22 de março de 2016

minas ou são paulo ou tristeza

quando assim em um estado turvo de espírito, já de costume antigo, nos encontramos, de passagem você de moradia eu, nesta cidade devido aos encaixes de um destino indevidamente acidental, tive a impressão de que seríamos ainda os mesmos. ilusão antiga dos paraísos de terra postos em água, o desastre de mariana a mudar nossas essências, tão distante hoje do que somos. tamanha lama para o que é só tempo comprimido em memória. apesar de mim, ainda preservei alguma crítica à razão para guiar as circunstâncias, sem entregar à angústia o juízo demandado. apesar de nós, ainda preservamos alguma crítica à comunhão para separar privacidades, sem forjar à ocasião o afeto esperado. apesar de você, ainda percebi preservada alguma opinião à vida para ir embora assim que fosse sábado às duas da tarde, sem integrar o contato a alguma aprendizagem possível. mas quando vi você devorando a luz branca da tela de seu celular, perdida entre as imagens como alguém que se olha profundamente no espelho, senti um desprezo irresistível diante daquilo que nomeava como você, visita fora de hora. o sentimento desterritorial do aeroporto caía bem à sua aura cosmopolita. se você me perguntasse pelo que estava acontecendo, pela minha cara, tanto desespero por quê?, responderia sintético que a vida continuava na mesmice, sem o agravo da tristeza que é morar em um iphone.

28 de fevereiro de 2016

minas ou são paulo ou tristeza

pra quê vai-não-vai,
morar à margem do mar?
poste cabisbaixo.

10 de dezembro de 2015

frente a qual toda exposição será insuficiente, tendo em conta a insaciedade de quem vê, assim como quando tal nudez se apresenta desavisada, levando em consideração o tremor diante do que é gratuito sem menos ou mais, a assertiva provisória sobre o comedimento: o melhor leitor é aquele que não escreve.

4 de dezembro de 2015

gosto desses senhores bem-vestidos que admiram árvores. galhinho na mão, andam e se detêm conforme a curiosidade. o galhinho indica que vêm de longo caminho, talvez já cansados e necessitados de um copo d'água. com o aguçado do gosto para formatos e texturas de flores, frutos, folhas, caules e raízes, regulam o passo e o descanso à medida que olham atentos. quem são esses senhores: botânicos, jardineiros, bruxos, fitoterapeutas, professores universitários, colecionadores? pelo modo que se vestem, aparentam boa razão e algum senso fixo dos costumes (talvez não sejam muito receptivos às notícias do jornal ou aos jovens barulhentos em suas roupas espalhafatosas). obsoletos, têm alguma discrição e cordialidade para com o mundo. têm dedicação para as árvores, contemplação para as árvores, silêncio para as árvores. poderiam ser eles mesmos árvores.

10 de novembro de 2015

noite de ressaca

estrelas em jogos
de dormir. brilho sem cor
quando o mar sobe.