20 de abril de 2018
às pressas, na vontade de esquecer, foi usado um porão. abismal e opaco, feito para guardar e amortecer o tempo. caído da paisagem do mundo, encheu-se do que não se emprestou sentido. hoje dorme gigantesco. ressoa em seu sono alguma história interrompida, reverberando bandejas de prata de um casamento que não vingou, caixa de ferramentas que não têm dono, livros escolares que não educam ninguém, uma cadeira de balanço que simula o útero, carrinhos de controle remoto há muito sem pilha. o porão fica próximo à memória da pele, mas distante do toque possível do despertar, do arrepio. sonha. sonha como uma tempestade no ferro velho: sonha com seu criador, deixando vestígios ao ranger em seu sono. às pressas, a tensão que o fecha treme, recua ante os convites à claridade, mantém as recusas dos mistérios, ressona já cansado de circular a morte. fechado, o porão é tentativa de não escutar o ruído que as coisas fazem quando estremecem à fagulha da imaginação e à pluma do silêncio. aberto, é eco da loucura íntima do que é de som e escapa: você é aquilo que você apaga (apaga aquilo que há) você é aquilo que apaga (apaga aquilo que há) você é aquilo que você (apaga aquilo que há) você é aquilo (apaga aquilo que há) você apaga (apaga aquilo que há) você (apaga aqu
29 de março de 2018
como quem tenta roubar o descanso da falta de palavras inventando brincadeiras, você olha para cima e dobra o rosto em alguns pensamentos. apesar da nossa aparente distração, você me pergunta o que vejo quando olho para o céu. e se responde sem me dar prazo: "vejo um mar sem ondas. um deserto multicor. o império do sol. o tédio dos giros dos planetas." e eu acho graça das imagens naturais, seria o olhar sobre o mundo também natural? seria essa visão extensa na verdade apenas uma percepção daquilo que se espreme entre as lâminas de um microscópio? "a vigilância de deus. vejo a casa das almas limpas, das virgens e dos anjos rechonchudos. a festa e o tribunal da providência. o tumulto ordenado do universo se criando e se desfazendo. vejo a lona do circo que é a humanidade." e rio desistindo da sua mania de transcendência mais uma vez próxima à analogia cristã, eu dentro da minha ironia ingênua. "vejo um desfile branco, cinza e preto. a grade das coordenadas cartográficas do globo. uma folha infinita. as linhas invisíveis das rotas aéreas. a ganância crescente dos prédios. vejo o peso sobre atlas. vejo o alívio dos românticos." e me desconcerto com a dificuldade de dar ternura ao que foi um tempo colegial, nosso presente embaralhado em lembranças de lascas de madeira de lápis apontado e idéias difíceis de expressar. "vejo o manto da virgem, que se estende calmo, pleno. um engano estratosférico de gases e vapores. o pé de feijão sumindo. a alegria combustível das estrelas cadentes. um lugar de onde se cai. um relógio sem ponteiros nem números. a casa dos pássaros." e fico curioso com a possibilidade de algum futuro adiado das bobagens da abóbada celeste, um futuro que seja encontro nosso assim terreno, portanto indeterminado. "vejo a paleta das cores do seu silêncio: variações de azul, cinza, preto, azul, vermelho, rosa, laranja, amarelo, branco. vejo uma lua à espera da alvorada. as estrelas e suas gatas: clarice, dora. vejo uns mapas que levam a nenhum tesouro. o abismo que nunca olha de volta. vejo o céu que você guarda dentro. vejo o próprio céu". sob a esplendorosa indiferença diante de nós, pude sorrir diante da descoberta.
