14 de janeiro de 2014
a-presença-do-animal-(corpo)-a-presença-finda-do-meu-animal-(morte-ou-desaparição)-a-marcação-desta-ausência-presente-(memória)-a-pergunta-que-não-descansa-(cadê-a-dora?)-cadê-a-dora?-o-testemunho-triste-do-meu-gato-como-se-houvesse-sido-mutilado-os-ajustes-em-seus-hábitos-felinos-dormir-sozinho-comer-sozinho-beber-água-da-torneira-sozinho-o-testemunho-triste-da-casa-como-se-houvesse-sido-desanimada-os-ajustes-feitos-por-conta-da-ausência-da-gata-as-bolas-de-papel-foram-recolhidas-os-cordões-das-maçanetas-das-portas-retirados-uma-vasilha-de-ração-a-menos-o-tapete-predileto-guardado-as-sacolas-plásticas-desinteressadas-os-insetos-em-busca-de-serem-novamente-presas-fáceis-e-os-vestígios-de-hábitos-conjuntos-a-mim-o-iogurte-desacompanhado-o-banho-solitário-(mas-o-mistério-do-ralo-continua)-o-modem-e-a-mochila-limpos-de-manhãs-e-tardes-e-noites-de-dormir-os-carinhos-repentinos-cessados-mas-não-a-saudade-a-dora-sumiu-mas-não-a-saudade-
5 de janeiro de 2014
o frescor que o ódio traz rompe com qualquer monotonia dos dias; a destruição se transforma em necessidade, operar o caos do mundo pelas próprias mãos é a sedução mais profunda e doentia que os interditos não dão conta - estas condições de sociabilidade velam o mais secreto desejo - de manter oculto. a lei é a palavra irrefutável do dejeto, é a ordem suprema que autoriza a existência do crime. a transgressão, além de se despontar como ato, é humana, perversa, plena, suja, libertária, horrorosa. é o urro mais primitivo e sincero, que não se mostra como signo aos outros. corpo algum resiste ao tremor e frenesi que a paixão pela ruína desperta: a violência é a forma de amor mais gentil; só se concebe sexualidade a partir da decadência, da diferença em si e de si, como as lacunas de morte que a transição do tempo disfarça. o marco da descontinuidade possibilita os mistérios da obediência, os tratos adequados ao outro, a atuação dos afetos silenciados, o amor e sua aniquilação fundamental, o gozo impossível, mas mirado. mas não o sexo. o sexo é ilusório, dá sensação de haver algo contínuo e contíguo ao "para além do limite". como humanamente sexual, é preciso haver o flerte entre o erótico e o transgressivo - ou, de outros modos, saber-se assassino e mortal, apesar das experiências extremas do corpo. o ódio é osso, instrumento primevo que possibilita matar. o ódio é a morte encarnada sem que se precise morrer.
17 de dezembro de 2013
vóz iii
sobre os prazeres da vida, dizia: não tenho mais. quando eu ainda tinha saúde, fazia o serviço de casa, não me humilhava por conta de empregada. cozinhava, lavava, limpava. não sei se gostava, mas seu avô gostava, então por mim estava bem. mas o tempo passou, os médicos proibiram as poucas alegrias que sobraram. mas o pior foi com a comida. culpa da diabetes. até aquele doutor novo, bonitinho, que me acompanhou por último (levou uma bronca por conta da pressão alta e dos possíveis ataques cardíacos), falou que eu não posso com açúcar. não como mais nada: pão, rosca, pão-de-queijo, arroz, batata, sobremesa: só de vez em quando. café, por exemplo, só com adoçante. mas não contei pra eles que aqui em casa tem uns agrados - e não são só os mineirinhos na geladeira - que são meus e dos netos. deixa eu te mostrar. sobe nessa cadeira pra você ver (apontava para a cadeira próxima à escrivaninha). em cima do armário. (eu subia e pegava um saco cheio de sonho de valsa). acho uma delícia.
