comecemos daqui postos
o tributo ao que não se vê
duremos até que a comunhão se faça
e desponte nos rostos o horizonte
ainda nossos e quentes
movamo-nos a esta estela
que fixa o ausente refletindo
o mundo avesso dos céus
e não cintila contra o fogo
nos recolhamos mais
ainda guardados e devagar
à compreensão do pranto
umedeçamos a terra com
licores elixires águas perfumadas
pousemos o colhido da terra
de volta aos pés da terra
abramos bem os olhos para
obter das sombras o lampejo
tatear do mistério a resposta
vir à luz outra luz
afirmemos os votos
à soberania da memória
não escapa o mal
lembremos daqueles
que tiveram suas cabeças
vestidas com o véu
da noite e seus corpos
resfriados à pedra
pelos ventos mínimos
sorvidos de volta
iniciemos agora
o culto ao silêncio:
22 de julho de 2020
algo é dito mas não se escuta
para na porta do ouvido
não se reconhece como dito
não parece palavra
não é palavra
não se escreve
ausentes texto ou mensagem
é dito sem saber que se diz
não há som boca sentido
toma forma contra o real
surge anterior ao silêncio
como um ruído branco (ouço)
uma voz destacada do corpo
que diz a si mesma
em timbre puro, não mudo:
há algo além que não
espelho do mundo
para na porta do ouvido
não se reconhece como dito
não parece palavra
não é palavra
não se escreve
ausentes texto ou mensagem
é dito sem saber que se diz
não há som boca sentido
toma forma contra o real
surge anterior ao silêncio
como um ruído branco (ouço)
uma voz destacada do corpo
que diz a si mesma
em timbre puro, não mudo:
há algo além que não
espelho do mundo
29 de maio de 2020
coada pela rede incide recortadamente a estrela
em feixes retangulares o retalho impossível
no chão um mosaico irregular e temporário
se desenha pelo tapete outro tapete
iluminados nos banhamos como quem se cobre
dos destinos do mundo natural – apenas existimos
e os gatos olham e piscam sem suspeitar
(à noite incandescem as luzes domésticas
rente às janelas o tempo passa à deriva
os sóis descem à paisagem dos apartamentos
perguntamos acima e desde antes apartados
pelo nosso insistente erro ou engano humanos –
no frágil pano cósmico se trama nenhum desígnio
longe responde certeiro um sorriso prateado de foice)
em feixes retangulares o retalho impossível
no chão um mosaico irregular e temporário
se desenha pelo tapete outro tapete
iluminados nos banhamos como quem se cobre
dos destinos do mundo natural – apenas existimos
e os gatos olham e piscam sem suspeitar
(à noite incandescem as luzes domésticas
rente às janelas o tempo passa à deriva
os sóis descem à paisagem dos apartamentos
perguntamos acima e desde antes apartados
pelo nosso insistente erro ou engano humanos –
no frágil pano cósmico se trama nenhum desígnio
longe responde certeiro um sorriso prateado de foice)