8 de fevereiro de 2018
batido de vento de dia e curado de lua à noite, os montes recortavam o horizonte todo em dois como dois arcos de paisagem dividida de nossa casa. a família sempre ficava sob as dobras dos barrancos e sob a família ficávamos nós, os filhos, que chamamos pai de pai, mãe de mãe. daqui todo o mundo via as curvas longes e tortas, só ao trato do sol e chão seco incerto para o pé da gente e dos bichos. ninguém pisava os montes porque nos montes ninguém tinha o que fazer porque tudo da vida ficava dali para trás, sem precisar ultrapassar aquele cerco pedroso e checar do outro lado nada que havia lá. para pasto não servia porque não crescia verde e a terra se desfazia com a força do pé. para comida também não servia porque se rasgasse a terra mais terra se fazia e era só farinha de chão. a água que se derramava sumia rápida e ficava já seco o caminho do úmido, como se os montes fossem assim um grande deserto amontoado de jeito firme de pedra de areia mas frouxo. nunca chovia e se chovia nunca a chuva ia ou escorria. diziam que os montes eram enfeitiçados porque impossíveis de guardar vida e aquela pobreza imprestável juntava assim mais poeira e mistério. diziam que no passado onde nada existia aquilo era floresta de força poderosa, jardim da bíblia, onde deus criou um homem que depois criou uma mulher que depois criou o mundo e deixou aquilo ali esquecido para dar sujeira e contorno.
a casa todo dia era cheia de pó fino que vinha dos montes durante à noite e dia era dar vassoura ao chão e bater os panos e ventilar os quartos pelos atalhos certos em homenagem ao asseio de mãe. pai seguia calado na sua vida de dar sobrevivência à família com seu trabalho de roça e bicho. dispensava nossa companhia, gostava da família mas segundo mãe amava ninguém e assim ela se sentia e era assim. depois da arrumação, a gente inventava histórias para dar tento aos montes e ao silêncio de pai e seu amor de ninguém. dos montes a gente só tocava a poeira porque não tinha chance de subir ou escalar, e punha a cabeça para imaginar o que era aquele mundo depois dos montes que ninguém fazia questão de nem saber se é mundo ou só vazio bobo, buraco de abismo. e aí os montes eram rolha de um paraíso só de besteira da criação nossa. ou se debaixo desse juntado de tudo que é poeira e areia e pedrinha e pedregulho rodando no vento do planeta que eram os montes existisse uma piscina enorme de água limpa ou preta de barro. e aí os montes eram um vaso de barro com mais barro dentro. o silêncio de pai dava para a gente pensar em um homem quieto cheio dos motivos estranhos, imaginando que nosso pai ali era para tampar ou molhar essa linha longe no fim do céu com o fim da terra dos montes. porque sempre voltava para casa marrom com suor de lama no corpo e escolhia alguma tranquilidade para terminar o dia vendo o sol descendo e a poeira entrando e beijando nossas cabeças confusas.
a gente já meio sabia do descanso de pai, que às vezes se tocava pra dentro do quarto e ficava escurecido no escuro fazendo nada atrás de nada o dia inteiro, ruminando tempo de cabeça sem descer o corpo para trabalho de sempre de roça e bicho. passava com garrafa cheia de água e copo de boca trincada e bebia seguido silencioso. mãe ficava colada na porta ralhando, pau de mé, quem tem de dar à terra e aos bichos não pode ficar nessas virações, anda trabalho e chega de gole!, e surrava doida a porta e pai gritava de lá, me deixa descansar, me deixa! descansar!, e a gente ficava com aquilo ouvindo e tremendo dentro, com o barro do corpo agitado e o olho brilhando de água para derreter e cair. mãe dizia que ele era alcóolatra, e a gente estranhava, palavra de pouco giro na nossa boca; mãe dizia que ele era muito, muito doído, cheio dos motivos, e a gente calava e entendia. mas pai não era doído em lugar nenhum. porque pai achava que não falando não falava, mas dizia tudo quando agia na roça, nos bichos, em mãe e nós. e se beber era descansar e isso punha mãe doida, era melhor não doer e pedir canoa e se entocar para viver num rio distante atolando a remo comendo das minhocas que davam na piscina podre do fundo dos montes. ou ir para o nada besta do paraíso e ficar ali por conta das frutas podres esquecidas de apanhar. mas depois do descanso pai saía do quarto e mãe entrava e encontrava garrafa e gritava, é água, é água. pai fazia sério e saía do quarto ainda pai, para o trabalho de sempre de roça e bicho, para a tranquilidade no fim do dia e mais importante para os beijos para nós porque vinham também descansados para fazer descansar nós da imaginação do que seria o silêncio do barro e a rolha que era o amor.