16 de dezembro de 2013
respiração (nome), movimento duplo dos pulmões: inspiração, expiração.
nariz (nome), orgão sensorial, sentido do olfato; narina; cheiro, essência; usos incomuns: qualquer objeto proeminente; algo óbvio.
pulmão (nome), orgão leve, de pouco peso. diz a lenda que o caçador, ao jogar o pulmão do animal abatido em água, o via flutuar, enquanto que o coração e as vísceras, pesados, dirigiam-se ao fundo.
ar (nome), atmosfera, ambiente que circunda o céu; fluido gasoso.
vento (nome), ar em movimento; sopro ao se falar.
hale (verbo), conjurar, invocar ou evocar; levar algo ou alguém de uma certa condição à outra. em inglês medieval, tensionar cordas (flechas em arcos, rédeas em animais, nós em âncoras).
inhale (verbo), respirar para dentro; uso não-costumeiro: comer rápido.
exhale (verbo), respirar para fora; evaporar.
hale (adjetivo), livre de injúrias (uninjured), íntegro (entire), aproxima-se de saudável (healthy) e inteiro, completo (whole).
breath (nome), odor, essência, cheiro, vapor (vapour remete à fraqueza ou ao padecimento ocasionado por algum choque).
breathe (verbo), respirar; cheirar.
spirare (verbo), respirar, soprar, respirar-fundo; estar vivo, ter inspiração.
respirare (verbo), soprar (em direção contrária); respirar-de-novo (o movimento duplo? a calma depois da tormenta?), recuperar-se do medo, tomar fôlego.
aspirare (verbo), inspirar pelos pulmões; estar favorável a, assistir (auxiliar), almejar, alcançar, buscar êxito, infundir; inflar(-se) de sentimentos e emoções
expirare (verbo), expirar pelos pulmões; passagem, último-respiro: morrer.
halitus (nome), hálito (o ar), hálito (o cheiro), bafo (o ar), bafo (o ato: bafejo), sopro.
spiritus (nome), respiro, sopro gentil de vida, inspiração, disposição; orgulho, coragem, vigor, arrogância; = princípio vital (anímico?) dos homens e dos animais.
um poeminha:
seus pulmões
vejo você de costas: sobem e descem
vejo você em arquejo: sob-des
vejo você dormindo: sobem. descem.
vejo você em movimento: sobem-descem-sobem-descem
vejo você assustado: sob
vejo você em euforia: sobemsobemsobem
vejo você falando: sobem, descem,
vejo você em tristeza: sobem. descem. e descem. e descem.
vejo você soluçando: so.bem, des.cem
vejo você feliz: sóbem.
uma prosinha:
me concentrei na linha dos seus ombros, tomei o limite do espaldar da cadeira em que você se sentava - eu estava atrás - e as oscilações da sua blusa como eixo, acompanhei seu corpo por minutos, os ruídos da sua respiração, as desordens e as tréguas que os efeitos da postura persistente traz, abandonei minhas pequenezas pela sutileza deste ato, tentei decidir minha vida com pressa (como quem se livra de mais um compromisso da agenda), não consegui, concluí desvairado: estou apaixonado por um traço.
nariz (nome), orgão sensorial, sentido do olfato; narina; cheiro, essência; usos incomuns: qualquer objeto proeminente; algo óbvio.
pulmão (nome), orgão leve, de pouco peso. diz a lenda que o caçador, ao jogar o pulmão do animal abatido em água, o via flutuar, enquanto que o coração e as vísceras, pesados, dirigiam-se ao fundo.
ar (nome), atmosfera, ambiente que circunda o céu; fluido gasoso.
vento (nome), ar em movimento; sopro ao se falar.
hale (verbo), conjurar, invocar ou evocar; levar algo ou alguém de uma certa condição à outra. em inglês medieval, tensionar cordas (flechas em arcos, rédeas em animais, nós em âncoras).
inhale (verbo), respirar para dentro; uso não-costumeiro: comer rápido.
exhale (verbo), respirar para fora; evaporar.
hale (adjetivo), livre de injúrias (uninjured), íntegro (entire), aproxima-se de saudável (healthy) e inteiro, completo (whole).
breath (nome), odor, essência, cheiro, vapor (vapour remete à fraqueza ou ao padecimento ocasionado por algum choque).
breathe (verbo), respirar; cheirar.
spirare (verbo), respirar, soprar, respirar-fundo; estar vivo, ter inspiração.
respirare (verbo), soprar (em direção contrária); respirar-de-novo (o movimento duplo? a calma depois da tormenta?), recuperar-se do medo, tomar fôlego.
