20 de agosto de 2024

 "[...]
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
[...]
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
(Alberto Caeiro, "Quando tornar a vir a Primavera")


ainda que se repitam ciclicamente
os fatos são à revelia de si mesmos
sempre torna novo cada acontecimento
nexos e sentidos são artifícios
contra aquilo que impera renovado
alheio à verdade e à história

não há choro da primavera semelhada
à gente (o caçador caça a si mesmo
à espreita dos farfalhares da imaginação
a caça ignora seus dias suaves) no entanto
diante de novas flores e novas folhas verdes
chora-se – e a ausência do amigo se refaz

2 de agosto de 2024

os dedos apertam a si:
pausa diante do salto
baque surdo adiado
busca finda enfim

ação mórbida alguma:
um poema serve para
quedar-se sem ruídos
muito higienicamente

letras se aproximam:
numa página branca
clausura ou expansão
cortam onde não falo

visão sem percepção:
sideração e luz
o corpo retalhado
dor precedendo o sono

13 de julho de 2024

horas turvas, lentas
breu como se nada
a fazer do tempo
outro tempo por vir:

uns dias, cintilâncias
difratadas em alegria
como se houvesse
amor, amor já e aqui

25 de junho de 2024

vovô bartô

acordar um para dormir outro:
fazer a cama para que se faça
o sono de um contra o de outro
dosando calor e contato durante
a noite de vômitos rotineiros ou
de latidos dos cachorros
espreitados pelo portão da casa
até a hora do "vamos entrar?"

eis a companhia tornada hábito
conquistado por estima e cobertor
ou por semelhança de afetos em que
a decadência se soma à idade de um
mais a infelicidade comum de outro
da janela avistamos o céu estrelado
ou a luz clara do quintal da vizinha
presos à cortina para nosso descanso

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dorme enrodilhado sobre si
as patas dianteiras como travesseiro
perninhas magras sob a cabeça
rabo recolhido e servindo de venda
estremecem em seu sono os bigodes
rápidos tremores pelo corpo
longos miados de boca fechada –
com que sonha o gato?

(correndo da seringa de ciclosporina
gatos da rua invadindo seu pedaço
insetos gigantescos sombreando paredes
cachorrões rosnando e uivando
enroscando-se nos panos com que se tampa
solidão em meio aos corredores da casa
tigela de ração cheia de formigas
água velha suja de plumas)

(à porta do supermercado
um mendigo de pernas amputadas
rastejando imundo atrás de mim
cola-se à minha perna esquerda
me apalpa buscando por moedas
e por fim morde violento meu pé
vingativo diante da minha mentira
de dizer que não tinha trocado)

23 de maio de 2024

talvez

decidir como que teleguiado
por um saber que não se sabe

contra a certeza da causa
vale nenhum arbítrio

à espera de um fim
fazer de si um meio?