24 de outubro de 2019

pós-banho

cheiro de sabonete
formas embaralhadas à
estampa da toalha enrolada
à cintura pele úmida
no rosto os poros distensos
reflexo turvado por vapor
d'água pairando sobre
minha expressão fugidia uma
fresta desembaçada torna
visível a espuma os ossos
que apontam do outro
lado o outro (o que separa
o desamparo da onipotência
é um risco) vejo um rosto
pouco barbado meu olhar
incisivo sobre o desenho
o trajeto a altura dos pêlos sempre
tão próximos às linhas azuladas
que se guardam a correr
por dentro um medo se
ajusta (de perder a medida
o ritmo) enquanto decido
por trato ou acabamento
do excesso à escassez
pauso e espero
nas mãos o navalhete
que em cordato pulso e
aberto para a lâmina
(não escorrem ainda
as linhas fechadas)
já fixada impõe o corte
rente e exato como
estes versos também
mal aparados

23 de setembro de 2019

(southern trees bear a strange fruit
blood on the leaves and blood at the root [...])

carregava uma vida que era como um problema
difícil de encaminhar para conclusões ou êxitos
o desejo a pele como questões sem respostas
um rosto que não enternecia o mundo, dourado

andava como quem esperava por distribuir luzes
querendo ser iluminado para poder amar seguir fazer
pelo campus escolheu apenas a hora sobre uma árvore
e não resistiu à sedução de pender sob os galhos
torcer-se como uma interrogação, que era

12 de fevereiro de 2019

entrada da quadra, tardezinha de 1998

subi no pouco que pude o ponto mais alto da minha árvore após ter brigado com meus amigos, então tornados inimigos, pelos quais ansiava a morte. acreditando que toda criança tinha de ter uma árvore e um pai para espantar o mal do coração e do mundo, a partir da minha educação de culpa cristã e muitos brinquedos caros quebrados, rezei para deus e os seus que salvassem esta alma egoísta e poupassem de avaliá-la com estes olhares impiedosos, mas justos, que eu não sabia exatamente de onde vinham: "santo anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, rogo-me de frente e também alado, já que nas alturas do pau-brasil, e à sina conquistada de ser criança agora solitária: por favor, pai do céu, faça com que o anjo compareça em presença absoluta e real, pois já não tenho mais com quem brincar; leia os joelhos ralados e adormecidos pela prece, alivie esta agonia cansada dos mistérios e o apresente, em penas, como amigo. se não der, aceito que venha o senhor mesmo; pode vir como pombo, até sem bola". era uma clemência infantil, que não encontrava sentido algum na redenção, mas que se lançava obstusa e amendrontada, imitando o gesto dos adultos. julgava eu ser nenhuma alegria guardar, governar, iluminar nós os homens, por entre as nuvens e detrás das estrelas, como me diziam deste reino do pai do céu. temia seus abusos e as fofocas de seus enviados vigilantes, desejava em segredo que de uma vez por todas se deitassem abaixo o ócio vaidoso e o voyeurismo destes gestores habitantes do éter – e que as árvores, verdadeiras companhias, falhada a prece, me escutassem acolhedoras, dando galhos para espadas ou cajados, troncos para cavalos ou esconderijos e folhas ou raízes para coroas ou remédios de cura profunda imaginada.

24 de novembro de 2018

angústia

seus olhos escuros mãe obscura
lúcida descoberta
o português é provisório
da que tenho dentro da boca
ganho um nome a ser fazer próprio
dou ao mundo este órgão
em busca de um livro de segredos
textos luminosos páginas brancas
balbuciando a reza que ouvi dentro da água
mãezinha do céu eu não sei rezar
só sei dizer eu quero te amar

aprendo este amor
sou tornado usuário
de uma língua que não sei o nome
materna maternal
tomo de empréstimo as palavras
para as coisas os pensamentos
os sentidos não visíveis
um nome é necessário mas nunca suficiente
há ainda um mal
impossível de recobrir
haja portanto fé

obscura mãe seus olhos escuros
uma religião se anuncia
em casa uma canção ingênua
e a morte a ser conquistada
por não derrubar paredes
e restar um corpo feito para depredação
"um dia vou cortar sua língua fora"
definitivamente
e cantando com voz de me ninar
azul é teu manto branco é teu véu
mãezinha eu quero te ver lá no céu

17 de novembro de 2018

alguma leveza

receber com tímidos passos o pesar
dos homens que não sabem dançar:
dois pra lá
dois pra cá