5 de dezembro de 2023

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fins dos anos 1990 | manhã de fim de semana
céu de brigadeiro | clube vizinhança
saguão de entrada | entusiasmo malcontido
parede de troféus | arbustos que mais pareciam árvores
espreguiçadeiras espalhadas pelo gramado | famílias inteiras postadas
guarda-sóis formando um grande circo | homens brancos já vermelhos
cheiro de sundown e fritura pairando | também no ar é o tchan e afins
uma vez nós fincados e estabelecidos | besunto no corpo e beijo na testa
“cuidado pra não se perder” | então liberdade para ganhar o dia
ponto de referência para não me esquecer | “eu sei”

salinha apertada | senhorinha com óculos de fundo de garrafa e jaleco branco
afastar os dedos dos pés um a um | mãos de sapo
uma rodadinha | “que menino comprido!”
nenhuma pereba | novo adesivo no verso da carteirinha
frio na barriga diante da possibilidade | desejo de água e mais água
é-obrigatório-passar-na-ducha-antes-de-entrar-na-piscina | gritinhos na fila
palma da mão do salva-vidas estendida | labirinto de duchas antes
às vésperas na grade: | “não abre o olho debaixo d'água senão
arde e aí você não vai mais poder brincar | hein?”
cuidado ou desafio? | “eu sei”

pontinha do pé na água se demorando | receio e inveja dos que já estavam lá
temor conquistado | corridinha para trás
um-dois-três-e-já! | bolhas-bolhas-bolhas-bolhas
corpo de repente leve e pesado | pequenos tsunamis com os braços
daí saltar sem medo de escorregar no piso de pedras | poses aéreas gestos dramáticos
brincar de prisão na escada | “para com isso, é perigoso!”
mergulhar testando o limite do fôlego | “para com isso, é perigoso!”
sentado como buda ou deitado como o titanic | “para com isso, é perigoso!”
mais embalo nas espirais do tobogã | “para com isso, é perigoso!”
olhos abertos para ver o não (borrão, neblina) | “eu sei”

dedos enrugados pele pálida queixo batendo | hora de sair e quase ir embora
me secar ao sol | toalha nas costas como capa de herói nenhum
o piso de pedras então uma amarelinha improvisada | “vamos comer?”
crepe do quiosque ou estufa de salgados do restaurante | na saída um picolé
cabeçadinhas no vidro do carro atrapalhando o cochilo | sunga molhando o banco de trás
o mundo em câmera lenta como se ainda na água | sensação de dia ganho
à noite deitadinho para dormir | o corpo como um peixe tragado por um redemoinho
numa profecia óbvia os olhos irritados | “tem que pingar colírio”
visão espontaneamente embaçada | alegria feita de cansaço e satisfação
cabeça para trás equilibrando a gota numa careta | “eu sei”
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o que eram sábados solares da infância
renova-se em acontecimento, lembrança:
liquidez e movimento tornam outro o tempo.

a hesitação diante da ducha dá lugar
à surpresa da temperatura, do salto:
voo sem asas, fôlego ou pneuma?, repouso...

auto-hipnose induzida pelo corpo,
meditação irresistível pela repetição,
tudo descansa e trabalha enquanto.

o faz-de-conta aquático acompanha
braçadas e pernadas, tão autônomas,
fugindo de tubarões, dançando com sereias...

até que, fora da inocência das borbulhas,
uma voz-trovejo rompe o encanto:
“encaixa o nado! velocidade! vai!”
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vai-ondulando-volta-costas-dez-chegadas
agora-dez-medleys-completo-consegue?-bora
finaliza-com-pernada-de-peito-três-por-um
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quando livre, entra-se num transe
cernir braços e pernas ritmadamente
expiração lenta sem borbotões
sentir a água como se a habitasse
o sentimento oceânico logo ali
estranheza diante do antigo meio
em que a vida se experimentava
nos primeiros nados uterinos
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foi você quem eu escaldei
na banheirinha? (como saber?)
tão quente a água evaporava

