25 de outubro de 2017
se empresto minha voz ao poema, tentando alguma declamação galante, um bom fraseado que me é falso, e que o poema pedia, veja, que o poema pedia, se leio um poema em voz alta, com a devida detenção nas palavras, fico perdido nos versos, entre os versos, fico perdido naqueles que me escutam desorientados pelo ritmo que desconheço do texto. fico perdido diante daquele cuja voz me acusa de não saber ler poemas, então regulador inesperado de poemas e não poemas e que julga que o som bem soado resume o poema. fico perdido naquele que me toma o alcance do texto dizendo que "é assim que se lê um poema", fico perdido me perdendo sem os versos e os sons e o branco da página. perdendo o poema de mim, fico perdido pelo gesto rude e pela poesia impossível daquilo que nos lia tão próximo. fico mais sozinho no amor.
31 de agosto de 2017
8 de agosto de 2017
parada
abram abram alas
o poema vai passar
cheio de plumas de rasuras
espaço! abertura!
é grande a criatura
vejam ele lá
extravagante vem
galopando selvagem vem
uma cabeça outras mil e cem
seis mil braços pernas bocas olhos
é um monstro! melhor
rezar pai-nosso amém
o poema vem vindo
atenção há tensão
para os versos para os sons!
cuidado com seus corações
é um bicho que come de tudo
sentimentos sobretudo
crianças velhos e pães
é alta e feia a criatura
caminha com alguma formosura
mas tem as pernas tortas: tortura!
há lá sua elegância
um metro estranho: extra vagância!
exibe rimas e ternuras
mil dentes trinta mil unhas
todas sujas todos gastos
seus estilos? velhos! ritmos? fracos!
o poema vem vindo
chegando e vindo diz assim
com uma voz horrível
sem fôlego e carmim:
"corr am! fuj am! ráp-id-o!
esp-a-lh em-sep ar...a lo-nge
vem v in...do v em ta mbém
o MUN-DOa trásd emim!"
apostem em suas pernas!
fogo! água! tragam
água pro fogo! há
mais fogo para a água!
o mundo o seguiu! imundo!
o poema não conseguiu
descobrir a charada:
o que é se acende
quando se apaga?
acudam! corram todos
vão pra casa! já!
perigo outro monstro maior
vinda enorme ainda tarda!
O MUNDO! quer saber o-que-é-o-que-é
se ele também chega
e não há gente fugida
ai! não sobra sobra de nada!
passa! nem poema nem amor!
"sariema rima com dor?"
escapole daqui! fugir!
lá vem resposta desgostosa
posta a aposta
pés pelas mãos corram
pernas corram pernas pernas
é a vida corram é a vida
3 de agosto de 2017
hermeneuta afetado diante de a total stranger one black day de e.e. cummings
duas personagens possíveis chegam ao sujeito lírico do poema: num dia escuro, um completo estranho ou estrangeiro ("a total stranger one black day"). essas personagens forçam a interpretação a concebê-la como uma só, uma vez que não há maiores designações no poema a respeito dos atributos daquele ou daquilo que chega. alguém ou algo desconhecido chega. e o sujeito lírico, obscuro e complexo como se espera que seja, por exceção do acontecimento poético estava distraído vivendo até ser defrontado pelo contato com a dita personagem. tal encontro de violência e arrebatamento ("knocked") em decorrência de sua presença estranha ou estrangeira, ambas no entanto afirmativa e inteiramente desconhecidas, aviva ou retira ("living" [ou talvez "leaving"]) com muita intensidade ("the hell out") o sujeito de seu estado de distração ("of me -").
inicia-se, entre travessões, um movimento duplo de contastação e de questionamento que advém do encontro do sujeito com o estranho estrangeiro: encontrar um perdão difícil ou em um caminho dificultado ou esclarecer o gesto de quem realiza o perdão com dificuldade ("who found forgiveness hard because"). porque há uma confusão a respeito de quem realiza o quê na circunstância de perdoar e ser perdoado ("my(as it happened)self he was"). ele [o estranho ou o estrangeiro ou o estranho estrangeiro] era ele [o sujeito lírico]. logo, a personagem estrangeira é alguém, não algo. mesmo que não haja explicação do contexto e do motivo do perdão, é clara a mistura identitária entre a personagem e suas características e o sujeito lírico.
por fim, o sujeito reconhece a sua tamanha condição na personagem que era tomada como inimiga, tornando-se dela amiga inseparável ("- but now that fiend and i are such/immortal friends"). conclui-se que os perdões são feitos; as relações, conciliadas. a partir deste desfecho, se soluciona a confusão identitária entre o sujeito lírico e quem lhe chegou, estrangeiro ou estranho estrangeiro. sendo cada um em separado ("the other's each"), preservam individualmente o traço amigo que lhes possibilita comunhão.
uma ressalva se faz necessária sobre a versão interpretativa deste poema: trata-se da indeterminação inicial quanto à natureza daquele que chega como personagem. o estranho ou o estrangeiro, ou ainda o estranho estrangeiro, só é reconhecido ao longo do poema como tal pela condição de haver partilha de humanidade entre ambos. antes, era ser ou coisa amorfa, talvez a própria estranheza a bater portas e abrir infernos. se sujeito e personagem comungam o corpo, a cultura, o pensamento, a visão de mundo, tal imposição de sentido foge ao alcance interpretativo do texto do poema. tende-se a acreditar que o sujeito lírico e a personagem compartilham, por humanidade, da capacidade para a linguagem e da intimidade com a língua. quem ele efetivamente é, no entanto, fica em aberto. se este fosse um poema explícito de amor, diria o sujeito lírico que "não fosse o jeito de linguar, quase nos perderíamos um no outro". mas o amor escapa a este poema e à virtude da verdade.