existem muitas noites dentro de uma noite: confinado à sua mortalidade, aguarda a chegada da aurora. a saúde, afinal, é um meio para a alegria. diante de seus olhos de fenda ulula alaranjado um par de asas que não lembram liberdade. dilatados, confessam o instinto: caça, entretenimento, fome. regido pelas circunstâncias de seu corpo, uma vida outra passa reluzente em meio à sua penumbra pendular de satisfação e sofrimento: a vida é curta, os minutos, porém, são longos.
fixado na visão do inseto volante, o gato espera paciente. espera a boa hora, dado a meditações sobre a natureza do alimento-brinquedo ou sobre a doce ilusão de que sua forma lhe ultrapassa: "uma borboleta não sacia uma existência, mas com que pirotecnia suas cores, seus movimentos antes de ser morta". ou: "uma borboleta até poderia saciar uma existência, contanto não seja apenas uma!". um jardim de borboletas: um paraíso, um tédio.
no salto para a captura, desponta no horizonte um disco branco a contragosto de qualquer vontade: imperam este enigma à perspectiva, esta ausência de verbo, esta senciência que não se nomeia, esta impenetrabilidade paradoxal, esta submissão negociada. diante do banquete, nenhuma metáfora à altura para expressar como é bela a manhã; e a fome, a sobrevivência e a fé são aliviadas, ainda que momentaneamente, pela mastigação.
9 de agosto de 2022
21 de julho de 2022
hermeneuta afetado às voltas com it may not always be so;and i say de e.e.cummings
o valor de um soneto é o seu movimento: ascendente, descendente, transcendente, vai de um estado lírico a outro, buscando por, senão resoluções precárias, externação de conflitos internos, afirmação do direito a afetos ambíguos, lapidação de declarações contraditórias, falseamento de si em lamentos dilatados, ocultação de dores magníficas em formas mínimas, cultivo da prolixidade e do preciosismo beletristas, invenção de futuros possíveis e mundos imaginários, etc. o rigor da forma estética se contrapõe à variedade criativa dos enleios dramáticos ou sublimatórios propostos em seus versos, e o soneto, assim, representa infinitamente em sua comunicação lírica a complexidade dos estados da alma humana e seus voos. no tratamento de despedidas e separações amorosas, o gesto erótico se expressa por meio de uma gramática já gasta na cultura: choros chuvosos, tristezas em tons de azul, apatias brancas, rememorações em sépia, lutos escuros e prolongados; quanto às espécies de gêneros da poesia lírica, os especialistas fixam elegias, nênias.
tema eleito deste soneto (cuja declamação musicada por björk recupera uma camada de linguagem poética há tanto esquecida da arte da palavra), cummings desdobra o sofrimento grandioso em metro decassílabo e rimas interpoladas e cruzadas e em duas estrofes que somam os famigerados quatorze (8+6) versos, rezando bem e torto a cartilha italiana. partindo da constatação da transitoriedade do amor, o sujeito lírico recorda suas experiências eróticas, contrastando a sensibilidade da experiência sexual com os recortes do corpo da amada: lábios, dedos das mãos, coração, cabelos, silêncios, palavras: todos lançados a um passado ou redesignados a um novo corpo que não o do amante, que então canta seu lamento. todavia, como quem sofre diante de uma novidade a ser inaugurada pela condição de liberdade da amada, o giro ético do eu é o ponto de inflexão do poema: por meio dos votos maiúsculos de alegria amorosa, consuma-se em gesto sacrificial que sela o afastamento o término. a ruptura, por meio dessa atitude conciliatória de cumprimentos ao novo amado, incita a comoção do amante condensada em um rosto virado, perdurando tal solenidade no canto longínquo de um pássaro habitante de terras perdidas.
para além dos alívios terapêuticos que a leitura possibilita
por meio da identificação à sua voz e da recepção de sua sabedoria, o poema também se soma a um modo de elaboração do luto de
nossa moderna condição congênita de desamparo. ousadias genéricas: um poema é sempre uma
experiência de despedida e de encontro; ler, escrever um poema: dizer adeus e saudar. confissões: comove-se também este hermeneuta afetado, que elege tal soneto como meio escamoteado de se traduzir em expressão subjetiva. homem já cansado das letras, comete, entre a brincadeira e a seriedade de sua tradução, pequenas inscrições de si ao optar pelo gênero linguístico masculino para designar o referente-amado, discreta alusão homossexual a que não se dispõe delongar em seu ato transcriativo. em seu exercício tradutório, também se autoriza inserir recursos gráficos não contidos no soneto original, valendo-se do estilo de cummings para perpetrar pequenos delitos (perfeitamente perdoáveis) em nome de uma solidariedade compartilhada com o poeta norte-americano de seus vícios tipográficos. de resto, são compensações, lampejos, aproximações, fracassos, esconderijos:
não será pra sempre; portanto canto
se seus lábios, amados, tocarão
outros; seus caros dedos fisgarão
outro coração (o meu não há tanto);
seus cabelos noutro rosto são panos
(conheço) de silêncio, ou então
falas gostosas que, gemidas tão
cheias, ficam retidas em recanto;
se assim deve ser, se assim deve ser —
diga algo, amor, palavra-ferida;
eu, talvez, ao seu outro (de mãos dadas):
De mim receba alegria e dádiva.