no tobogã do vizinhança
umas meninas te engavetaram
seu irmão quem te salvou

no inei tinha uma plataforma
dentro da piscina para as aulas
num mergulho você ficou preso

e aquele episódio do salto
na banheira? boca sangrando choro
lá vai correr pra um dentista

quando nasceu o médico
tirou você pelo pé (como saber?)
que nem algo pescado da barriga

depois você fazia assim
com os braços as pernas
já de bicicleta ou nadando

da primeira vez que entrou
numa piscina você se enrolou
bem enroladinho se dissolvendo
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ida-e-volta-mergulho-seis-chegadas
crawl-cinco-sete-nove-onze-por-um-cinquenta-cada
faz-isso-três-vezes-ignora-o-desespero-da-apneia-foca-no-tê
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muito se perde e se deixa na piscina
medos preocupações desamores
dores nas articulações nos músculos
remela saliva catarro suor
(fé no cloro na aspiração no algicida)

também muito se elabora e se produz
hábitos decisões antipatias
a consciência diluída pela água no ouvido
os pensamentos inundados e sossegados
(orelha limpinha e pequenos trovões)
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por ansiedade ou prazer desmedido
por muito cansaço ou distração
vão se sumindo de si mesmos
para tentar comunicar algo

com aquilo que se perde e se acha
o cesto se cria ao seu modo:
feitos para serem desfeitos
objetos à prova do desejo
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paz-e-amor-só-educativo-pega-prancha-e-pull-buoy
vai-e-volta-perna-vai-e-volta-braço-milzão
depois-trezentos-braçada-de-um-lado-só-e-duzentos-ondulação
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vermelho-azul-amarelo-branco
alegres serpentes plásticas
ábaco dos distraídos e dos cansados

linhas reais de um terreno movediço
mapa frio e de fronteiras frouxas
em cada reta uma atividade diplomática

as bordas estão ali, mas nelas cabem
a experiência? caberiam elas no mar?
num tanque? num copo? numa gota?

continente e conteúdo se revezam
na água: sem revés flutuam
coloridos os rabiscos das raias
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sorvedouro ingênuo
sua força subestimada

grelha solta revela a matéria
contrária à alegria:

cimento poroso exposto
boca pronta para acidentes

(2000 e poucos, fim de tarde
catiguá, prova de coragem:

“vamos ver quem
consegue pisar no ralo?”

âncora de brinquedo
até que se prenda o pé)
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aquecimento-quatrocentos-peito
setenta-e-cinco-de-estilo-e-vinte-e-cinco-de-mergulho-três-vezes
finaliza-com-duzentos-metros-nadando-livre-leve-e-solto
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“tá boa a água?” (o termômetro
flutuando logo ali, flauta muda)
verde-azulada, vapores de cloro
o fundo ladrilhado se vê turvo
à mão pareceria a mesma, não fosse
a dureza (lentamente corrosiva
e lodosa nos transformando
em peixes ou anfíbios especializados
em respiração branquial ondulação
e nado peito) às vezes cristalina
azulejo azul azulando a luz branca
toda luzente a piscina feita
céu limpo rente ao chão
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“pai, tem como nadar no céu?”
à porta do chuveiro “anda logo”

(diante de tanto azul
nada mais justo)

sorriso constrangido para mim
que aceno saboreando
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vamo-fazer-só-lateral-cadê-a-pranchinha?
alonga-bem-aumenta-a-amplitude-da-pernada
vai-sair-dois-centímetros-mais-alto!
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tubarão, golfinho, cachorrinho
olhos avermelhados e cílios duros
vista enevoada, óculos algum
tchibum-tchibum-tchibum-tchibum
mergulhando atrás de objetinhos
plantando bananeiras, dando cambalhotas

hipnotizado pelos lampejos azuis-piscina
brinca com a raia colorida todo circense
equilibrando-se como se na corda bamba
sobressaltando a atenção dos adultos
nem aí, saltando e se fazendo espetáculo
sem compromisso além de brincar aquoso