até que depois do descanso um dia pai se decidiu desaparecer para os montes. não fez de cuidar da terra e dos bichos, não se molhou de lama do trabalho nem tampou as necessidades da família e da casa. não pediu para tirar prato da mesa dizendo que iria passar vida agora nos montes e adeus, vida agora por subir e descer os montes até sossegar indefinido. não se pôs botina nem chinelo, nada de pé calçado para aquele chão frouxo. e nossas cabeças ainda mais confusas trabalhando com as contas de quantas minhocas para comer tinham socadas naquela terra, da limpeza da água da piscina para beber e banhar, da proximidade perigosa com aquela burrice para depois dos montes. todos cálculos sem prestar. ninguém sabia se aquilo era o efeito do xingado pau de mé ou decisão pensada de pai ainda pai e seu trabalho de sempre. ninguém também fez jeito de ir atrás porque eram os montes e era lugar de nada além de curiosidade e entulho, só deixou ir porque pai, muito muito doído. e saiu rasgando vida nossa afora deixando mãe, nós e até garrafa de água para a única urgência de ir embora para os montes. deixou uma intranquilidade comprida assim esticada nas nossas caras de ver a poeira entrar ao fim do dia sem beijos. e mãe chorosa clareando o quarto antes escurecido aos gritos de maldições, que suba num pedestal invertido e se meta num buraco daquele chão bambo, que morra seco cheio de poeira na boca. e a gente arrepiava, brilhando olho, derramando água e amolecendo barro.
os dois arcos por cima de longe eram só rachadura e o vento trincando aquela sujeira só dava caminho de pó para a casa. os bichos secavam com a falta de trato do pai, a roça murchava igual feito nós. ninguém queria fazer semelhança ao descanso de pai e já se desistia da ideia de também passar e escurecer, mas o jeito de deixar sair a lama que se fazia dentro era imaginar alguma vida dos montes, a vida nossa perdida pelos montes. nosso desejo era só de ser pó e sair por aí rodando e ser espanado por mãe. mãe minguava de tampar os buracos de pedestais que tinha amaldiçoado, deixava copo d'água parado em cima da mesa para quando pai chegasse e se refrescar, molhar a boca e ganhar vida junto a nós de novo, sem fazer conta de nada. mas nunca. com o sumiço os montes tiveram mais mistério juntado àquelas dobras. porque de longe se via que o vento que lá soprava mexia naquelas curvas, os arcos arquejando e rodando a poeira para casa. os montes estavam parados de sempre mas se mexiam. e o que era vento para explicar aqueles feitiços de deslizar e de remexer a terra e as pedras, para nós era andança de pai. os montes mexendo eram o pai e mexendo-se o pai eram os montes. com ou sem garrafa, na piscina. assim dava notícias para nós. por vontade decidida ou impensada.
de perto aquele chão mole ainda continuava cedendo para nosso pé, o mesmo firmamento de farinha amontoada que engolia água e talvez até gente. mas não para o pé de pai, que nossa imaginação endurecia para fazer caminhar seco e escorregar bêbado de água pelos barrancos. ninguém via nada de gente andando nos montes mas a gente podia jurar um vulto de forma quebrada que ondulava junto às pedras: era pai dia e noite fazendo cumprir sua vontade. era pai sem canoa remando num rio de terra que corria deslizando enquanto mãe mastigava na cabeça era água, era água. pelos caminhos incertos, pai chegava e se espalhava em casa pela poeira ao fim do dia. os beijos confusos eram uma secura no céu da boca, um ardido no nariz. mãe enganava o asseio perseguindo o vento e batia vassoura com força no chão para afastar o pó. porque o pó lembrava pai. e mãe se sentia sentida e doída também de ter pai distante ou transformado nos montes. vigiava o vento pela casa fingindo visita. a lida com a roça e os bichos foi passada para nós contra a nossa vontade porque restava alguma esperança rachada de ver ainda pai. mas pai era lá vulto e poeira. aprendemos sem molhar olho e derramar água a guardar o suor de lama do corpo no corpo e cultivar em segredo amor e silêncio. era tampar um jeito nosso de ser menos espanado.