Rosto à prova, ouvirei longe a vida —
cantar de pássaro longe do ver.
11 de abril de 2022
2 de março de 2022
estava a caminho da universidade, na via L3, altura da faculdade de tecnologia, para encontrá-lo. julgava a notícia inesperada, pela sobrevida então descoberta. o trajeto apontava uma decisão pelo estudo das engenharias, talvez mecânica ou química. descendo rumo aos pavilhões, um estacionamento de caminhões ordenados conforme a necessidade de manutenção e reparo: ali uma oficina provisória. confirmava assim minha intuição pela atuação em mecânica, já conhecido seu gosto por motores, rodas, câmbios, graxas. me aproximo apreensivo diante da possibilidade do encontro: um rosto já desvanecido pelos anos que o soterraram seria recuperado, enfim o fim da saudade, a continuação da vida legada ao futuro e fatalmente suspensa. você, dentro de um carro, sentado no lado do motorista, enquanto me inclino à janela do passageiro, sorri: vejo, relembro: o mesmo corte curto de cabelo, partido ao meio; a mesma espessura das sobrancelhas, imponentes; o mesmo nariz montanhoso, marca inegável nossa; os mesmos ângulos bonitos das têmporas, as mesmas bochechas sulcadas, a mesma linha oblíqua da mandíbula bem desenhada; a mesma boca como um borrão arredondado, os mesmos dentes simétricos; o mesmo pomo-de-adão pontiagudo. entretanto, num breve instante após o vislumbre da imagem reencontrada e finalmente entendível como você, seus gestos ganham a gravidade de um trauma: revejo, esqueço: seus olhos se desalinham, sua boca se retorce em queda; embaralham-se suas tentativas de palavras; os movimentos se tornam um ciclo fechado de repetição e angústia; a voz, não recuperada, surge como um grunhido animalesco, somando terror ao amor. reconheço os signos de uma condição demencial adquirida. seu corpo intransponível mostra o que seria, não fosse a morte: subitamente descolado da intimidade consigo por uma lesão severa: um paralítico.
28 de fevereiro de 2022
I.
se digo o nome de joão
arrasto consigo a pessoa
ainda que não presente
seus ombros desalinhados surgem
assemelhado o modo de pensar
a vida insistida vivida e porvir
os versos que não foram escritos
a memória pregressa e futura
o presente e a preguiça
a sabedoria ou ignorância
sobre si e o mundo ao redor
os copos d'água os acontecimentos
com susto quebrados ou bebidos
as roupas monótonas os trejeitos
estão como um corpo invisível
as mãos pousadas calmamente
e os olhos injetados vibrando
os gostos fugazes sem fixação
contra as músicas da adolescência
as horas de cadeira sem amores
à espera de todos os amores
também os medos e os sonhos
cheios de farelos de uma infância
(ou dos dias que não se acumularam)
que por unidade comum só possuem
o nome próprio gasto de joão
II.
joão, não busque um nome no rosto relampejado no espelho ou nas fortunas do sexo desenhado no corpo; as vontades e os vícios não servem de consolo, quando muito depõem sobre uma existência cujo sentido (nunca dado) foi artifício provisório de alguma história também provisória. não procure nas paisagens algum rastro do ser-ter-sido; unidade alguma se encontrará do que é em sua essência fragmento e vapor, ainda que belos os horizontes à beira-mar ou a vista reticulada da janela e dos vitrais: o torpor das vegetações e das serras mineiras, a visão do céu brasiliense em suas pirotecnias das horas sagradas nada podem, nada dizem. sobre as figuras de sons nos tratados de versificação ou nos manuais de estilística paira um pulsante silêncio, negando qualquer ritmo ou tom; os jogos de pensamento são formas esplêndidas de construir relações que são naturalmente impossíveis. nos textos não há mais do que uma gota d'água abstrata que se dissolve num mar perpétuo de sal e monstros, ainda que estes sejam carinhosos. busque um nome naquilo que está rente ao antigo gesto de nomear a partir do olhar docemente maternal para revestir você, que não era ainda uma vida própria: uma esperança inventada entre o amor e a tragédia, um elogio à fraternidade, uma alegre condenação.