diante do picadeiro improvisado do olhar
o menino piscinal que fui, este outro, se repete:
inevitável o desfecho: “minha” raia invadida:
borbulhas e marolas: passo rente sem querer...
“moço, desculpa por atrapalhar” (como honrar
as águas da infância?) “imagina!”
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jacarés já com a boca aberta
tubarões farejando sangue

onças nadadoras famintas
águas-vivas boiam nada distraídas

para puxar os pés vários tentáculos
enguias elétricas ricocheteiam e lampejam

“preparados? posição... já!”
oOoOº°Ooº°oOOºOoooº°ooOº°OoOº°oOOº°o

eis que algo roça suavemente o corpo
perigo imaginado é coisa certa

sapo? arraia? baleia-assassina?
na verdade uma sucuri gigante!

oOoOº°Ooº°oOOºOoooº°ooOº°OoOº°oOOº°o
choro e brincar entornam

“não quero nadar de mergulho”
“quer ir para a mamãe?”

contra os males estão o colo quente
e a toalha azul quadriculada
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cê-tá-bão?-conversa-comigo
tá-ficando-cada-dia-mais-quente-e-o-povo-não-vem-nadar
dois-mil-nado-livre-o-que-você-quiser
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as jovens senhoras da hidroginástica,
em seus maiôs lisos ou floridos,
touquinhas de lycra, meias antiderrapantes,
“vai! rapidinho! um, dois, um, dois!”
teleguiadas também por outra jovem senhora,
todas sorridentes e inimigas dos absurdos
(baaaby, i'm hot just like an oven)
de seus corpos menopáusicos – “força no chute! sobe bem a perna!
joelho lá no teto!” –, exercitam também a língua:

que calorão! a água tá uma delícia!
meu netinho vem neste fim de semana...
(i need some lovin') uai, comadre! coisa boa!
olha ali, você viu quem está volta?
“concentra! vamo lá! força no braço!”
depois que quebrou a bacia rodando na seresta (and,
baaaby, i can't hold it much longer) seresta?
com o véi? seresta! voltou pra cá, pras patas velhas!
qua-qua-qua-quá! (it's getting stronger and stronger)

esse é aquele de murchar a barriga? “deita no
macarrão! pedalando! contrai abdômen!”
esse é bom, hein? e cadê o pé de valsa? (and when i
get that feeling, i want sexual healing) “shhh!”
será que os dois furunfavam? qua-qua-qua-quá!
(sex-u-al heal-ing) “que risaiada besta!
concentra! bicicleta! vai! troca de sentido!”
esse é bom! eu adoro essa música, profa!
ai, a gente sai até mais moça da aula!
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tio qual seu nome de verdade
tio sabia que eu sei nadar que nem o aquaman
tio você é tão bonito
tio cadê minha toalha
tio eu dei um golezão na água da piscina
tio meu pai disse que você é a xuxa das águas
tio quem é xuxa é uma nadadora
tio eu adoro sua touca de peixinho
tio você tá cansado
tio posso fazer xixi
tio eu pareço um golfinho olha
tio você fala engraçado
tio eu gosto muito de você
tio hoje vai ter brincadeira
tio é verdade que você vai embora
tio não me deixa ser engolido pelo ralo
tio eu quero a minha mãe
tio por que você gosta de criança
tio estou afogando (brincadeirinha)
tio você me ama
tio vou dar um pulão olha
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de-novo-dois-mil-de-volumão-pode-ser?
vai-tranquilo-bem-solto-zen-budista
prestando-atenção-no-ritmo-na-respiração
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semiazulejadas paredes em losangos
brancos cortados por um rodameio azul
ondinhas insinuando motivos aquáticos
conchas e cardumes estão invisíveis
golfinhos se repetem ad nauseam

local de guarda e revelação
desordenado mas democrático
espelho oxidado diante das pias
refletidos os ganchos tortos
acima do banco inteiriço de ardósia

esparsos pisos-estrados pretos
sobre um chão eternamente molhado
portas quebradas nos chuveiros
significam banhos pouco privativos
enquanto meninos e homens circulam

meninos repetem seus hábitos domésticos
põem à prova a educação do corpo
constrangidos entre a ingenuidade
e a curiosidade sobre outras matérias
perguntas sobre o que a sunga esconde

