4 de fevereiro de 2021

hermeneuta afetado traduz the lamb de william blake

perguntando ao animal sobre seu criador, blake dá continuidade à sua investigação sobre a origem das coisas que compõem o mundo. inquirindo o símbolo da pureza e inocência, supõe tais atributos ao primeiro período do ciclo da vida humana, compondo seus versos de metro bem ritmado como quem compõe cantigas. afinal, o universo das cantigas infantis e, por extensão, as crianças são o público-alvo perfeito para o enquadre da pedagogia poético-cristã de blake. os refrões temáticos, desveladores de seu método filosófico, quando, no fim do poema, transformados em um fecho religioso que responde o questionamento inicial, decaem do empenho da razão que antes se realiza na dúvida e na meditação sobre a incerteza à então alegria da alienação às altas crenças da religião cristã. o imaginário campestre (o riacho, o campo, o pastoreio, o cordeiro, a brancura da lã, o balido), o deus que nomeia a si como um eu semelhante encarnado em uma criança ("Façamos o homem à nossa imagem, con­for­me a nossa semelhança") são emulações da felicidade extática e divina encarnada na vida penosa e humana: contra a urbanidade e a mácula ocasionada pelos vícios estão o bucolismo e a ignorância: a infância. contra o vácuo do não sentido por trás de todos os nomes está o nome superior de deus em todos os cantos designados, pela sua ternura: meninice onomástica. dada a modernidade e seus desdobramentos, há aqui um ponto de inflexão: não há, segundo a própria tese do poema, um nome próprio que não seja nome de deus. assim correspondemos todos à sua universalidade indexadora. diante da providência divina a que blake nos faz tributários, somos todos, a despeito de qualquer apreço à fixidez das identidades e às formas de ser e existir possibilitadas ao longo das épocas pela cultura, agni dei. já que nenhum signo escapa à vontade divina, resta-nos, portanto, balir, cativar o amor dessa instância superior para que não nos amaldiçoe com agruras e tragédias. resta-nos, fadados às delícias dos pecados, querer porventura a benção. cantemos!:

O cordeiro

Ó, cordeirinho, quem lhe fez?
Você conhece quem lhe fez?
Deu-lhe vida, o alimentou?
Junto às águas e sobre os campos,
Deu-lhe tecido de brancor,
Macio brilho, pura lã!
Deu-lhe tal frágil voz: balir,
Pondo o mundo inteiro a sorrir!
Ó, cordeirinho, quem lhe fez?
Você conhece quem lhe fez?

Cordeirinho, eu lhe direi,
Cordeirinho, eu lhe direi!
Pois, também chamado Cordeiro,
O seu nome chama Seu nome:
Ele é meiguinho, ele é bom,
Fez a si um bom garotinho:
Você cordeiro & eu menino
Nos chamamos todos Cordeiro!
Cordeirinho, Deus abençoe!
Cordeirinho, Deus abençoe!

18 de outubro de 2020

anoitecer de domingo

desce pela tarde
o sopro do fim de sol:
chega a hora instável.

10 de outubro de 2020

primavera

bafo de mormaço:
nenhuma chuva – nem nuvens.
riso das cigarras.

17 de setembro de 2020

autorretrato

à espera de um ato libertário
(expressão de amor próprio?)
este registro do impossivel
do mutável por excelência
vem dar a ver a si
em exibicionismo da abjeção
e fixação fiel do espírito
construído lentamente pelos anos
nada porta o gesto familiar
além da semelhança irretocável
que as linhas encerram
os outros baixam a voz e dizem "são eles"
eis a anti-história a ser traçada
a despeito da nossa incompreensão
nossa, que a ela estamos referidos:

clamante o olhar que se resigna
à escolha da própria contingência
acusador o nariz ossudo e boleado
que aponta sem o auxílio das mãos
emoldurada a boca por uma barba (signo
de descuido ou novo erotismo)
as palavras se silenciam no nó da garganta
à imagem de um objeto que comunica
o escuro desejo de um eu a se dissolver
indiscreta é a dobra das pálpebras
que não arredondam as intenções
penteados estão os cabelos grisalhos
assim se emoldura a violência eterna
definida por meio do rosto
esvaziado e imóvel de nosso pai

12 de agosto de 2020

homenagem

comecemos daqui postos
o tributo ao que não se vê
duremos até que a comunhão se faça
e desponte nos rostos o horizonte
ainda nossos e quentes
movamo-nos a esta estela
que fixa o ausente refletindo
o mundo avesso dos céus
e não cintila contra o fogo
nos recolhamos mais
ainda guardados e devagar
à compreensão do pranto
umedeçamos a terra com
licores elixires águas perfumadas
pousemos o colhido da terra
de volta aos pés da terra
abramos bem os olhos para
obter das sombras o lampejo
tatear do mistério a resposta
vir à luz outra luz
afirmemos os votos
à soberania da memória
não escapa o mal
lembremos daqueles
que tiveram suas cabeças
vestidas com o véu
da noite e seus corpos
resfriados à pedra
pelos ventos mínimos
sorvidos de volta
iniciemos agora
o culto ao silêncio: