vai a noite aos objetos da cozinha
de domésticos e familiares passam a outros,
sinistrados, suspeitos, estrangeiros:
esta mesa, que se tornou?
esta cadeira, quem lhe sentava?
estes talheres, em que ceia usados?
eis de novo o café, o almoço, o lanche, o jantar:
antigos, renovados, estranha luz,
meu avô cantarolando: "joão pica pau,
maria mexe o angu, teresa bota a mesa":
assentado, corpo rente ao tampo, mãos em repouso,
chapéu cobrindo o rosto, pito de palha cintilante,
olhando vazio o prato de porcelana branca
lascado na borda, lugar em que punha o dedo na
hora de se servir: prato de nenhuma refeição.
ali, o desejo de fazer lembrar o amparo
de uma família num cumprimento calmo:
"bença, vô". pigarro, tosse, rouquidão: "bençoe"
28 de setembro de 2023
7 de setembro de 2023
patriotada
eis a farra da fanfarra: fogachos,
serpentinas, foguetes-fogos no ar!
bandeira, pipoca, fumaça, avião:
cavaleiros e cavalos: trotar!
marcha, farda, festim, canhão...
altibaixo, do povinho ao povão!
eis que um rasgo – "abaixo os fachos!"
parem a música! presto!
cessem qualquer gesto;
mais, prendam o fôlego!
segurem esses animais!
escutem: um resfôlego...
tresfôlego... deixem de dúvida!
ali! nada? pra frente! pra trás!
perigo, decerto: escutem!
quem se fez de perto? é certo
algo insurge no horizonte
ou está no meio de nós!
é coisa besta, brutamontes
ou jesus vindo dos pós?
é vermelho? é esperto?
ora, depois não se sabe!
meninas, meninos, banda!
que será?... é certo, age, anda!
"abaixo" o quê? quem falou?
os vermelhos? estão sem escape!
conspiração, no nosso dia! doutor?
mirou? preparar! apontar...
calados o bumbo e o trompete
verde-amarelo, a cena se repete:
busca não encontrada, pelo em ovo:
tudo inventado, cabeça dos bobos.
.................................................
pobres! pretos! coloridos! de novo?
fêmeas, todos vocês! apontar... fogo!
16 de julho de 2023
diálogo
— explica-me a diferença,
ó, sábio dos sábios,
do dentro e do fora,
porque sei o que vejo,
mas não vejo o que sei.
esta cadeira é uma cadeira
porque a vejo fora de mim;
concluo desta maneira
que não há em mim cadeira,
apenas um traço de seu fim.
— ó, aprendiz dos aprendizes,
é simples a explicação:
quando vejo uma cadeira,
sei que é uma cadeira,
mas poderia ser que não:
uma cadeira poderia perder
seu assento, seu espaldar
e ainda assim ser cadeira:
basta seu fim poder
em algum lugar estar.
— o que é uma cadeira,
senão uma afirmação?
ó, sábio mestre,
ela está dentro ou
fora do meu coração?
— a cadeira é e está,
bem como seu coração,
simplesmente, sem parte:
sente-se, ó, filho da dúvida,
para entender sua arte.
— na cadeira me sento,
já escuto seu sim;
agora sei, ó, pai sabido,
de pronto seu fim:
uma cadeira a contento
é fruto do pensamento! amém!
não vejo o vento, sinto sua festa.
uma cadeira pode também
não ser vista como esta!
assim é ou me prega peças?
— quanto à cadeira, afirmo
que não sou de enganos, ilusões:
sinta bem a cadeira, sem diasirmo!
desfrute: pense nela de maneira
que não seja pouso para suas aflições.
estando sentado e sem comoção,
descobrirá qualquer hora
que todo dentro é um fora
e que qualquer filosofia
serve de cadeira ao coração!
13 de junho de 2023
intruso
gato no motor.
num ato: ré. sangue. ar.
[....................]
o que é o amor?
preto e branco
destino, então?
horror: gato! xô! bartô?
ele ou ela em vão.
toalha-brinde
o corpo a cobrir.
vermelhas provas do ser.
ironia: vivo.
doutor, doutor
verdade à tona:
azar reverso. sem lar?
"ele está em coma".
eutanásia
estar sem estar:
sem dó, decidir e só.
[....................]
o que é amar?
ressopro
eis teu novo nome:
tadinho. após o fim,
tu, calor sem fonte.
13 de março de 2023
floresta, sussurros
este ecossistema familiar dos indígenas, bateado pelos garimpeiros, de correntão e boiada
este tropo medieval em que o mal e o desconhecimento se espelham e nos refletem
não faz ouvir o lamento da mãe que morre, o diabo a cozinhar ou as cores do vento (vovó willow que me perdoe)
pipiar dos pássaros ou ciciar das cigarras encobrem as mais antigas cenas do teatro do mundo
(que me perdoem as aves e os insetos) – noutra linguagem sussurra a bicharada:
botões desabotoados, braguilhas abertas, fricção, comoção!
pungentes vibram os homens seus lenhos de nenhuma cruz (ó, poesia, perdão)
buracos são mãos, bocas, dobras úmidas e pisca-piscas esfincterianos
à luz do dia se faz, entre carros estacionados e moitas, as lori lambys trepadas no parquinho logo ali
(perdão, perdão), um paraíso bíblico ao alcance dos nossos olhos mui terrenos
meditação guiada: imagine uma névoa que paira lentamente sobre uma floresta no fim de uma tarde fria de brasília
você é uma gota do orvalho que se forma, misturando-se à volúpia de fluidos e suores à meia-luz no parque da cidade
sinta sua liquidez transparente envolta de outras gotas tão pequenas como você, unidas em uma imensa orgia revigorante
os cheiros masculinos e a umidade invadem seu corpo de maneira a transformar você em uma brancura espessa e viscosa
agora você é o sexo combalido de um jornalista-voyeur que se masturbou tristemente diante da velha novidade etc.