a casa todo dia era cheia de pó fino que vinha dos montes durante à noite e dia era dar vassoura ao chão e bater os panos e ventilar os quartos pelos atalhos certos em homenagem ao asseio de mãe. pai seguia calado na sua vida de dar sobrevivência à família com seu trabalho de roça e bicho. dispensava nossa companhia, gostava da família mas segundo mãe amava ninguém e assim ela se sentia e era assim. depois da arrumação, a gente inventava histórias para dar tento aos montes e ao silêncio de pai e seu amor de ninguém. dos montes a gente só tocava a poeira porque não tinha chance de subir ou escalar, e punha a cabeça para imaginar o que era aquele mundo depois dos montes que ninguém fazia questão de nem saber se é mundo ou só vazio bobo, buraco de abismo. e aí os montes eram rolha de um paraíso só de besteira da criação nossa. ou se debaixo desse juntado de tudo que é poeira e areia e pedrinha e pedregulho rodando no vento do planeta que eram os montes existisse uma piscina enorme de água limpa ou preta de barro. e aí os montes eram um vaso de barro com mais barro dentro. o silêncio de pai dava para a gente pensar em um homem quieto cheio dos motivos estranhos, imaginando que nosso pai ali era para tampar ou molhar essa linha longe no fim do céu com o fim da terra dos montes. porque sempre voltava para casa marrom com suor de lama no corpo e escolhia alguma tranquilidade para terminar o dia vendo o sol descendo e a poeira entrando e beijando nossas cabeças confusas.
a gente já meio sabia do descanso de pai, que às vezes se tocava pra dentro do quarto e ficava escurecido no escuro fazendo nada atrás de nada o dia inteiro, ruminando tempo de cabeça sem descer o corpo para trabalho de sempre de roça e bicho. passava com garrafa cheia de água e copo de boca trincada e bebia seguido silencioso. mãe ficava colada na porta ralhando, pau de mé, quem tem de dar à terra e aos bichos não pode ficar nessas virações, anda trabalho e chega de gole!, e surrava doida a porta e pai gritava de lá, me deixa descansar, me deixa! descansar!, e a gente ficava com aquilo ouvindo e tremendo dentro, com o barro do corpo agitado e o olho brilhando de água para derreter e cair. mãe dizia que ele era alcóolatra, e a gente estranhava, palavra de pouco giro na nossa boca; mãe dizia que ele era muito, muito doído, cheio dos motivos, e a gente calava e entendia. mas pai não era doído em lugar nenhum. porque pai achava que não falando não falava, mas dizia tudo quando agia na roça, nos bichos, em mãe e nós. e se beber era descansar e isso punha mãe doida, era melhor não doer e pedir canoa e se entocar para viver num rio distante atolando a remo comendo das minhocas que davam na piscina podre do fundo dos montes. ou ir para o nada besta do paraíso e ficar ali por conta das frutas podres esquecidas de apanhar. mas depois do descanso pai saía do quarto e mãe entrava e encontrava garrafa e gritava, é água, é água. pai fazia sério e saía do quarto ainda pai, para o trabalho de sempre de roça e bicho, para a tranquilidade no fim do dia e mais importante para os beijos para nós porque vinham também descansados para fazer descansar nós da imaginação do que seria o silêncio do barro e a rolha que era o amor.
até que depois do descanso um dia pai se decidiu desaparecer para os montes. não fez de cuidar da terra e dos bichos, não se molhou de lama do trabalho nem tampou as necessidades da família e da casa. não pediu para tirar prato da mesa dizendo que iria passar vida agora nos montes e adeus, vida agora por subir e descer os montes até sossegar indefinido. não se pôs botina nem chinelo, nada de pé calçado para aquele chão frouxo. e nossas cabeças ainda mais confusas trabalhando com as contas de quantas minhocas para comer tinham socadas naquela terra, da limpeza da água da piscina para beber e banhar, da proximidade perigosa com aquela burrice para depois dos montes. todos cálculos sem prestar. ninguém sabia se aquilo era o efeito do xingado pau de mé ou decisão pensada de pai ainda pai e seu trabalho de sempre. ninguém também fez jeito de ir atrás porque eram os montes e era lugar de nada além de curiosidade e entulho, só deixou ir porque pai, muito muito doído. e saiu rasgando vida nossa afora deixando mãe, nós e até garrafa de água para a única urgência de ir embora para os montes. deixou uma intranquilidade comprida assim esticada nas nossas caras de ver a poeira entrar ao fim do dia sem beijos. e mãe chorosa clareando o quarto antes escurecido aos gritos de maldições, que suba num pedestal invertido e se meta num buraco daquele chão bambo, que morra seco cheio de poeira na boca. e a gente arrepiava, brilhando olho, derramando água e amolecendo barro.
