23 de setembro de 2019

(southern trees bear a strange fruit
blood on the leaves and blood at the root [...])

carregava uma vida que era como um problema
difícil de encaminhar para conclusões ou êxitos
o desejo a pele como questões sem respostas
um rosto que não enternecia o mundo, dourado

andava como quem esperava por distribuir luzes
querendo ser iluminado para poder amar seguir fazer
pelo campus escolheu apenas a hora sobre uma árvore
e não resistiu à sedução de pender sob os galhos
torcer-se como uma interrogação, que era

12 de fevereiro de 2019

entrada da quadra, tardezinha de 1998

subi no pouco que pude o ponto mais alto da minha árvore após ter brigado com meus amigos, então tornados inimigos, pelos quais ansiava a morte. acreditando que toda criança tinha de ter uma árvore e um pai para espantar o mal do coração e do mundo, a partir da minha educação de culpa cristã e muitos brinquedos caros quebrados, rezei para deus e os seus que salvassem esta alma egoísta e poupassem de avaliá-la com estes olhares impiedosos, mas justos, que eu não sabia exatamente de onde vinham: "santo anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, rogo-me de frente e também alado, já que nas alturas do pau-brasil, e à sina conquistada de ser criança agora solitária: por favor, pai do céu, faça com que o anjo compareça em presença absoluta e real, pois já não tenho mais com quem brincar; leia os joelhos ralados e adormecidos pela prece, alivie esta agonia cansada dos mistérios e o apresente, em penas, como amigo. se não der, aceito que venha o senhor mesmo; pode vir como pombo, até sem bola". era uma clemência infantil, que não encontrava sentido algum na redenção, mas que se lançava obstusa e amendrontada, imitando o gesto dos adultos. julgava eu ser nenhuma alegria guardar, governar, iluminar nós os homens, por entre as nuvens e detrás das estrelas, como me diziam deste reino do pai do céu. temia seus abusos e as fofocas de seus enviados vigilantes, desejava em segredo que de uma vez por todas se deitassem abaixo o ócio vaidoso e o voyeurismo destes gestores habitantes do éter – e que as árvores, verdadeiras companhias, falhada a prece, me escutassem acolhedoras, dando galhos para espadas ou cajados, troncos para cavalos ou esconderijos e folhas ou raízes para coroas ou remédios de cura profunda imaginada.

24 de novembro de 2018

angústia

seus olhos escuros mãe obscura
lúcida descoberta
o português é provisório
da que tenho dentro da boca
ganho um nome a ser fazer próprio
dou ao mundo este órgão
em busca de um livro de segredos
textos luminosos páginas brancas
balbuciando a reza que ouvi dentro da água
mãezinha do céu eu não sei rezar
só sei dizer eu quero te amar

aprendo este amor
sou tornado usuário
de uma língua que não sei o nome
materna maternal
tomo de empréstimo as palavras
para as coisas os pensamentos
os sentidos não visíveis
um nome é necessário mas nunca suficiente
há ainda um mal
impossível de recobrir
haja portanto fé

obscura mãe seus olhos escuros
uma religião se anuncia
em casa uma canção ingênua
e a morte a ser conquistada
por não derrubar paredes
e restar um corpo feito para depredação
"um dia vou cortar sua língua fora"
definitivamente
e cantando com voz de me ninar
azul é teu manto branco é teu véu
mãezinha eu quero te ver lá no céu

17 de novembro de 2018

alguma leveza

receber com tímidos passos o pesar
dos homens que não sabem dançar:
dois pra lá
dois pra cá

13 de outubro de 2018

anti-vestal

romper a paz dos dias
pacificá-los à força

queimar as árvores
purgar nenhum pecado

secar os rios
expandir os desertos

devastar as cidades
admirar as ruínas

destruir as rotas
que não haja estrangeiros

invadir as casas
que ninguém as invada

apagar os fogos
acendê-los sob os corpos

rasgar os véus
que não guardem nudez

estuprar as virgens
depois nomeá-las imaculadas

matar as crianças
imolá-las com sais e cinzas

humilhar os homens
que se curvem mais

arruinar as mulheres
que se pareçam com os homens

sangrar os animais
prazer

fazer honrarias e homenagens
não despertar a fúria dos deuses

rezar à deusa héstia
que seja de novo firmada

receber amor genuíno
não haverá punição

ouvir o silêncio
se lembrar da história

ouvir o silêncio
completamente

aprender a receber abraços
aprender a dar abraços