aspirare (verbo), inspirar pelos pulmões; estar favorável a, assistir (auxiliar), almejar, alcançar, buscar êxito, infundir; inflar(-se) de sentimentos e emoções
expirare (verbo), expirar pelos pulmões; passagem, último-respiro: morrer.
halitus (nome), hálito (o ar), hálito (o cheiro), bafo (o ar), bafo (o ato: bafejo), sopro.
spiritus (nome), respiro, sopro gentil de vida, inspiração, disposição; orgulho, coragem, vigor, arrogância; = princípio vital (anímico?) dos homens e dos animais.
um poeminha:
seus pulmões
vejo você de costas: sobem e descem
vejo você em arquejo: sob-des
vejo você dormindo: sobem. descem.
vejo você em movimento: sobem-descem-sobem-descem
vejo você assustado: sob
vejo você em euforia: sobemsobemsobem
vejo você falando: sobem, descem,
vejo você em tristeza: sobem. descem. e descem. e descem.
vejo você soluçando: so.bem, des.cem
vejo você feliz: sóbem.
uma prosinha:
me concentrei na linha dos seus ombros, tomei o limite do espaldar da cadeira em que você se sentava - eu estava atrás - e as oscilações da sua blusa como eixo, acompanhei seu corpo por minutos, os ruídos da sua respiração, as desordens e as tréguas que os efeitos da postura persistente traz, abandonei minhas pequenezas pela sutileza deste ato, tentei decidir minha vida com pressa (como quem se livra de mais um compromisso da agenda), não consegui, concluí desvairado: estou apaixonado por um traço.
15 de dezembro de 2013
está o estrangeiro furioso por não ver humanidade em rosto alheio que não consiga reconhecer a si mesmo seja em olhar seja em fala e se ri louco dos paraísos tristes que vê pela janela ao se encaminhar a um local de passados e margens mal delineadas de memória declarando que
pedra alguma é suficiente para se dizer eterna por mais atemporal e perene que a dança molecular faça a solidez restando à pedra ser somente pedra e pedra em seu espaço de pedricidade ou animal algum atende ao chamado que lhe é dirigido apenas por hábito mas por evocações superiores de designador que lhe serviu de batismo se existencial ou essencial cabe a quem o chame resolver ou homem algum se diz falante autorizado sem mortificar a própria história
reflexão alguma vale as certezas centrais de sua vida por mais bem construídos que sejam os argumentos não há deslocamento quando se trata de crendice articulada nas firmes premissas de que harmonia não é calmaria reconhecimento não é aceitação passagem não é transição esquiva não é recusa e júbilo ao se repetir em suas máximas até que todas sejam uma só ato não é fato ato não é fato ato não é fato
elevadores filas assentos espelhos utensílios e esquecimentos cotidianos não são alteridades dignas de serem consideradas como tal e dignas é tomado aqui como conduta moral de se elevar o outro a mesma condição de si mas que elevadores filas assentos espelhos utensílios e esquecimentos cotidianos são planos quaisquer imanências duplas captação e apreensão da mesma percepção genuína que o configura como profano e santo e portanto sexuado e descontínuo.
pedra alguma é suficiente para se dizer eterna por mais atemporal e perene que a dança molecular faça a solidez restando à pedra ser somente pedra e pedra em seu espaço de pedricidade ou animal algum atende ao chamado que lhe é dirigido apenas por hábito mas por evocações superiores de designador que lhe serviu de batismo se existencial ou essencial cabe a quem o chame resolver ou homem algum se diz falante autorizado sem mortificar a própria história
reflexão alguma vale as certezas centrais de sua vida por mais bem construídos que sejam os argumentos não há deslocamento quando se trata de crendice articulada nas firmes premissas de que harmonia não é calmaria reconhecimento não é aceitação passagem não é transição esquiva não é recusa e júbilo ao se repetir em suas máximas até que todas sejam uma só ato não é fato ato não é fato ato não é fato
elevadores filas assentos espelhos utensílios e esquecimentos cotidianos não são alteridades dignas de serem consideradas como tal e dignas é tomado aqui como conduta moral de se elevar o outro a mesma condição de si mas que elevadores filas assentos espelhos utensílios e esquecimentos cotidianos são planos quaisquer imanências duplas captação e apreensão da mesma percepção genuína que o configura como profano e santo e portanto sexuado e descontínuo.