nem minha mãe sabem que eu acordo com a briga deles. minha mãe acha esquisito eu me interessar por lixo. um dia eu disse que o lixo é muito importante pras pessoas, e ela riu de mim. eu disse que sem o lixo as pessoas não teriam como ajudar os garis. acho que sei por que fico feliz com o trabalho deles. é porque gosto de saber que tem alguém que leva o nosso lixo pra longe. o lixo é engraçado porque ninguém gosta dele, mas tem gente que gosta, eca. eu não sei por que as pessoas choram. acho que é pra não guardar lixo dentro delas. minha mãe é engraçada. ela chora muito. eu não acho que ela é lixo. às vezes penso nela como uma baleia, nadando, nadando. meu pai 'tá mais pra caminhão, apertando com a pá.

25 de dezembro de 2016

na noite de natal de 2016
extraordinária ou comum
a todos nós
a qualquer um de nós
com grande tristeza
familiares, amigos e assessores
confirmam que george michael
(parada cardíaca)
"passed away peacefully at home"

a família solicita ao mundo
respeito à sua privacidade
(como não calar diante da morte)
afirmam os familiares em nota que
"there will be no further comment at this stage"
não haverá mais comentários sobre esse momento
não se falará mais sobre
para a posteridade a memória
george michael será
símbolo e silêncio

rendidas as homenagens
do menino ao homem
de wham! à carreira solo
percurso de uma vida
bandeirando em nome do desejo
da liberdade ainda que submisso à toda carne
semelhante aos que morrem pelos outros
iludidos com a possibilidade
de ultrapassagem de si pelo transe

o espírito natalino encarnado
estação de esqui ceia farta
momentos em frente à lareira
luzes piscando compulsivas
talvez brincadeiras na neve
abraços e tilintares e brindes
até se ouvir a ambulância passar
em algum condado da inglaterra
nuvens fartas acumuladas no céu
sirene estridente árvores imóveis

corpo datado de 53 anos
não se sabe com qual insistência
de ter vivido o fim sem muito brilho
sem aguardar pelo presente
além de exigir a exatidão do que é incerto
george michael talvez esperasse da noite um milagre
e vem então a morte
freedom
freedom
freedom
you've gotta give for what you take

26 de novembro de 2016

hermeneuta afetado e a tradução de l(a de e.e.cummings

em uma celebração confusa do gênero, l(a se situa próximo à aporia e à desvirtuação do poema. equilibrado entre o haicai vibrante e a ode sem canto, apresenta a natureza de forma assubjetiva em seu tema e seu conteúdo. ainda que lírico, atinge uma imparcialidade discursiva, alcançando a descrição do fato puro, cheio de números e designações fixas, ainda que indefinidas. como característica do autor, pode-se identificar o apreço pelas formas tipográficas como recurso estilístico de analogia ao desenho do mundo, considerando a impossibilidade de representar a imagem por meio da interferência, no fio do verso, dos sinais gráficos. assim, tendo a ausência como voz do poema, revela o verdadeiro nome das coisas por meio de uma folha caindo eternamente. simulacro vivo da natureza humana, esta folha em queda surge brincando sonoramente (la-le-af-fa) no poema e é impossível de ser traduzida com a preservação de suas ludofonias. também, no quinto verso ("ll"), é possível ler, conforme augusto de campos sugere em seu livro, uma pausa em ícone, reforçando a quietude cíclica da folha que cai ou a solidão compartilhada de um a um. para suprir tal luto de sentido, optou-se, na tradução, por se centrar no movimento da queda por meio de uma supressão gráfica e uma modificação morfossintática (verbo por advérbio; predicador verbal por adjunto adverbial). para tanto, elegeu-se a reprodução da imagem estática encarnada no apóstrofo que sinaliza crase e pende de um grafema (ou, vá lá, um grafema pendendo de um apóstrofo). os diversos uns (substantivo, pronome, numeral) presentes na versão original surgem discretos na tradução; se comparados, em quantidade desigual. mas sabemos que não é (somente) isso que se traduz. torço para que o aspecto humano, fixando-se na forma incerta do tipo, encontre-se cadente e soli(d/t)ário em sua possibilidade de leitura à proposta desta tradução:

s(uma

fo
l
h

a'

baixo)
ol
id

ão

3 de novembro de 2016

sin rumbo

quando você me vem todo machucado de tanto escutar dificuldades sem predições, sem considerar a minha impossibilidade de receber você em tais ânsias, sofro a violência do seu desamparo por me lembrar do meu; quando você me vem todo vulnerável diante da agitação do mundo, esperando companhia para suas idas ao chão do sentido em busca de algum sossego para este desconhecimento, faço esforço para me manter em pé, por fora, firme na idéia alvejada de que seus pedidos não são para mim; quando você me vem todo adoecido por falta de caminho, acusando que nossa solidão fez de um hábito alguma religião, sem promessa de grandes dogmas ou mudanças, quase resisto, reconheço que sigo sob feitiços e que nada posso contra a doçura feminina que coleto na sua voz.