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doce ou salobra
pluvial ou marinha
bruta ou tratada
potável ou mineral
poluta ou residual
superficial ou subterrânea
glacial ou termal
dura ou mole
solvente ou instrumento de tortura
com açúcar ou gás
benta ou que passarinho não bebe
na boca ou no joelho
dormida ou suja
aquela ou maior
de perfume ou toalete ou colônia
de coco ou de cana ou de flor
ou gritada em “vai!” pouco sanitária
em aguaceiro ou aguaçal
na qual se navega em duas ou se afoga em pouca
que é bebida na orelha dos outros ou de chocalho
feita na dos outros ou na própria
de janeiro ou de março
rasas ou profundas
dormentes ou correntes
passadas e por baixo da ponte
quando fria usada para cozinhar
até que se abra e vai abaixo
ou ainda a clara e boa e da vida
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como propriedade da linguagem
tal como convencionada em seu órgão
primeiro isto é a boca antes da mão
que há de se lubricar em língua para
o aparelho consoante a si poder
fazer falar plenamente isto é
vencer a aridez do pensamento
com umidade saliva e perdigotos
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o que há na água senão
água somada a outras águas
que sendo também parte
de um todo que não água
são dispersões visíveis ou não
que partem de ou se concentram
num corpo d'água ou não
mas dele dependente
para então se diluir em água
mais água e mais água
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se é nariz, escorre ou entope
se é olho, chora ou seca
se é boca, vomita ou engole
se é rosto, abre ou fecha
nariz, olho, boca, rosto:
charada para as crianças
metáfora para os adultos
eis: de onde vem a água?
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no alto da bacia do paranaíba
de porte menor que um rio
não há beleza no nome
feito passagem estreita
de sulco de água corrente
para irrigar e abastecer
caudaloso ou mirrado
ora os cafezais se hidratam
ora as torneiras secam
novidade: barramento! estação!
o departamento projeta
a secretaria outorga
água à parte, do que se trata?
agro maior que eco?
quem é mesmo o feio?
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aparecida das águas do paraíba do sul
em que pescadores esperavam um pescado
e vem à rede o milagre de maria pescada
desgastada em sua tinta hipnótica
pelo engano da semiótica mariana
(azul é teu manto, branco é teu véu)
quando sua origem é ribeira e doce
(turvo é teu manto, lodoso é teu véu)
mais amiga da hostilidade da água
portanto mais projetada à fé do povo
desde a conceição divinamente virginal
até o barro que lhe molda em terra preta
degolada, raptada, perseguida em seu folclore
recomposta, coroada, louvada em seu ornado
sincretizada em todo fervor, chutada ao vivo
comparada pelos seus domínios à coca-cola
mãe líquida em perene ternura e perdão
aos filhos, ao mundo, aos inimigos, a deus
até que se desague marulhosa em sua santidade
em tempo vingará as águas de sua aparição
fará rebentar caudalosa as calmarias
estremecerá milagres de todo cristal em barro
em sua candura brasil fará tal como apadrinha
mostrando tormentas de mãe entornada
ó, nossa senhora da conceição aparecida
santíssima virgem embebida de deus
rainha dos mananciais, da nascente à foz
cristalina senhora, bentíssima água
refúgio e consolo dos liquefeitos e liquidados
sede fluidez e transparência na hora da morte
lançai purezas sobre esta gota indigna que sou
socorrei-me em todas sedes e securas e turvações
preservai-me contra desidratações e afogamentos e outros flagelos
dirigi-me em todas as naus espirituais e empresas natatórias
agraciai-me muitas águas para molhar e amar e gozar
por toda a aguagem e todas as estações, amém
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que mata em definitivo a sede
nascida como fonte que em si
faz saltar para a vida eterna
a mesma emulada no batismo
isto é, espírito santo solúvel:
água tornada água viva
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andar sobre? água-aberta!
mais é estar encanada e à mão
dócil ao simples gesto enquanto
os gatos curiam os filetes
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toda água existe em contenção
tudo capaz de conter água é aquário
logo, toda água existe em aquário
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céu mar rio córrego? aquário
piscina balde copo gota? aquário
nariz olho boca rosto? aquário
som sentido palavra? aquário
gesto ideia abstração? aquário
sol terra universo? aquário
e se houver um nada
a água um dia lhe chegará
fazendo do nada
imagine só aquário
já é sabido há páginas
que no nada se nada
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o aquário é um claustro
nada-se pensando em liberdade
até que se dê uma braçada na parede
de vidro como numa redoma infinita
a transparência se confunde com o meio
não abordar a borda por não imaginar
a resposta à pergunta que encobre
os pesadelos de estilhaço: por que nadar?
o aquário é um claustro até
que se eduque o nadador ao nado
diante da concretude de uma parede
contra um vidro a nunca ser quebrado
cabe se amigar da borda e respirar
ou pisá-la em viradas olímpicas
depois de muitos metros se perdem
o esmero a graça o encanto
o aquário não será um claustro
haja vista sua imensidão vítrea
tão invisível que se desrealiza
um claustro? que claustro?
enquanto nadamos pra cá e pra lá
até que o ar comece a cortar dentro
pulmões arfantes coração explosivo
a alegria de não haver onde emergir
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placas de vidro unidas por silicone
base revestida de isopor e fita isolante
numa das paredes uma imagem subaquática
o fundo com cascalhos coloridos
bomba filtro sifão plantas de plástico
grutas lodosas e escombros de resina
um ambiente artificialmente projetado
para tédio contínuo ou vida sem vida
na ponta do oxigenador um escafandrista
muito borbulhante e em pose estática
os moradores atrás das pedras dormindo
ou à superfície em busca de grãos ou
ainda brincadeiras com seu jovem criador
cujo interesse em outras domesticações
(faz-se tempo) o esvazia e empoeira
esquecido dentro do guarda-roupas
paisagem desbotada de pouca vista
as histórias de cada mergulho realizado
o escafandrista não contou a ninguém
já muito mortos nadando no ar os peixes
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mergulho perene sinal de doença
nadadeiras raspando no fundo
água esverdeada de microalgas
excesso de luz resíduos nutrientes
bolinhas de ração boiando
caminha de folha plástica vazia
fora d'água ainda resistir
dose extra de lidocaína
com artifícios de cerimônia
se faz um dobre improvisado de finados
no banheiro uma despedida tosca
gorgolejos do vaso sanitário
poderia dormir numa cama de gelo
seu cheiro nada ornamental
poderia sonhar com um jardim aquático
um cativeiro digno enfim
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natação alguma garante ou previne
fisgada onipotência ingenuidade
erro de cálculo distração cansaço
água rasa ou funda capazes do mesmo
tormentosa ou não permanece indiferente
um incidente contradiz o acidente
"mar não tem cabelo", diriam
qualquer um pode e ninguém deveria
(segundo o boletim epidemiológico
da sociedade brasileira de salvamento aquático
por dia morrem afogados 16 brasileiros
isto é 1 a cada 90 minutos)
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não se querem dilúvios pois a imagem é gasta
ou inundações de saneamento básico e irônico
abrem-se as comportas de um barramento inútil
e o que era represa se escoa espumoso e arejado
querem-se como num copo pronto para hidratar
são águas de poeta aguado portanto imaginadas
da melhor ou pior digam os sedentos ao beberem
com estalos de língua em refresco ou dor de dente
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