os dois arcos por cima de longe eram só rachadura e o vento trincando aquela sujeira só dava caminho de pó para a casa. os bichos secavam com a falta de trato do pai, a roça murchava igual feito nós. ninguém queria fazer semelhança ao descanso de pai e já se desistia da ideia de também passar e escurecer, mas o jeito de deixar sair a lama que se fazia dentro era imaginar alguma vida dos montes, a vida nossa perdida pelos montes. nosso desejo era só de ser pó e sair por aí rodando e ser espanado por mãe. mãe minguava de tampar os buracos de pedestais que tinha amaldiçoado, deixava copo d'água parado em cima da mesa para quando pai chegasse e se refrescar, molhar a boca e ganhar vida junto a nós de novo, sem fazer conta de nada. mas nunca. com o sumiço os montes tiveram mais mistério juntado àquelas dobras. porque de longe se via que o vento que lá soprava mexia naquelas curvas, os arcos arquejando e rodando a poeira para casa. os montes estavam parados de sempre mas se mexiam. e o que era vento para explicar aqueles feitiços de deslizar e de remexer a terra e as pedras, para nós era andança de pai. os montes mexendo eram o pai e mexendo-se o pai eram os montes. com ou sem garrafa, na piscina. assim dava notícias para nós. por vontade decidida ou impensada.
de perto aquele chão mole ainda continuava cedendo para nosso pé, o mesmo firmamento de farinha amontoada que engolia água e talvez até gente. mas não para o pé de pai, que nossa imaginação endurecia para fazer caminhar seco e escorregar bêbado de água pelos barrancos. ninguém via nada de gente andando nos montes mas a gente podia jurar um vulto de forma quebrada que ondulava junto às pedras: era pai dia e noite fazendo cumprir sua vontade. era pai sem canoa remando num rio de terra que corria deslizando enquanto mãe mastigava na cabeça era água, era água. pelos caminhos incertos, pai chegava e se espalhava em casa pela poeira ao fim do dia. os beijos confusos eram uma secura no céu da boca, um ardido no nariz. mãe enganava o asseio perseguindo o vento e batia vassoura com força no chão para afastar o pó. porque o pó lembrava pai. e mãe se sentia sentida e doída também de ter pai distante ou transformado nos montes. vigiava o vento pela casa fingindo visita. a lida com a roça e os bichos foi passada para nós contra a nossa vontade porque restava alguma esperança rachada de ver ainda pai. mas pai era lá vulto e poeira. aprendemos sem molhar olho e derramar água a guardar o suor de lama do corpo no corpo e cultivar em segredo amor e silêncio. era tampar um jeito nosso de ser menos espanado.
21 de dezembro de 2017
para escapar do assombro
dar rumo às memórias
motor do segredo
que se desdobra em voz
nada semelhante a uma caixa postal:
ante a impossibilidade de coexistir
uma preparação
da vida imaginada em brasília
apelando a nenhuma garantia
impossível diferenciar
solidão acompanhada e abandono
existe alguma resistência
em desobedecer ao silêncio
(meu irmão disse que tenho que me comportar)
da vida que sobra (onde?)
resta alguma tentativa:
conjugar resignação e revolta
encontrar no livro dos espíritos um panfleto
ver na televisão uma propaganda da nova honda
ir ao casa park uma ironia
premoldados brasil: desde 1983 ajudando nossos clientes a realizarem seus sonhos
não ia cortando giro ou chamando no grau
não fechava nem costurava
não ia pelo corredor
muito prudente com a direção
motivo de orgulho e medo
desejo de máquina não encaminhado
(estou com saudades do seu irmão)
manhã tarde oficina
noite supletivo
vida contrária à vida
fim de semana lavar estudar esperar fumar um
sumir para taguatinga atrás das piriguetes
sempre em trânsito (fugindo?) e cansado –
a bença da minha mãe pairava
cuidado juízo
o corpo é a lataria
deus e os anjos da guarda te guardem
o meu pai calmo como um pai
entre esculturas de latas de cerveja
os cabelos lisos cheirando à fumaça
vestindo roupas que não são dele
cigarro aceso na vela de sete dias
chorando quieto ao lado do capacete
(seu irmão disse que ia voltar)
o ronco da moto enchendo a entrada do prédio
o kiko latindo agitadíssimo
quando você vai chegar mais cedo?