homens à mostra tímidos ou desinibidos
regras não ditas limitam visão e interesse
rápidos movimentos oculares manjadores
silêncios súbitos entre conversas fiadas
acenos breves e desvios estratégicos
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as mães à beira do vestiário masculino
quase rompendo o lacre invisível que protege
os menininhos do eterno convite ao útero
lá dentro o mundo possível se cria
aos pares gritos e conversas importantíssimas
sobre free fire dever de casa neymar cueca furada
bolo de aniversário stranger things medo do sexto ano
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para-aquecer-só-braçada-de-crawl-milzão
depois-cinco-medleys-de-duzentos
é-claro-que-dá!-dá-tempo-até-de-respirar
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a aprendizagem não suplanta a ignorância:
o não-saber-nadar (cf. Franz Kafka, “Diários”, “O grande nadador”)
se mantém a despeito do saber-nadar:
pela memória da espécie, pela inadaptação
do corpo ao meio, pelo desamparo
de si diante do movimento da água.

(daí que os primeiros minutos
são sempre uma novidade irônica:
braços e pernas fazem como? cotovelos
flexionados? essa puxada é assim?
mãos espalmadas? como, velocidade?
cabeça na linha d'água? quando se respira?)
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observando distraído sobre a mesa
uma garrafinha plástica destampada:

incontestável azul-piscina, como regra
a semiótica da água limpa e potável.

amaciado pelo nado, uma ideia flutuante,
fruto do tédio, volta de águas passadas:

se levada à orelha, quando vazia,
funciona como uma concha:

“um vago marulhar de ondas
sai dos meus ouvidos...” (cf. Mário de Andrade, “Canto do mal-de-amor”)

foto frente ao golfinho de acrílico:
mormaço: sufocamento: praia do morro.

[.................................................]

nenhum guarda-sol colorido aos meus pés.
nenhum cadáver devolvido à terra.

[.................................................]

estou a novecentos e cinquenta quilômetros
de distância do mar dos mineiros. faz calor.
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braçada-cinquenta-pernada-cinquenta-completo-cinquenta
nos-quatro-estilos-três-ou-quatro-vezes-faz-o-que-der
esse-eu-que-inventei-o-nome-chama-triunvirato!
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simples, fosca, azul-escura
rente, laceada, confortável
da adolescência e após
comprimindo os pensamentos à água
testemunha escusa dos impasses
de crescer e conquistar virtudes
de nadar como se não houvesse nada
a ser ou a se tornar
até que esquecida na gaveta
secura, vida terrestre

(aos poucos tomando conta
água mole, pedra dura
pelas frestas, pelos óculos
molhando sem suspeitas
os cabelos, as orelhas
atrapalhando a concentração
interrompendo enfim o nado
pequenos ajustes, pancadinhas
numa saída tudo se alaga
obviedade: touca rasgada)
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em fumê e embaçados
nada-se em leve penumbra
água quase avermelhada
melancolia compassada
a ser vencida pelo esforço
luzes brilhando menos
o império do azul acalmado

ou abusivamente azul
quando com lentes azuis
superlativamente celeste
portanto aéreo e rarefeito
nados se confundindo com voos
os holofotes como sóis brancos
contra a falsa transparência
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para-cada-setenta-e-cinco-de-estilo-faz-vinte-e-cinco-de-pernada
vaivoltavai-e-volta-fazendo-pernada-só-que-forte-com-intensidade
flechinha-com-perna-de-crawl-ou-ondulação-pode-ir
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terreno entulhado finalmente limpo,
nos fundos os azulejos recortam a si mesmos
da memória do que foi uma casa:

onde era água agora apenas terra e vazio;
nenhum refresco, poça alguma.
os que passam em frente ao lote comentam:

“ali houve uma piscina”, “tão quente...” etc.
de perto, é possível ver o bocal cimentado
na parede azul, sem fôlego, numa asfixia.
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vai-fechar-também-por-isso-muito-caro-esquentar-água
é-como-um-balde-deixado-no-sereno-durante-a-noite-vai-perdendo-calor
pela-manhã-está-gelada-e-não-melhora-muito-ao-longo-do-dia
olha-o-tamanho-desse-balde-semiolímpico
um-metro-e-quarenta-de-profundidade-doze-metros-e-meio-de-largura
não-dá-chega-o-frio-o-inverno-maio-junho-julho-ninguém-vem
se-fica-nos-vinte-e-quatro-graus-tá-ótimo-mas-abaixa-ainda-mais-ou-parece-estar-mais-fria
já-não-vinha-muita-gente-assim-muito-menos
no-calor-é-outra-história-mas-já-estava-ruim-de-dinheiro-antes
o-aquecedor-não-aguenta-estraga-sempre-caro-o-reparo
aluguel-manutenção-funcionário-nem-se-fala
vai-fechar-a-não-ser-que-aconteça-um-milagre
ninguém-quer-botar-dinheiro-nisso-aqui-não-dá-retorno
parece-que-tem-um-cara-interessado-em-tocar-vamo-ver
imagina-se-esse-azul-fosse-só-de-nota-de-cem-aí-resolvido-o-problema!
um-cardume-de-garoupas-cloradas-imagina-fazer-natação-assim-imagina
já-tirei-muito-do-meu-próprio-bolso-para-manter-aberto-agora-não-dá-mais
muito-caro-esquentar-água-aluguel-manutenção-funcionário-nem-se-fala
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aquecimento-quinhentos-costas
medley-de-cem-e-um-tiro-de-cinquenta
quanto?-até-acabar-o-horário-o-ar-os-braços-as-pernas
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à noite todo o corpo sacoleja espontaneamente
maravilhado pela leveza de si na água
embalado pela recordação da primeira aula:
os passos ritmados das caminhadas
que mamãe fazia chacoalhando sua barriga-piscina
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vestiário:
sacola, sapato
camiseta, shorts
touca, óculos

piscina:
ducha, raia
prancha, flutuador
mergulho, saída

pós-aula:
toalha, água
janta, banho
sono, sonho
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mil-crawl-quinhentos-borboleta-bora?-pra-dormir-bem!
já-tá-com-sono?-mais-tarde-cê-descansa!
qualquer-coisa-para-na-borda-e-faz-bolhinhas
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rente à superfície o hábito da noite
à ausência de luz mais ausência
águas calmas espelhando escuro
abaixo azul enegrecido como se abismal
discreto incide o luar filtrado pela janela
luzeiro argênteo sobre águas tornadas opacas
falsas estrelas aqui e ali sobre a lona plástica

(da água morosa de repente uma rigidez
grande tampo de vidro azul esverdeado
eu submerso e impossibilitado de respirar
desespero em direção às escadas, bolhas
contra o afogamento inevitável – acordar)
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de repente piscina tornada uma folha a4
natação antes em retrato agora paisagem:
sem raias-traços para ordenar ou separar
borda-margem abarrotada de alunos-letras
prestes a nadar-escrever: ao comando
do professor (autor?), “crawl!” (qual?),
movem-se caoticamente pela água-página
que a cada avanço-linha se esvazia
espirros e salpicos de muitos não sentidos
previstos em nenhum manual de biomecânica
a gramática deste nado-texto a ser inventada
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não-fez-quinhentos-borboleta-por-quê?
como-murchou-o-pulmão?-tenta-de-novo
só-focar-que-dá-certo!-sufocar-não!
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cena: sem bordas e interminável
azulejos corrediços de muitos azuis
grande tê se estendendo ao infinito
corpo oscilando pelas braçadas
pernada tal qual um motor monótono
vista gangorreando levemente até que
bolhas borbotões borbulhas bolas de ar
oOoOº°Ooº°oOOºOoooº°ooOº°OoOº°oOOº°o
engolir o fôlego encurtado e ser capaz
de finalmente respirar por brânquias
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touca e maiô cintilantes, vigor físico,
não alta, cabelos curtos e brancos,
dando braçadas como se acenasse a mim.

