4 de janeiro de 2022

a imagem do rosto
não é o rosto

a lembrança do corpo
não é o corpo

o desejo do encontro
não é o encontro

existem, a( )pesar
fantasmagoricamente

1 de dezembro de 2021

retorcidos veios sob o branco
tornados roxos pelo desuso
acabados em nojos amarelos
de bases secas, delicadas
os pés podem um passo incerto
rotas as pernas que vacilam
pouco sanguíneas por
tabagismo e masculinidade
pelo ódio recreativo contra si
as feridas atraem as moscas,
os filhos – nenhuma piedade –,
que reúnem significados diante
do abismo, das necroses
de um corpo que jaz ereto
comprimindo os ossos frágeis
às cadeiras, às histórias
como um andarilho não vagante
decidido ou a esmo faz das
não memórias sua ossatura

diante de semelhada lápide
sandálias gastas de um chinelar
caseiro, arrastado, profundo
o andar vazio entre os incômodos
da casa repassada, repisada
talvez à espera de um passo
em falso, um tropeço nos tapetes
que desmonte este peso num lampejo
(visão fumegante da antiga sala:
os santos descascados, lascados
os terços sem contas, a ausência
ilustrada pelas poltronas, pelo sofá
a cristaleira e seus objetinhos
cobertos pela fina luz da nostalgia
numa mesma suspensão que volta
ao voo do filho, à hora inescapável)
e desfaça a cabeça-cemitério
em estilhaços e rezas de ternura –
conquista, loucura, divindade

26 de novembro de 2021

sóis inventados

morbidez? depois:
retângulos. cores. p(l)anos...
varais na L2.

21 de novembro de 2021

novembro chuvoso

comer, dormir. só.
as horas... misericórdia!
inventar um sol.

29 de junho de 2021

estávamos, eu e você, em uma costa plana e calma, cuja administração ficava a cargo de um clube do governo, talvez do senado federal. íamos entre o nos conhecermos e um princípio de aproximação amorosa de muito respeito e gentileza. eu observava o seu corpo eriçado e justo, ainda que não pudesse ver seu rosto com clareza, e sabia que mais cedo ou tarde ganharia acesso à pele, aos fluidos. me sentia plenamente seguro em sua companhia, como se pudesse confiar as mais obscuras banalidades à sua escuta, sem temor ou reticência, efeito da certeza de que eram recíprocos o interesse, a abertura, o desejo. calçávamos meias iguais, motivo de riso, espanto. no saguão de entrada, quando nos despíamos para ir às águas da praia, uma surpesa: você se adianta em direção ao guarda-volumes, deixa seus pertences e parte sem olhar para trás, sinalizando o meu trajeto seguinte. a recepcionista, quando me aproximo, me interpela: "qual a sua conexão?": diante do meu desconcerto, informa que o guarda-volumes também é responsável pelas redes móveis do estabelecimento, talvez à espera de minha pergunta pela senha. digo que quero apenas deixar ali minha mochila com as roupas que vestia e, trajado de banho, vou rumo à porta em sua busca. sinto que a felicidade é possível nesse ambiente azulado, solar, sabático, afastado do mundo cínico, ainda que governamental; sinto que sua presença me serve de um descanso maior, a promessa do seu corpo a me trazer novidades, iluminações. o conforto existencial de se sentir querido e inviolavelmente amparado. até que, alcançado você, parado e olhando fixamente para frente, vemos juntos como um acontecimento no horizonte o pombal monolítico, soturno, vazio: descobrimos sermos feitos dessa mesma matéria da paisagem aquosa e disforme, contingenciada pela dissolução.