produzo nenhum poema
verso esquema algum
reduzo o gesto a nada
resta aí a coisa não escrita
devidamente acabada:
cada almejada tentativa
letra suada ou de pura sina
resulta em poema nenhum
nada do longuíssimo curso da vida
ou da infernal esperança investida
miudezas quase invisíveis não há
abstrações monumentais? quá!
paisagens? tropos? sons? vá!
criar é maçada atrás de maçada
produzo nenhum poema
inspiração: nenhuma boa sacada
produzo branco sobre branco
melhor poema jamais escrito
não há clímax tópos ou pranto
pluma ou bruma estão proscritos
título nenhum autor algum
escrever branco não enfada
ritmo e som? furada!
poesia? coisa e nada!
11 de abril de 2021
14 de março de 2021
comunidade
2. terra, posse, proveito, interesse, ocupação, função pública, dever público
3. comum, social, universal, local, público, geral, não específico, compartilhado, coletivo, dividido, despretensioso, gratuito, aberto, organizado, autogovernado, familiar, junto, pertecente a todos, usado por todos, de natureza e caráter públicos
4. igualado a dois ou mais, usual, não excepcional, frequente, recorrente, não distinto, massivo, ordinário, não excelente
5. ir, mudar, mover, fazer comum, partilhar, dividir, revolucionar, falar intimamente
25 de fevereiro de 2021
13 de fevereiro de 2021
da hora incerta surge o certeiro fato:
(abóboda rubrorroxa caindo em negrume)
nas manobras da vontade incógnita
– volante, de toda crença, divino? –
se impõe, contra o sopro, uma aspiração
que sorve em cálculo inescapável a chama
nas lavouras do setentrional desejo, palmas acima,
(vaporosos hálitos subindo da chuva vespertina)
anuncia o pássaro distante da terra amornada de sol,
enquanto tudo, no curso do ordenamento riscado,
se resfria aos poucos e cede granulosamente ao pesar:
fogo-apagou, fogo-apagou, fogo-apagou, fogo-apagou
descansada a enxada, recolhido o chapéu, dividida a história,
o agricultor (teto fosco acendendo em pratazul)
ruma poente ao poente: a ceifadora unge seu báculo;
os irmãos se reúnem, pelo corpo plantado; falam arados de dor,
lembram tempos que lembram alegrias. findo o dia,
ela à espreita, restam todos – sem compreensão
4 de fevereiro de 2021
hermeneuta afetado traduz the lamb de william blake
perguntando ao animal sobre seu criador, blake dá continuidade à sua investigação sobre a origem das coisas que compõem o mundo. inquirindo o símbolo da pureza e inocência, supõe tais atributos ao primeiro período do ciclo da vida humana, compondo seus versos de metro bem ritmado como quem compõe cantigas. afinal, o universo das cantigas infantis e, por extensão, as crianças são o público-alvo perfeito para o enquadre da pedagogia poético-cristã de blake. os refrões temáticos, desveladores de seu método filosófico, quando, no fim do poema, transformados em um fecho religioso que responde o questionamento inicial, decaem do empenho da razão que antes se realiza na dúvida e na meditação sobre a incerteza à então alegria da alienação às altas crenças da religião cristã. o imaginário campestre (o riacho, o campo, o pastoreio, o cordeiro, a brancura da lã, o balido), o deus que nomeia a si como um eu semelhante encarnado em uma criança ("Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança") são emulações da felicidade extática e divina encarnada na vida penosa e humana: contra a urbanidade e a mácula ocasionada pelos vícios estão o bucolismo e a ignorância: a infância. contra o vácuo do não sentido por trás de todos os nomes está o nome superior de deus em todos os cantos designados, pela sua ternura: meninice onomástica. dada a modernidade e seus desdobramentos, há aqui um ponto de inflexão: não há, segundo a própria tese do poema, um nome próprio que não seja nome de deus. assim correspondemos todos à sua universalidade indexadora. diante da providência divina a que blake nos faz tributários, somos todos, a despeito de qualquer apreço à fixidez das identidades e às formas de ser e existir possibilitadas ao longo das épocas pela cultura, agni dei. já que nenhum signo escapa à vontade divina, resta-nos, portanto, balir, cativar o amor dessa instância superior para que não nos amaldiçoe com agruras e tragédias. resta-nos, fadados às delícias dos pecados, querer porventura a benção. cantemos!:
O cordeiro
Ó, cordeirinho, quem lhe fez?
Você conhece quem lhe fez?
Deu-lhe vida, o alimentou?
Junto às águas e sobre os campos,
Deu-lhe tecido de brancor,
Macio brilho, pura lã!
Deu-lhe tal frágil voz: balir,
Pondo o mundo inteiro a sorrir!
Ó, cordeirinho, quem lhe fez?
Você conhece quem lhe fez?
Cordeirinho, eu lhe direi,
Cordeirinho, eu lhe direi!
Pois, também chamado Cordeiro,
O seu nome chama Seu nome:
Ele é meiguinho, ele é bom,
Fez a si um bom garotinho:
Você cordeiro & eu menino
Nos chamamos todos Cordeiro!
Cordeirinho, Deus abençoe!
Cordeirinho, Deus abençoe!