a cada respiração lateral uma bocada-sorriso de ar,
deslizando como se fosse um ser aquático
num brilho perolado e muito alegre...

sonho sem infernos, luminosa aparição
à luz do dia num corpo de água:
rio aqueronte? ribeirão sucuri!

o reconhecimento se dando à aproximação:
“maria lenk?” – rosto à vista,
serena surpresa – “vó? bença, vó!”
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trinta-minutos-pra-entre-mil-e-duzentos-e-mil-e-quinhentos
nada-de-desenhar-o-nado-é-pra-acelerar-a-braçada
entendeu?-depois-a-gente-vê-o-resto-pode-começar
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verdade, já que banida da vida
afirme por fim a vergonha
esconda sua nudez também
nas águas destes poemas

nós nos esquecemos de nós
o mundo é casa da mentira
e não há memória que resista
aos encantos da fabulação

nesta piscina inventada
estamos protegidos
pela corrosão lenta
mas certeira do cloro
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“então é por isso que você nada
que nem um peixe peixinho?”
contra isso ou apesar disso
nada é nadar simplesmente
como um fim em si uma piscina
não é propriedade ou água domada
mas cuspe na cara quando
tentei jogar futebol ou então
a vez que (quase) me afogaram
“é brincadeira, estamos só brincando”
também por necessidade significa
insistir e tentar algo diante da água
não ser mero peixe peixinho
mas se descobrir mais fluido
enquanto se sufoca submerso
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livre-livre-livre-livre-o-importante-é-nadar
o-que-você-quiser-do-jeito-que-você-quiser
nadar-é-sempre-morrer-na-praia
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hoje está difícil nadar
braços desencaixados
pernas desobedientes
o corpo estranha o cloro
o nariz aspira água
a garganta coça
os óculos se embaçam

nenhum voo de borboleta
crawl se torna tchau
não passar e passar mal
costas peito coração
a vida invadindo a piscina
nada-se apenas em ideia
fora da aula de natação
~

28 de setembro de 2023

vai a noite aos objetos da cozinha
de domésticos e familiares passam a outros,
sinistrados, suspeitos, estrangeiros:
esta mesa, que se tornou?
esta cadeira, quem lhe sentava?
estes talheres, em que ceia usados?

eis de novo o café, o almoço, o lanche, o jantar:
antigos, renovados, estranha luz,
meu avô cantarolando: "joão pica pau,
maria mexe o angu, teresa bota a mesa":
assentado, corpo rente ao tampo, mãos em repouso,
chapéu cobrindo o rosto, pito de palha cintilante,

olhando vazio o prato de porcelana branca
lascado na borda, lugar em que punha o dedo na
hora de se servir: prato de nenhuma refeição.
ali, o desejo de fazer lembrar o amparo
de uma família num cumprimento calmo:
"bença, vô". pigarro, tosse, rouquidão: "bençoe"

7 de setembro de 2023

patriotada

eis a farra da fanfarra: fogachos,
serpentinas, foguetes-fogos no ar!
bandeira, pipoca, fumaça, avião:
cavaleiros e cavalos: trotar!
marcha, farda, festim, canhão...
altibaixo, do povinho ao povão!
eis que um rasgo – "abaixo os fachos!"

parem a música! presto!
cessem qualquer gesto;
mais, prendam o fôlego!
segurem esses animais!
escutem: um resfôlego...
tresfôlego... deixem de dúvida!
ali! nada? pra frente! pra trás!

perigo, decerto: escutem!
quem se fez de perto? é certo
algo insurge no horizonte
ou está no meio de nós!
é coisa besta, brutamontes
ou jesus vindo dos pós?
é vermelho? é esperto?

ora, depois não se sabe!
meninas, meninos, banda!
que será?... é certo, age, anda!
"abaixo" o quê? quem falou?
os vermelhos? estão sem escape!
conspiração, no nosso dia! doutor?
mirou? preparar! apontar...

calados o bumbo e o trompete
verde-amarelo, a cena se repete:
busca não encontrada, pelo em ovo:
tudo inventado, cabeça dos bobos.
.................................................
pobres! pretos! coloridos! de novo?
fêmeas, todos vocês! apontar... fogo!

