22 de maio de 2021

ciranda

o contrário do amor
não é o ódio
é o mal

do mal
não o bem
a beleza

da beleza
não a feiura
a morte

da morte
não a vida
o desejo

(o contrário do ódio
não é o amor
é a alegria

do bem
não o mal
a verdade

da feiura
não a beleza
a cegueira

da vida
não a morte
Deus)

11 de abril de 2021

produzo nenhum poema
verso esquema algum
reduzo o gesto a nada
resta aí a coisa não escrita
devidamente acabada:
cada almejada tentativa
letra suada ou de pura sina
resulta em poema nenhum

nada do longuíssimo curso da vida
ou da infernal esperança investida
miudezas quase invisíveis não há
abstrações monumentais? quá!
paisagens? tropos? sons? vá!
criar é maçada atrás de maçada
produzo nenhum poema
inspiração: nenhuma boa sacada

produzo branco sobre branco
melhor poema jamais escrito
não há clímax tópos ou pranto
pluma ou bruma estão proscritos
título nenhum autor algum
escrever branco não enfada
ritmo e som? furada!
poesia? coisa e nada!

14 de março de 2021

comunidade

1. comuna, união, sociedade, comunhão, partilha, cortesia, troca amigável, afabilidade, condescendência

2. terra, posse, proveito, interesse, ocupação, função pública, dever público

3. comum, social, universal, local, público, geral, não específico, compartilhado, coletivo, dividido, despretensioso, gratuito, aberto, organizado, autogovernado, familiar, junto, pertecente a todos, usado por todos, de natureza e caráter públicos

4. igualado a dois ou mais, usual, não excepcional, frequente, recorrente, não distinto, massivo, ordinário, não excelente

5. ir, mudar, mover, fazer comum, partilhar, dividir, revolucionar, falar intimamente

25 de fevereiro de 2021

à mesa

já que aqui estamos
sentados (civilizados?)
ou ceamos com alegria
ou somos a refeição

13 de fevereiro de 2021

da hora incerta surge o certeiro fato:
(abóboda rubrorroxa caindo em negrume)
nas manobras da vontade incógnita
volante, de toda crença, divino?
se impõe, contra o sopro, uma aspiração
que sorve em cálculo inescapável a chama

nas lavouras do setentrional desejo, palmas acima,
(vaporosos hálitos subindo da chuva vespertina)
anuncia o pássaro distante da terra amornada de sol,
enquanto tudo, no curso do ordenamento riscado,
se resfria aos poucos e cede granulosamente ao pesar:
fogo-apagou, fogo-apagou, fogo-apagou, fogo-apagou

descansada a enxada, recolhido o chapéu, dividida a história,
o agricultor (teto fosco acendendo em pratazul)
ruma poente ao poente: a ceifadora unge seu báculo;
os irmãos se reúnem, pelo corpo plantado; falam arados de dor,
lembram tempos que lembram alegrias. findo o dia,
ela à espreita, restam todos sem compreensão