2 de março de 2017

ao centro do país sobre uma grande pedra plana recheada de cristais
projeto místico talvez pressagiado no sonho de um padre também tomado pelos arroubos modernistas
ansiosa congênita (cinquenta anos em cinco)
erguida por candangos iludidos que foram logo limpados para o entorno
brinca com o olhar de deus
que se interroga avião ou borboleta?
arrogância e sublimidade se confundem nas vias do eixo monumental
linhas retíssimas homens nem tanto
mais aterrados em burocracia e poder e política
uma cidade-cemitério planejada sem código afetivo
terra do você-sabe-com-quem-está-falando?
do bom-dia educado que vira acontecimento
a humanidade resiste
no chão fora dos caminhos ociosos das quadras trilhas atalhos batidos no meio do verde
nas luzes das casas empilhadas ou espalhadas sistematicamente
no cansaço das pessoas tomadas de solidão ao fim do dia
mas ainda assim brasília
sempre se esquecendo de acolher
dificultando a vida de quem não é do plano de quem não tem um plano
sua mania de horizonte enclausura tudo todos com concreto carro e céu
tão espaçosa cidade feita para se sentir pequeno

19 de fevereiro de 2017

me acredita 'que se eu guardo
prato que meu avô almoçou jantou
cocho que criou a família inteira
é por fome histórica de comer

2 de fevereiro de 2017

vingança

minha gata me ensina a fazer poesia;
quando peço um verso, se exijo uma rima:
mia.

24 de janeiro de 2017

hermeneuta afetado traduz to nobodaddy de william blake

obediente e contraventor cristão, william blake é um questionador dos valores do deus-pai. padecendo daquilo que desconfia mas não desacredita, é um metafísico que se equilibra mal, ora na razão, ora na fé. religioso e criador de sua própria mitologia, recorre a um simbolismo profundo, quase ancestral, para investigar sobre as versões das ontologias inventadas. atinge um nível de compreensão delirante ultratensionado, de difícil conjugação entre o conhecimento racional do homem diante da crença e o inominável do sagrado, fundando novo mistérios de conotação ordinária e apoteótica. em suma, é um ambivalente, amor e ódio para e contra o deus cristão. 'to nobodaddy' (palavra-valise formada por 'nobody+daddy', nome desrespeitoso criado pelo poeta para se referir a deus), endereçado como uma carta, sem padrão métrico, estilizado pelo inglês arcaico e pelas maiúsculas alegorizantes, o poema se faz denúncia e anúncio da ruína da estória cristã. munido de antropocentrismo, põe à prova a divindidade de deus e a simbologia bíblica em um apelo da razão à predileção do discurso religioso pelo obscurantismo e pela personificação do próprio homem. é uma profanação carinhosa que rebaixa deus e o humaniza com a paixão, que ridiculariza sua palavra e a busca. a tradução é primitiva, no sentido de se afeiçoar mais ao conteúdo, em detrimento de seu aspecto formal, e não se fixa à imagem ou àquelas suscitadas pelo poema, mas sim às relações semânticas dos versos, tratados como se em fossem linhas de prosa. o original e a tradução:

To Nobodaddy
Para Pai de Ninguém

Why art thou silent and invisible,
Por que tu és silêncio e não-visível,
Father of Jealousy?
Pai do Ciúme?
Why dost thou hide thyself in clouds
Por que te escondes em nuvens
From every searching eye?
De todo olho buscante?

Why darkness & obscurity
Por que escuridão & obscuridade
In all thy words & laws,
Em todas tuas palavras & leis,
That none dare eat the fruit but from  
Que ninguém ouse comer da fruta senão das
The wily Serpent’s jaws?
Mandíbulas da Serpente sagaz?
Or is it because secrecy gains females’ loud applause?
Ou é porque o mistério é alvo do grande apreço das mulheres?

7 de janeiro de 2017

hora da baleia

às vezes passa mais cedo, o caminhão de lixo. às vezes eu já 'tou dormindo, mas o cheiro é tão forte, o barulho é tão alto, que eu acordo. se eu 'tou acordado, corro até a janela pra ver os garis. gosto de esperar o caminhão passar pra depois ir fazer outra coisa à noite, dormir ou jogar videogame. os garis têm um apelido engraçado: cenourinhas. como será que eles conseguiram se acostumar com esse trabalho? meu pai que me disse que eles se acostumaram. ele disse também que eles não são bem pagos para isso. não sei se fico triste ou feliz pelos garis. triste porque meu pai disse que dinheiro nenhum vale esse serviço. feliz... não sei porquê. meu pai diz que é um trabalho de lixo e ri. eu rio também mas não acho engraçado. gosto de quando o caminhão começa a mexer a pá para apertar ainda mais o lixo lá dentro. faz um barulho muito triste, como se uma baleia 'tivesse chorando. acho que os garis também gostam. durmo só depois do caminhão, acho melhor. acho que dormir é como ir pro fundo do mar. quando eu acordo no meio da noite, às vezes meu pai e minha mãe 'tão brigando. se o caminhão 'tiver atrasado e passando bem nessa hora, eu gosto. mas às vezes escuto minha mãe chorando, dizendo que não é lixo. meu pai fica gritando lixo! lixo! lixo!, fico com muito medo. eu sei que ela não é lixo, de onde ela tirou isso? ele diz isso por quê? nem meu pai nem minha mãe sabem que eu acordo com a briga deles. minha mãe acha esquisito eu me interessar por lixo. um dia eu disse que o lixo é muito importante pras pessoas, e ela riu de mim. eu disse que sem o lixo as pessoas não teriam como ajudar os garis. acho que sei por que fico feliz com o trabalho deles. é porque gosto de saber que tem alguém que leva o nosso lixo pra longe. o lixo é engraçado porque ninguém gosta dele, mas tem gente que gosta, eca. eu não sei por que as pessoas choram. acho que é pra não guardar lixo dentro delas. minha mãe é engraçada. ela chora muito. eu não acho que ela é lixo. às vezes penso nela como uma baleia, nadando, nadando. meu pai 'tá mais pra caminhão, apertando com a pá.