16 de julho de 2023

diálogo

— explica-me a diferença,
ó, sábio dos sábios,
do dentro e do fora,
porque sei o que vejo,
mas não vejo o que sei.

esta cadeira é uma cadeira
porque a vejo fora de mim;
concluo desta maneira
que não há em mim cadeira,
apenas um traço de seu fim.

— ó, aprendiz dos aprendizes,
é simples a explicação:
quando vejo uma cadeira,
sei que é uma cadeira,
mas poderia ser que não:

uma cadeira poderia perder
seu assento, seu espaldar
e ainda assim ser cadeira:
basta seu fim poder
em algum lugar estar.

— o que é uma cadeira,
senão uma afirmação?
ó, sábio mestre,
ela está dentro ou
fora do meu coração?

— a cadeira é e está,
bem como seu coração,
simplesmente, sem parte:
sente-se, ó, filho da dúvida,
para entender sua arte.

— na cadeira me sento,
já escuto seu sim;
agora sei, ó, pai sabido,
de pronto seu fim:
uma cadeira a contento

é fruto do pensamento! amém!
não vejo o vento, sinto sua festa.
uma cadeira pode também
não ser vista como esta!
assim é ou me prega peças?

— quanto à cadeira, afirmo
que não sou de enganos, ilusões:
sinta bem a cadeira, sem diasirmo!
desfrute: pense nela de maneira
que não seja pouso para suas aflições.

estando sentado e sem comoção,
descobrirá qualquer hora
que todo dentro é um fora
e que qualquer filosofia
serve de cadeira ao coração!

13 de junho de 2023

intruso
gato no motor.
num ato: ré. sangue. ar.
[....................]
o que é o amor?



preto e branco
destino, então?
horror: gato! xô! bartô?
ele ou ela em vão.



toalha-brinde
o corpo a cobrir.
vermelhas provas do ser.
ironia: vivo.



doutor, doutor
verdade à tona:
azar reverso. sem lar?
"ele está em coma".



eutanásia
estar sem estar:
sem dó, decidir e só.
[....................]
o que é amar?



ressopro
eis teu novo nome:
tadinho. após o fim,
tu, calor sem fonte.

13 de março de 2023

floresta, sussurros

este ecossistema familiar dos indígenas, bateado pelos garimpeiros, de correntão e boiada
este tropo medieval em que o mal e o desconhecimento se espelham e nos refletem
não faz ouvir o lamento da mãe que morre, o diabo a cozinhar ou as cores do vento (vovó willow que me perdoe)
pipiar dos pássaros ou ciciar das cigarras encobrem as mais antigas cenas do teatro do mundo
(que me perdoem as aves e os insetos) – noutra linguagem sussurra a bicharada:

botões desabotoados, braguilhas abertas, fricção, comoção!
pungentes vibram os homens seus lenhos de nenhuma cruz (ó, poesia, perdão)
buracos são mãos, bocas, dobras úmidas e pisca-piscas esfincterianos
à luz do dia se faz, entre carros estacionados e moitas, as lori lambys trepadas no parquinho logo ali
(perdão, perdão), um paraíso bíblico ao alcance dos nossos olhos mui terrenos

meditação guiada: imagine uma névoa que paira lentamente sobre uma floresta no fim de uma tarde fria de brasília
você é uma gota do orvalho que se forma, misturando-se à volúpia de fluidos e suores à meia-luz no parque da cidade
sinta sua liquidez transparente envolta de outras gotas tão pequenas como você, unidas em uma imensa orgia revigorante
os cheiros masculinos e a umidade invadem seu corpo de maneira a transformar você em uma brancura espessa e viscosa
agora você é o sexo combalido de um jornalista-voyeur que se masturbou tristemente diante da velha novidade etc.

23 de janeiro de 2023

rede

navegar sem mar:
sem horas, como uma droga.
vida a afogar.

5 de janeiro de 2023

telurismo patrocinense

terra do café:
na xícara, no pé. e
no povo de fé.