eu descendo as escadas
quando você vai me levar na garupa?
eu subindo as escadas
quando você vai embora?
brincadeira fundamental:
recebê-los em casa com uma cena de velório
mamãe muito preocupada
horror diante da necessidade de se salvar e salvar
coroas de flores imaginadas no meu quarto
os travesseiros que pus debaixo do cobertor fingindo ser eu
(meu irmão disse que mais pareciam um caixão)
dezesseis de dezembro de dois mil e três
por volta das quinze horas sgcv em direção à epia sul
abre-se lentamente uma fenda na realidade
toma forma um acontecimento
menos próximo da gravidade
mais entregue ao curso do outro
um carro à vista e uma moto invisível
no instante suspenso do voo
alçado por um cálculo do acaso
entre a curva e o encontro
antes de pousar brusco e se juntar às pedras
aos 20 anos e eterno
uma aprendizagem: um acidente
um acidente é uma certeza
( )
cuidado juízo
o corpo é a lataria
deus e os anjos da guarda te guardem
dar rumo às memórias
motor do segredo
que se desdobra em voz
nada semelhante a uma caixa postal:
ante a impossibilidade de coexistir
uma preparação
da vida imaginada em brasília
apelando a nenhuma garantia
impossível diferenciar
solidão acompanhada e abandono
existe alguma resistência
em desobedecer ao silêncio
(meu irmão disse que tenho que me comportar)
da vida que sobra (onde?)
resta alguma tentativa:
conjugar resignação e revolta
encontrar no livro dos espíritos um panfleto
ver na televisão uma propaganda da nova honda
ir ao casa park uma ironia
premoldados brasil: desde 1983 ajudando nossos clientes a realizarem seus sonhos
não ia cortando giro ou chamando no grau
não fechava nem costurava
não ia pelo corredor
muito prudente com a direção
motivo de orgulho e medo
desejo de máquina não encaminhado
(estou com saudades do seu irmão)
manhã tarde oficina
noite supletivo
vida contrária à vida
fim de semana lavar estudar esperar fumar um
sumir para taguatinga atrás das piriguetes
sempre em trânsito (fugindo?) e cansado –
a bença da minha mãe pairava
cuidado juízo
o corpo é a lataria
deus e os anjos da guarda te guardem
o meu pai calmo como um pai
entre esculturas de latas de cerveja
os cabelos lisos cheirando à fumaça
vestindo roupas que não são dele
cigarro aceso na vela de sete dias
chorando quieto ao lado do capacete
(seu irmão disse que ia voltar)
o ronco da moto enchendo a entrada do prédio
o kiko latindo agitadíssimo
quando você vai chegar mais cedo?
eu descendo as escadas
quando você vai me levar na garupa?
eu subindo as escadas
quando você vai embora?
brincadeira fundamental:
recebê-los em casa com uma cena de velório
mamãe muito preocupada
horror diante da necessidade de se salvar e salvar
coroas de flores imaginadas no meu quarto
os travesseiros que pus debaixo do cobertor fingindo ser eu
(meu irmão disse que mais pareciam um caixão)
dezesseis de dezembro de dois mil e três
por volta das quinze horas sgcv em direção à epia sul
abre-se lentamente uma fenda na realidade
toma forma um acontecimento
menos próximo da gravidade
mais entregue ao curso do outro
um carro à vista e uma moto invisível
no instante suspenso do voo
alçado por um cálculo do acaso
entre a curva e o encontro
antes de pousar brusco e se juntar às pedras
aos 20 anos e eterno
uma aprendizagem: um acidente
um acidente é uma certeza
( )
cuidado juízo
o corpo é a lataria
deus e os anjos da guarda te guardem
9 de dezembro de 2017
depois de muito vivido, a proximidade com a morte. natural e esperada, luto antecipado de si mesma. a experiência com o próprio corpo é nojo e lembrança de juventude. a pouca autonomia para os dias, atravessados com angústia, tédio, tristeza. o horror de saber que todos aqueles a quem amou e ama estão distantes ou ocupados com suas vidas. os pais já morreram há muitos anos. impossível restituir o valor da vida e se mover invisível prezando por alguma hipótese de futuro. não há futuro. há pequenas paranóias e insatisfações acentuadas, na tentativa de um cotidiano. as preocupações com os outros são um engano para si, gestos inúteis entre carinho e carência. o desinteresse nas coisas do mundo, como se o tempo possível de sentir prazer e se maravilhar já tivesse se esgotado. as confusões com os remédios, com a programação da televisão, com os folhetos de supermercado. a saúde demandando cuidados sem fim diante do único fim iminente, mas não para já. os sentimentos consumidos pela memória, que se falseia em excesso de realidade e histórias mal contadas. a ruína e o vigor simulados para os familiares na busca de trazê-los perto ou mantê-los longe.
ainda não cheguei completamente lá. meus filhos estão grandes; já sou vó e tenho três netas e um netinho que já vindo. não posso mais me movimentar muito, passo meus dias assim inventando o que fazer, acompanhando o povo pelo whatsapp, pedindo notícias, rezando... vou todo dia à missa aqui da minha varanda, mas a fé não tem mais tanta serventia. celebro as visitas da minha e da nossa família, minha alegria é assim, dar bença, prosear. fico aqui teimando contra a minha doença, vendo meu corpo me emperrar cada vez mais dentro de casa. fico aqui teimando, não entrego os pontos, saio com esforço mas saio; é mais fácil vocês virem até a mim do que eu até vocês. a menina do salão vem pintar o meu cabelo, arrumar a minha unha. no sacolão eu ligo e o rapaz já deixa tudo separado, coloca as compras até no carro pra mim. não dou conta de limpar a casa sozinha, arranjei uma mocinha que é boazinha só cê vendo... vou devagar e assim com fé faço as coisas. mas não posso com os sábados à tarde. não posso. acho uma hora arrastada e difícil de passar, aquele depois do almoço. nada na tv: olho pela janela e vai pela rua um carro de som vendendo não sei o quê... baixinho uma galinha de quintal cacareja cócócó... o sol queimando a praça toda, o vento sacudindo as árvores... ninguém na rua, o som do semáforo trocando as luzes. aquele paradão. aí, a vida pesa. pesa. não quero ser preocupação mas sei que preocupo. tá tudo bem, os meninos estão todos bem e é o que me importa. me sinto velha e sozinha... e fico calada. pela certeza do não futuro, os velhos só têm o passado. a velhice, joão, é o tempo da vida em que a gente é deus e, sendo deus, fica guardando grave o silêncio... o mesmo silêncio.
ainda não cheguei completamente lá. meus filhos estão grandes; já sou vó e tenho três netas e um netinho que já vindo. não posso mais me movimentar muito, passo meus dias assim inventando o que fazer, acompanhando o povo pelo whatsapp, pedindo notícias, rezando... vou todo dia à missa aqui da minha varanda, mas a fé não tem mais tanta serventia. celebro as visitas da minha e da nossa família, minha alegria é assim, dar bença, prosear. fico aqui teimando contra a minha doença, vendo meu corpo me emperrar cada vez mais dentro de casa. fico aqui teimando, não entrego os pontos, saio com esforço mas saio; é mais fácil vocês virem até a mim do que eu até vocês. a menina do salão vem pintar o meu cabelo, arrumar a minha unha. no sacolão eu ligo e o rapaz já deixa tudo separado, coloca as compras até no carro pra mim. não dou conta de limpar a casa sozinha, arranjei uma mocinha que é boazinha só cê vendo... vou devagar e assim com fé faço as coisas. mas não posso com os sábados à tarde. não posso. acho uma hora arrastada e difícil de passar, aquele depois do almoço. nada na tv: olho pela janela e vai pela rua um carro de som vendendo não sei o quê... baixinho uma galinha de quintal cacareja cócócó... o sol queimando a praça toda, o vento sacudindo as árvores... ninguém na rua, o som do semáforo trocando as luzes. aquele paradão. aí, a vida pesa. pesa. não quero ser preocupação mas sei que preocupo. tá tudo bem, os meninos estão todos bem e é o que me importa. me sinto velha e sozinha... e fico calada. pela certeza do não futuro, os velhos só têm o passado. a velhice, joão, é o tempo da vida em que a gente é deus e, sendo deus, fica guardando grave o silêncio... o mesmo silêncio.